3 Letrinhas

Você sabe o que é um ataque de força bruta? É quando você tem um problema para resolver (uma senha para quebrar, por exemplo) e para chegar a solução você tenta todas as formas possíveis. É um desperdício de recursos tremendo quando há outra alternativa, além de ser ineficaz contra alguns problemas (principalmente problemas cuja resposta muda conforme se tenta chegar a solução).

Este é o espírito de boa parte das pessoas que contratam as famosas empresas de 3 letrinhas. O termo surgiu em uma das intermináveis conversas entre Marcos Eliziário e eu e serve para designar empresas que você conhece muito bem. São aquelas consultorias que contratam pessoas após 10 minutos de entrevista e cobram 90% a mais pela hora destas pessoas do que o que pagam para ele (que normalmente são contratados como PJ, cooperativa ou outro meio escuso).

Estas empresas se aproveitam do fato de que qualquer macaco consegue criar um programa de computador e que todo mundo precisa de programas de computador, ou pelo menos pensa que precisa. O modelo de negócios é bem simples: entupimos o cliente com técnicos de nível júnior ou menor e cobramos preço de senior ou mais. Como o cliente não vai saber quem são nossos funcionários nem vai testá-los precisamos de selinhos de qualidade (SCJP, MCP, whatever) nos curriculuns dele. Como o cliente não sabe o que é um processo de software ou como ele funciona precisamos de um selinho de qualidade (CMMi, MPS.br) no nosso.

Essas empresas se valem do “fator Sheakespeare” e de como ele funciona bem em TI. Bem para quem fornece, claro, para quem compra e quem trabalha em ambos os lados é uma bela dor-de-cabeça. A forma como tratam seus recursos humanos é o que mais mostra suas 3-letrices. Imagine um porto. Existem pessoas que trabalham abrindo containers e descarregando o conteúdo em algum lugar. Estas pessoas não têm a menor chance de subir na sua carreira, se elas querem ter um futuro elas devem parar de fazer o que fazem e assumir outra profissão. Sim, somos estivadores, commodity, para estas empresas. Para crescer ou ganhar algum dinheiro você tem que largar tudo aquilo que estudou e “evoluir” para uma posição de gerência de pessoas ou processos.

Além do simples fato de que nem todos são bons com pessoas e processos (vide os gerentes ruins e medíocres que temos aos quilos por aí), estas empresas renegam o fato máximo de que gerência de pessoas, de processos, de custos ou de qualquer coisa é uma disciplina complexa e cheia de variantes por si só. Não é a toa que temos tanta discrepância por aí.

Quem lê este blog sabe que eu sou um grande defensor dos conceitos de engenharia de software. Não é porque você usa uma plataforma OO, por exemplo, que está usando objetos, pode estar fazendo a besteira de usar BOs e VOs, sem ter sequer noção do que está fazendo. Esta ignorância sobre os princípios básicos que regem as coisas é a mesma que faz com que uma empresa dessa pegue um framework completamente iterativo como RUP e transforme em waterfall, por exemplo.

Quer fazer um teste rápido? Sua empresa tem “fase de análise”? Vocês tratam as fases do RUP como análise/especificação/implementação/implantação, nesta ordem? Se sim sinto muito, meu amigo, mas você não usa RUP., usa o que te contaram que era RUP. Que tal ler um bom livro sobre o assunto e não confiar em 3 letristas?

Seu gerente de projetos faz questão de agendar todos os possíveis eventos em cronogramas e Gantt Charts enormes que abrangem todo o projeto? Ele está atrasado pelo menos 5 anos.

E quanto tempo isso dura? Por quanto tempo esse modelo de negócios é viável? Alguns sinais começaram a ser vistos como ameaças de demissão em massa e corte de custos. Mas ainda há muito dinheiro e por um bom tempo o cliente ainda está disposto a gastar o valor de uma produção de Hollywood quando na verdade o que ele queria era ler (não necessariamente ter ou fazer um) um pocketbook de Rei Liar (cujo texto está disponível gratuitamente).

37 Responses to “3 Letrinhas”

  1. [...] necessidades de desenvolver um software. E imagine também que esta empresa (cliente) contratou uma empresa de 3 letras para fazer o [...]

  2. Leandro Moreira says:

    Ótimo artigo, parábens P.C., cada dia que vejo seu blog me intusiasmo a ler mais.

  3. Bruno says:

    Parabéns pelo excelente post.
    Alguma sugestão de livro decente sobre RUP?

  4. pcalcado says:

    Menos sobre RUP, mais sobre desenvolvimento iterativo mas excelente nos dois temas:
    http://www.amazon.com/Agile-Iterative-Development-Managers-Guide/dp/0131111558

  5. [...] mesmo acontece com desenvolvimento de software. Todo mundo indo trabalhar nas empresas de 3 letrinhas, e ao mesmo tempo reclamando que a maioria dos projetos de sofware é mal gerenciado, planejado, [...]

