A Completa Irrelevância do Certified Scrum Master
Semana passada o Richard Durnall me chamou para assistir a uma aula que ele deu na University of Melbourne. O Rich é o guru local de Lean e é uma figura.
A aula foi interessante. O curso é o mestrado em alguma das 343.435 ramificações de Tecnologia da Informação, basicamente uma escolinha para CIO-wannabe. Para se ter uma idéia todas as perguntas da sessão foram sobre implantação de ERPs, você via claramente que nenhum dos estudantes tinha a mínima vivencia na indústria e acreditavam piamente nas suas Info Corporate da vida.
A matéria era sobre comparação de metodologias e o Rich não foi o único. Antes dele apresentou um senhor, que é professor da instituição e arquiteto do maior banco da Austrália, onde inclusive tenho conta (brr…). A palestra do senhor arquiteto foi sobre como ele participou da salvação de um projeto de data mining usando o bom e velho waterfall. O único ponto diferente de uma lição clássica sobre como não fazer software foi sobre o uso de técnicas de Six Sigma para avaliação e priorização dos requisitos.
Quando chegou a vez do Rich apresentar Agile/Lean foi um contraste enorme. Na sessão de perguntas:
- Você falou sobre estes métodos ágeis e sobre como eles…er.. não ligam para requisitos. O [cara defendendo waterfall] apresentou um caso real de um grande banco. Você realmente acha que as técnicas de algo como agile podem competir com Six Sigma? [nota: uh?]
- Então, na minha apresentação eu fui bem ralo e essa é uma palestra introdutória, então foi bom você perguntar isso. Eu trabalhei na [top 5 montadora de automóveis], na [maior empresa aérea do mundo] e em alguns bancos. Nas duas primeiras empresas eu fiz parte da implantação de Six Sigma, inclusive eu sou Black Belt. O que eu vi deste processo foi […] e por isso que agile/lean é uma boa escolha.
Agora pense que em vez de “Six Sigma Black Belt” ele tivesse dito algo como “inclusive eu sou Agile Software Specialist e os problemas de Six Sigma são […]”. Teria o mesmo efeito?
Outro caso recente e interessante foi no Australian Architecture Fórum em Sydney. O Halvard estava apresentando uma palestra extremamente interessante sobre governança de projetos SOA onde a única ferramenta é um wiki. Em algum momento alguém levanta:
- Ok, ok, isso aí é muito Web 2.0, muito legal mas não é aplicável no meu cenário.
- E qual seu cenário?
- Eu trabalho em um banco, faço parte do grupo de controle de serviços de segurança. Isso de REST, wiki é muito legal mas vocês não entrariam num banco de modo algum!
- Uhm.. interessante você falar disso porque segurança em serviços é uma das minhas áreas de estudo… eu concluí meu Ph. D. em SOA na Universidade de Sydney e meu foco é exatamente segurança. Na verdade, na ThoughtWorks a maioria dos clientes são bancos e, inclusive, tivemos hoje de manhã o arquiteto principal do banco [top 5 banco australiano] falando exatamente sobre como usaram este tipo de técnica para governança num projeto que participei.
Imagine que ele tivesse falado “Eu sou um Wiki Certified Contributor e um RESTafarian Official Gold Partner”. Teria o mesmo efeito?
Por que das historinhas? Para argumentar numa discussão que eu tive com o grande Juan Bernabó sobre a total e completa ausência d sentido em algo como Certified Scrum Master. O Juan argumentou que certificações são valorizadas -e requeridas- pelas empresas. Meus pontos são:
- Eu não conheço nenhuma pessoa que acredite que um curso de dois dias, sem sequer uma avaliação final –pagou, passou na pratica- deva ser valorizada. Se nós sabemos que a certificação não tem valor por que a venderíamos de outra forma? Agile não é sobre trazer valor e melhorar praticas?
- O mercado também quer porque quer e acha que precisa de cronogramas detalhados, requisitos esmiuçados e projetos que terminam em uma grande fase de testes. Nós sabemos que isso não traz valor não fazemos apologia a este tipo de coisa, por que com certificação seria diferente? Por que ao invés de combater a ineficiência e a busca por respostas fáceis nós criamos e glorificamos nossos próprios selos?
- Uma certificação emitida por si mesmo não vale nada. A menos que alguém já acredite que Scrum traz algum valor essa certificação é como acreditar que o Inri Cristo é Jesus porque ele afirma o ser.
Em resumo, eu acho o curso que é dado com o CSM ótimo. Ele abre mentes e é uma fantástica introdução. E só. O certificado emitido por este curso não tem qualquer valor real e propagandear o contrario, ajudando empresas a continuar glorificando certificações sem sentido, vai contra a primeira linha do Manifesto Ágil:
We are uncovering better ways of developing
software by doing it and helping others do it.
May 27th, 2008 at 11:38 pm
Quando eu fiz o curso de Scum na Teamware eu falei isso pro Juan. Disse a ele que esse certificado e nada era a mesma coisa. Sequer fizemos uma prova. 2 dias de aula e já viro Scrum Master. Se fizermos analogia com os Jedi Masters eles são treinados durante anos :)
May 28th, 2008 at 1:10 am
hahaha…excelente!
May 28th, 2008 at 1:13 am
“RESTafarian Official Gold Partner”,… essa foi show!
