Pensamentos Soltos Sobre a Internet

Algumas coisas são muito engraçadas. Uma das minhas maiores frustrações é não ter feito dinheiro com a bolha da Internet. Várias pessoas que eu conheço, mais velhas, mais novas ou da minha idade, fizeram um bom dinheiro abrindo sua empresinha que ou foi vendida ou fez algum sucesso e sumiu na explosão da bolha.

Nessa época eu lia sempre a Negócios Exame, uma edição especial que a revista Exame criara apenas para a ‘Nova Economia’. Era engraçado ver todas aquelas previsões.

NegociosExame

Dia desses eu estava sozinho em casa e resolvi mexer na pilha de revistas velhas. Peguei alguns exemplares de InfoExame, Você S/A e a Negocios Exame datando de 1999 até 2002 para ler, levei para o terraço com uma caixa de cervejas e vamos ver o que o futuro nos aguardaria…

Claro que exceto por um ou dois malucos as previsões eram bem comedidas. Ninguém previu nada revolucionário (pelo menos naquelas edições). Números não foram atingidos, a economia da Internet não aconteceu e o resto eram perspectivas evolucionários, não revolucionárias, que estão acontecendo.

O engraçado de ler material da agora chamada Web 1.0 é que as pessoas (nós!) falavam de coisas que só acontecem hoje como se fossem comum naquele tempo, 5, 6 anos atrás. Negócios completamente baseados em micropagamentos ou em manter o usuário online por horas a fio quando apenas hoje conseguimos começar a montar estrutura para mciropagamentos e criar conexão razoavelmente barata.

Aliás público brasileiro é interessante. Veja o que faz sucesso por aqui: Orkut, Fotolog, MSN.

O Orkut não é a primeira rede de relacionamentos nem a mais famosa do mundo. Friendster é bem mais velha e o MySpaces tem mais sucesso lá fora, parte se deve ao fato dos gringos não aguentarem brasileiros fazendo bagunça e falando português em tudo quanto era lugar no Orkut.

Fotolog é um serviço ruim, um host lento, um site feio e até onde eu sabia só se pode mandar uma foto por dia. Flickr e Fotki dispensam comentários em sua superioridade, mas isso não impediu que houvessem até clones brasileiros do Fotolog.

MSN é uma coisa engraçada. O ICQ, primeiro do gênero, existe desde antes de eu entrar na Internet. O MSN é talvez o Instant Messenger com menor número de recursos úteis e maior quantidade de besteiras como aqueles emoticons irritantes que fazem o texto da minha irmã parecer escrito em hieróglifos animados.

Mesmo assim, os três são ou foram febre por aqui. Brasileiro não tem computador, vamos e venhamos, mas com a já comentada alta disponibilidade de conexão (R$200,00/mês para uma empresa não é caro) boa parte dos brasileiros que têm acesso a um computador, dos office-boys até os CEOs, têm acesso à Internet.

São coisas como os três mosqueteiros citados acima que fizeram meu irmão, estudante de direito, pagar uma conexão Velox para ele ficar conectado 24 horas. Há alguns anos ele me via conversando horas a fio no IRC e achava aquilo terrivelmente chato, até que os amigos dele também foram aprar na Internet (claro que não no IRC). Agora eles conversam madrugada adentro.

Eu vi um sinal dos novos tempos também quando, naquele dia, desci do terraço e ao passar pela cozinha vi uma caixa da Americanas.com. Eu não lembrava de ter pedido nada e se tivesse pedido quem iria abrir uma caixa minha? Para minha surpresa o nome que estava na etiqueta era da minha mãe. Então eu pensei que ela havia me falado disso, também havia me falado que comprou o aparelho de DVD-o-kê na Internet. Na hora que ela falou eu não havia parado para pensar mas naquele momento, após ler as cervejas e beber as revistas (ou vice-versa) eu vi que todo aquele escarcéu da bolha estava completamente sem timing.

A hora de abrir uma pontocom de sucesso, como já provaram alguns por aí, pode ser agora. Não para ganhar dinheiro e vender sua empresa para um grande portal formado por capital especulativo que vai falir em doze meses.

Nós temos hoje tecnologia e conexão razoavelmente abrangente. Abrangente é mais que disponível pois mesmo se houvesse conexão disponível à um preço absurdo ninguém compraria, temos conexão nas faculdades, nos escritórios e até no McDonald’s.

Anteontem eu conversava com um amigo sobre os tempos do Clipper e dos Sistemas Comerciais Integrados. Muito programador ganhava (e ganha, eu conheço casos) a vida vendendo software apra as lojinhas da vizinhança. Um dos maiores medos destes era que seu código-fonte fosse roubado e isso impedia, por exemplo, que muitos destes autônomos montassem uma empresa e contratassem funcionário, o código era apenas dele, apenas ele iria mexer e ia morrer com ele.

Este comportamento explica porquetantas pessoas aidna hoje entram em listas de Java ou Ruby atrás de meios para proteger seu código. A mé-notícia é que não há muito o que fazer: bytecodes são facilmente descompilados e Ruby é interpretada.

Acontece que hoje temos um mercado diferente. O mercado que era a vizinhança passou a ser o mundo. A isponibilidade e confiabilidade de conexão permite que lojas tenham aplicações de online em vez de instalar aquele trambolho a cada atualização.

Iniciativas como o AppExchange prometem fechar o caixão das ‘aplicações desktop’ (o que falta, na minha opnião, é um ‘servidor de aplicações do cliente‘). Junte ao Network.com e pronto, temos algo. O que será?

Acho que passamos da barreira do non-sense sadio aqui, transmissão encerrada.

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