  6. Alguem que conheço levou uma alfinetada na questão do gantt chart

  7. [...] e relatórios derivados dos dados inseridos. A maioria das empresas (especialmente as de 3 letrinhas) não consegue enxergar o investimento em usabilidade, arquitetura da informação e design como [...]

  8. Eu também acho que os sinais do apocalipse estão surgindo, mas eles ainda vão demorar um bocado pra chegar no apocalipse de verdade, porque essas “práticas” estão espalhadas por toda comunidade de desenvolvimento de software aqui no Brasil.

    O que você mais vê por aí são empresas procurando certificados ISO ou PMI pra conseguir “entrar” nos mercados internacionais, e pra fazer isso eles estão topando qualquer coisa e numa empresa dessas, o consultor que diz que a documentação e o processo tornam o profissional facilmente substituível vai ser tido como deus, já que pra o maior “problema” pra essas empresas é exatamente o tal do recurso humano.

    Outra coisa, esse fundo cinza tá paw Phillip, bora trocar a cor desse troço por favor :P

  9. Josir Gomes says:

    Olá Phillip,

    apesar da minha empresa ter 3 letrinhas (JSK), eu concordo com o seu post em gênero, número e grau.

    No meu caso, a carapuça não serviu pois sou adepto de metodologias agéis até mesmo antes de saber que elas existiam formalmente. Mas sou parceiro em projetos com uma consultoria 3 letrinhas e sei como eles funcionam…

    Um abraço,
    Josir.

  10. Fábio says:

    Post maneiro shoes.

    Outro dia conversando com um colega (que pouco tem a ver com o ramo de TI), usamos a “Corrida dos Ratos” como analogia para avaliar a carreira de profissionais com perfil técnico.

    Há oportunidades boas, desafiadoras, nem sempre fáceis de preencher, salário razoável, mas que exigem muita responsabilidade / dedicação.

    Fazem o sujeito dar valor a cada gota de suor do trabalho, e adquirir experiências que vão além da linha de código: vislumbrar o contexto de negócio onde se encaixarão suas soluções, e nesse horizonte buscar novas oportunidades.

    Apesar de ser difícil sair dessa “corrida”, é nesse perfil de profissional que acredito que nascerão bons negócios de TI, por mais que possa demorar para o mercado valorizar tais empreendimentos perante às que vc chamou de “empresas de 3 letrinhas”.

    Abs
    Fábio.

  11. André Pinto says:

    Infelizmente isso que você relatou é verdade…. Muita gente acha que faz RUP… Na verdade vejo mesmo é um “belo” de um waterfall… Infelizmente acho que o desenvolvimento “ágil” (XP, Scrum) ainda assusta a maioria das empresas. Essas empresas fornecedoras só sobrevivem porque os clientes (ainda) não sabem como funciona o desenvolvimento de software e acham que quantidade de profissionais trabalhando no sistema é um bom “atendimento”… pois o dia que descobrirem e souberem escolher empresas de qualidade será o fim do funcionamento desses fornecedores que prestam um péssimo serviço atualmente e brincam de desenvolver software…

  12. [...] vou ser o primeiro, nem o segundo e muito menos o terceiro a falar sobre esse assunto. O grande lance é: fique atento ao mercado. Se [...]

  13. [...] empresas de 3 letrinhas vão continuar em [...]

  14. [...] o próximo ano a minha previsão é que realmente essas empresas de 3 letrinhas tenham uma pequena queda, pequena mas perceptível no plano de contas. Como em qualquer cultura [...]

  15. [...] empregados por outras empresas: É muito engraçado ver gente que trabalha oficialmente para uma empresa de três letrinhas, CMMi nível 23 e meio praticando agile feliz da vida e comentando como este é o primeiro projeto [...]

  16. [...] A maravilhosa teta chamada SOA Nos últimos meses, tenho ajudado a empresa onde trabalho a escolher um fornecedor para implantar SOA na casa. Infelizmente, não nos está autorizado a fazermos nós mesmos. Os fornecedores escolhidos pela empresa para nossa avaliação, são quase todos fornecedores [A-Za-z]{3}. [...]

  17. [...] que espalham o espírito de desenvolvimento Fanfarrão pelo mundo a fora. Normalmente têm três letrinhas e são um exemplo a ser seguido por todo Fanfarrão que se [...]