May 28th, 2008 at 1:49 am
Concordo 100% com você. A questão é que Metodologias Ágeis e Scrum é algo que a pessoa vai ter que demonstrar vivência. E nunca usar o título que se ganha depois das 16 horas de aula como um “selo de qualidade”.
Agora, em um mundo de ignorância, você pode ter certeza que as pessoas vão usar a certificação para criar um diferencial.
Vivi uma situação onde eu fui “rebaixado” em virtude de outras pessoas que tinham feito o treinamento de 16 horas.
A forma que a informação foi repassada foi algo como: Temos várias pessoas com a certificação de Scrum Master e temos também algumas pessoas com experiência anterior no assunto.
Importante: os “certificados” tiveram a primeira vivência com Scrum no treinamento.
Quando o ideal e correto, na minha visão sobre este treinamento seria algo como: Temos pessoas com experiência anterior no assunto e também pessoas que participaram de um treinamento de Scrum recentemente. O treinamento inclusive é um treinamento oficial, reconhecido pela Scrum Alliance.
Nota, não estamos falando nenhuma mentira e sim jogando com a realidade. Inclusive mostrando o valor que este treinamento tem. Quer dizer que um curso sem um instrutor oficial não tem valor? Não, mas quer dizer que este curso dito oficial, possui e demanda uma certa qualidade. O processo para a pessoa se tornar um Certified Scrum Trainer é um processo de dois anos no mínimo e a pessoa não pode vir “do nada”, ela tem que mostrar o seu valor e seu diferencial.
Ficou quase um post, mas enfim, meus dois cents.
O treinamento é uma baita vivência e uma oportunidade de trocar idéias com alguém que já tem boa vivência no assunto e também trocar idéias com outras realidades de empresas e pessoas que querem evoluir no assunto.
May 28th, 2008 at 3:36 am
Esse valor, exagerado, é dado apenas no Brasil, Rio de Janeiro?
Caso seja verdade, pode ser explicado apresentando o cenário atual, onde grandes empresas estatais/mistas, só contratam baseados em certificações dos fornecedores.
Meu entendimento inicial do CSM o comparava ao certificado que você recebe quando assiste a uma palestra/apresentação em um evento, como um congresso. Estou errado?
Por exemplo: o RioJUG emite certificados de participação a quem vai nos Rio Java Summit. Eu mesmo tenho dois, o CSM não é a mesma coisa, não? Ou melhor, não ERA para ser a mesma coisa?
May 28th, 2008 at 7:04 am
Eu concordo com o Juan quando ele diz que a as certificações são valorizadas pelas empresas. Esse é o problema do mercado(em sua maioria) é assim, precisam de uma certificação em qualquer coisa.
E chegamos ao ponto do Ovo e da Galinha…
Mas também não acho muito legal uma empresa(ou aliança…sei lá o que é) fazer uma certificação nesse estilo. Deveria sim emitir um certificado, mas de participação num curso de SCM.
May 28th, 2008 at 8:56 am
@Leo Fernandes
Eu também concordo que empresas pedem certificações -como dito acima- mas também concordo que empresas edem documentos de requisitos e cronoramas detalhados. Se nenhum dos dois agrega alor/é eficiente porque desmerecemos um e glorificamos outro?
May 28th, 2008 at 10:33 pm
[…] O Shoes blogou sobre essa thread. […]
May 29th, 2008 at 6:55 am
Excelente Post Phillip.
May 29th, 2008 at 12:03 pm
Certificação ou não, essa realmente não é a questão. A questão aqui é usar o conhecimento para algo realmente util e que agregue valor. Foi na veia, Shoes!
May 29th, 2008 at 7:15 pm
Vale a pena dar uma olhada nesta ideia http://www.infoq.com/news/2008/05/Agile_Certification
A meu ver uma certificação como estas trará mais valor do que uma CSM.
May 29th, 2008 at 11:19 pm
Pronto…E agora José?
http://www.infoq.com/news/2008/05/Agile_Certification
May 31st, 2008 at 2:06 am
Eu acho q o ponto do post não é a incoerência dentro das empresas, que é ponto pacífico, mas sim a incoerência da própria comunidade agile que começa a valorizar algo que vai na contra-mão do q é pregado.
May 31st, 2008 at 7:03 am
Na verdade a intenção nada mais é de criar um novo mercado. Ganhar dim dim.
June 1st, 2008 at 6:57 am
A escola francesa prega que diga de onde vem que te direis quem é. Nessa linha o Jack Welch já dizia, em seu livro Winning, que escolheu somente pessoas graduadas em escolhas altamente reconhecidas como Havard, Berkely, etc ao formar possíveis sucessores. Ao final o sucessor escolhido veio de uma escola bem mais modesta.
Então dar valor a diplomas (ou certificações) emitidos por alguma instituição que tem respeito é uma forma fácil e simplória de seleção de profissionais.
Mas os resultados não são os esperados.
June 3rd, 2008 at 10:26 pm
Como costumo dizer: “Diploma não programa, nem é garantia de bons sistemas”… Por isso sou contra a criação do conselho de informática, etc. O que vejo no CSM é mais uma forma de se ganhar dinheiro através de treinamentos “oficiais”, onde na verdade o que mais importa é a “essência de agilidade”. Como sabemos, cada empresa é um mundo diferente, culturas, processos, etc, portanto uma certificação “padronizada” fere tal princípio.
abs!