  18. Rodrigo says:

    Ponto 1: É compreensível a sua revolta contra a terceirização, mas o mundo é capitalista e os acionistas visam lucro e não qualidade, tanto de software quanto de ambiente, vida, etc. Isso é aplicado em TODOS os setores, não só TI. Assitam “Surplus - Terrorized into being consumers” ou ate mesmo o consagrado “The corporation”. Eu mesmo já fui contratado por essas empresas e explorado ao máximo. Fazer o que, eu também tenho que comer:)

    Ponto 2: Dizer que as métricas de PMBOK estão ultrapassadas ou gráficos bonitos que gerentes adoram são ineficientes. Desculpa porque ai eu descordo totalmente. Não vou me basear por um blog ou um único site que coloca apenas 16 paginas na internet. Está ruim? me mostra a solução ou faça melhor, elabore algo novo (sei la). O que pode existir são gerentes de projetos perdidos e sem saberem qual é a sua real função.

    My two cents…

    Rodrigo Piovesana

  19. Rodrigo,

    1) Desculpe mas acho que você não entendeu absolutamente nada do texto. Ele não fala sobre a terceirização, fala sobre prestadores de seviço que não prezam por qualidade e resolvem coisas na força bruta

    2) Eu não falei explicitamente do PMBOK mas o livro, apesar de bem intencionado, acaba criando distorções da realidade. Dizer que um documento na Internet não tem valor é uma falácia mas ainda que não fosse se você gastar dez seundos numa livraria online procurando as palavras-chave deste e dos textos relacionados vai achar vários livros (sim, livros! papel! editora! informação fixa e imutável! bem século XIX!). O próprio PMBOK propõe uma solução para isso: Rolling wave planning, e indica para projetos comc aracterísticas de projetos de software. Não é preciso inventar nada novo, as técnicas para isso possuem mais de vinte anos, basta um pouco de boa vontade para procurar soluções de verdade e não apenas seguir a manada rumo ao precipício.

  20. Rodrigo says:

    1 - Entendi sim. E você deveria aceitar críticas, afinal quem coloca texto na internet é você e tem que estar aberto para isso. Assim como eu não entendo nada, e não sei nem ler um texto segundo você, estou sendo criticado e nem por isso fui mal educado. E a culpa não é das terceirizações? “são aquelas consultorias que contratam pessoas após 10 minutos de entrevista e cobram 90% a mais pela hora destas pessoas do que o que pagam para ele (que normalmente são contratados como PJ, cooperativa ou outro meio escuso).” .. faça-me o favor decida-se então…

    2 - Vou ler esses texto “Rolling wave planning” para ver se fale a pena e quanto a um texto encontradado na internet, não mudo de opinião.

    Em tempo: não precisar ser uma manada rumo ao precipício, basta ter um lider rumo ao precipício…

    FALO!

  21. 1 - Novamente você não entendeu o texto. Eu costumo ser bem aberto à críticas mas quando alguém chega ao meu texto criticando algo que não entendeu eu tenho direito de esclarecer.

    Seu argumento não é lógico. Não é porque existem consultorias ruins que não existem boas consultorias e como outros posts deste blog dizem eu sou consultor de software há bastante tempo, a diferença é que minha consultoria tem um processo seletivo mais restrito do que o descrito, e preza pela qualidade. Como falei antes esta e a crítica do psoto, não à terceirização.

    2 - Eu não quero mudar sua opinião.

  22. Rodrigo says:

    1. Ainda esta discutindo isso? Eu entendi o seu texto, pode acreditar nisso, não tenho problema pedagógico em juntar parágrafos e formar em um texto, e sim você “quando alguém chega ao meu texto criticando algo que não entendeu eu tenho direito de esclarecer”. Esclarecer o que? a única coisa que fez foi “acho que você não entendeu absolutamente nada do texto”. Para quem quer esclarecer está bem obscuro o seu ponto.

    E quem aqui falou que a empresas terceirizadas são boas ou ruins? e acho que você tem ler um pouco melhor o meu primeiro post porque eu disse: “os acionistas visam lucro e não qualidade, tanto de software quanto de ambiente, vida, etc.” … esta escrito ai em cima Qualidade. O filme é uma dica para quiser ver…

    2. Obrigado, mas não vou mesmo.

    3. Já deu esse post… cansei…
    FALO e boa sorte!

  23. [...] empresa onde trabalho, uma empresa de três letrinhas, tentamos implantar DDD em um projeto, mas é difícil fazer isso já que quem tem contato com o [...]

  24. [...] da caixa. Isso não é fácil numa consultoria, você pode imaginar, já que o mercado tende à empresas de três letrinhas que não se interessam tanto em otimizar ou melhorar e sim em cobrar por [...]

  25. Luís says:

    O que seria uma empresa de 3 letrinhas?

  26. [...] Mas é fundamental que qualquer empresa conheça muito bem seus fornecedores, antes de contratar qualquer consultoria com CMMi [...]

  27. Marihelen says:

    Bem… eu ja vivi na pele o fato de precisar subcontratar desenvolvedores que foram vendidos como senior e na verdade não tinham a experiência de um pleno. Se não tomasse ações rápidas, poderia ter condenado o projeto inteiro por conta disso.

    Sobre as 3 letrinhas… Em primeiro lugar, eu acredito que o uso de qualquer metodologia (desde que com bom senso) é positiva. Isso estrutura, organiza, orienta e principalmente da um norte à empresa e ao trabalho.

    Além disso, eu acredito que o uso de métodos ágeis e iterativos requer uma maturidade muito maior do que os métodos convencionais, tanto de processo de software como de gerenciamento de projeto (na minha opnião, um não exclui o outro). E isso é outro ponto que vivo na pele atualmente. Trabalho em uma empresa que a menos de um ano conquistou o selinho CMMI L2, e atualmente estamos trabalhando para conseguir o L3 do CMMI. Como o foco agora é muito mais as áreas de processo de engenharia, percebemos a grande necessidade de tornar o processo mais ágil e prático.

    Lindo! Descobrimos “o que” precisávamos, desenhamos o processo novamente, possibilitamos a escolha de ciclos de vida iterativos, desenvolvemos todas as possiveis regras para isso, enfim, tudo definido!

    E aí… esbarramos na famosa “institucionalização” que nada mais que USAR! E aí meu amigo, o bicho pegou, percebemos mesmo que precisamos amadurecer muito, estudar muito, para aplicar isso tudo corretamente. Os problemas que encontramos são basicamente: mudanças culturais, tempo habil para mudar, minimizar os impactos nos projetos atuais, ou seja, doses homeopáticas… e por ai vai.

  28. [...] Mesmo assim não prova que você é um bom desenvolvedor de software ou melhor que alguém. Você consegue imaginar o Fowler ou Beck, estudando pra uma SCJP? Aliás, será que eles passariam em uma seleção de RH em empresas de 3 letrinhas? [...]

  29. [...] Mesmo assim não é o exame que te faz capaz de desenvolver software com qualidade. Não dá pra imaginar Fowler ou Beck, preocupados com uma SCJP, por exemplo? Aliás, se a febre que assola o supermercado existisse na época em que eles procuravam emprego, difícilmente seriam aprovados pelo RH de algumas empresas. [...]

  30. [...] Por mais incrível que possa parecer, ainda existem muitas empresas que trabalham dessa forma. Especialmente as famosas consultorias [A-Za-z]{3}. [...]

  31. Pedro says:

    Talvez, embota as pessoas possam torcer o nariz por ser mais uma “certiificação”, creio que o ideal é a adoção, no caso da prestação de serviços de TI, das práticas descritas no eSCM-SP.

    Vale lembrar que no modelo eSCM existe uma “certificação” para o cliente também, é o eSCM-CL.

    Mais cedo ou mais tarde o mercado vai perceber o valor da qualidade e maturidade do serviço prestado.

    Um outro grande problema das empresas de 3 letrinhas é que em muitas vezes, os processos (CMMI, MPS.BR, ISO) só são seguidos nos projetos que vão ser fruto de avaliação. Uma alternativa é o cliente, contratualmente, obrigar que o projeto contratado, ao final, seja avaliado.

  32. [...] É por essas e outras que é tão mais fácil convencer o nível estratégico das organizações a patrocinarem a adoção de processos ágeis do que convencer o departamento de TI que existe vida inteligente além das empresas de 3 letrinhas. [...]

  33. [...] a minha experiencia vem de trabalhar com equipes alocadas no projeto, fora quando eu trabalhava com empresas terceiras de três letrinhas, onde experimentei na própria pele o pesadelo das malditas fábricas de [...]

  34. [...] Mesmo assim não é o exame que te faz capaz de desenvolver software com qualidade. Não dá pra imaginar Fowler ou Beck, preocupados com uma SCJP, por exemplo? Aliás, se a febre que assola o supermercado existisse na época em que eles procuravam emprego, difícilmente seriam aprovados pelo RH de algumas empresas. [...]

  35. [...] sei ao certo o motivo, mas sei que uma boa parte da culpa está na “balela” que algumas empresas-de-três-letrinhas tentam empurrar sobre seus clientes e/ou desenvolvedores que utilizam suas tecnologias/ferramentas. [...]

  36. Denilson says:

    O segundo link deste post está quebrado.

  37. [...] para mostrar que “manja” e impressionar os chefes. (Imagine que um arquiteto de alguma multinacional 3 letrinhas definiu qual será a arquitetura, escolhe Java como Linguagem e Struts 1.x.x (antigo já)) [...]