Festa Retardatária

Em 2003 eu liguei para o escritório da ImproveIT e falei com o Vinicius Telles. Ele certamente não se lembra disso. Perguntei sobre os cursos da empresa em XP, datas e preços. O que o Vinicius me falou na ocasião foi que não havia muita demanda para este tipo de curso e que por isso eles eram oferecidos muito esporadicamente ou apenas para empresas em turmas fechadas. Como eu falei que possuía um pequeno time e um orçamento de tamanho semelhante ele sugeriu que eu comprasse alguns livros e usasse listas de discussão.

Se eu precisasse de algo semelhante no Brasil hoje, não teria este problema. Não este, ao menos. O meu maior problema seria encontrar, no meio do mar de ofertas, quem contratar.

Apesar de estar relativamente afastado da comunidade brasileira –o que pode ser percebido pela falta de atualizações freqüentes aqui- eu acompanho listas e fóruns e pude ver como as coisas mudaram nos últimos meses. Listas de discussão sobre métodos ágeis foram invadidas por ofertas de treinamentos, cursos, coaching e mentoring. Algumas listas que eram bem interessantes viraram apenas um veículo para a divulgação de serviços.

E como aferir as credenciais dos prestadores de serviço? Boa pergunta. Algumas desta pessoas, segundo meu histórico do Gmail, estavam oferecendo cursos de levantamento de requisitos no melhor estilo waterfall há alguns meses. Outros possuem treinamentos cujo programa é apenas uma xerox do Certified Scrum Máster –se o treinamento de SCM original já possui valor real muito baixo imagina quando o mesmo conteúdo é ministrado por alguém que não possui a experiÊncia habitual dos CST.

Outros dizem que já trabalharam para 50,60…100 empresas com metodologias ágeis. Estes são meus favoritos. Supondo que o sujeito tenho começado a trabalhar com metodologias ágeis em 2001 -quando o Agile Manifesto foi assinado- e já passou em 50 empresas, ele teria passado apenas um mês em cada empresa, na média. Além do fato de que eu duvido que estes pratiquem técnicas ágeis desde 2001, em minha vida eu vi poucos projetos de apenas um mês que tenham sido relevância para o currículo de alguém. Como previsto, os agilistas retardatários estão em todo lugar, cuidado.

Existe um trecho do Phillip Krutchen no seu livro de RUP que eu acho que se aplica com perfeição para algumas coisas que eu tenho visto por aí:

A Major Misconception

Although the four phases of a RUP project (Inception, Elaboration, Construction, and Transition) are run sequentially, remember at all times that the RUP lifecycle is fundamentally iterative and risk-driven. There is a big misconception that we would like to push aside very early in our discussion: The various phases are not simply a renaming (to sound fancy or different) of the classical phases of a waterfall process. From practitioners making their first acquaintance with the RUP, we have frequently heard, “Oh, I get it! In Inception you do all the requirements, in Elaboration you do the high-level design, in Construction you write the code, and you finish the testing in Transition.”

In trying to match the RUP to their current practice, they completely miss the point of iterative development. Yes, in the early weeks or months of a project the emphasis is very likely to be more on requirements and during the final weeks or months to be more on testing and polishing. This change in focus across the lifecycle is precisely what is hinted at by the “humps” on the lifecycle iteration graph (see Figure 1.3); the height of the humps varies across the cycle. But inside each phase, you plan iterations (see how in Chapter 12), and each of these iterations includes many of the software development activities to produce tested code as an internal—and later external—release.

Muitas das pessoas que hoje oferecem serviços em métodos ágeis foram exatamente as mesmas pessoas que criaram toda a confusão sobre fases no RUP. Substituindo iterative por agile (que egloba desenvolvimento iterativo) em “In trying to match the RUP to their current practice, they completely miss the point of iterative development” vai ter exatamente o cenário atual.

Um exemplo disto é a forma como alumas pessoas tentam transformar XP em algo mítico e irreal. Em discussões recentes eu vi gente taxando o XP como inferior à coisas como Scrum porque ele “visão de negócios” ou “focada em engenharia”. Mas heim?

A parte da “engenharia” é engraçada. XP é uma metodologia para desenvolvimento de software e como de se esperar ela possui praticas que estão ligadas com… er… desenvolvimento de software!

E a paixão pelo Scrum é algo fantástico. Uma busca por “Scrum framework” no meu Gmail traz milhares de emails de listas de discussão. As pessoas adoram Scrum porque é um “framework para processo”. Muito flexível, muito pratico e te deixa adotar suas praticas de engenharia favoritas. O Scrum pode ser extremamente formal ou informal.

Uhm… onde é que eu vi isso antes?

The RUP is also a process product that provides you with a customizable process framework for software engineering. You can configure the RUP product to support small or large teams and disciplined or less-formal approaches to development. It also allows you to add your own best practices and to share experiences and artifacts with peers and experts.

O que talvez muita gente não perceba é que há sempre um jogo de compensação em metodologias ágeis. Os valores definidos no Manifesto Ágil não são facilmente atingíveis e as praticas do XP são uma forma (não necessariamente melhor ou pior) de atingi-los. Obviamente você consegue atingir os valores através de praticas diferentes mas o que eu vejo é a maioria das pessoas usando as mesmas praticas que já usavam antes, talvez com cartões ao invés de documentos Word, e esperando que seja diferente do passado.

Misturar praticas é algo sadio quando feito por alguém que entende como estas se relacionam, mas a maioria das pessoas apenas está jogando as que não entendem ou são difíceis de vender. Eu já estive em diversas empresas brasileiras onde “ágil” significava colocar cartões na parede e ficar em pé meia hora todo dia de manhã.

Mas o que eu quero dizer, que você não deve contratar pessoas para ajudar sua empresa a adotar método ágeis? De jeito nenhum. Apesar de não prestar serviços no mercado brasileiro meu trabalho consiste exatamente nisso, seria bem estranho eu advogar contra. Este texto é apenas um desabafo e um alerta.

Um alerta porque através de amigos e colegas eu já estou vendo muitas empresas jogando dinheiro fora com treinamento, consultoria e mentoring sendo prestados por pessoas que possuem pouca ou nenhuma experiência a mais que os próprios alunos.

Desabafo porque acho que finalmente entendi porque a ImproveIT saiu do mercado de consultoria e coaching.

13 Responses to “Festa Retardatária”

  1. Daniel Wildt says:

    Hehe, eu estava catando teu e-mail para te avisar sobre os comentários.

    A questão da quantidade de empresas, qual contratar, vamos lá… o que eu vejo é simples, o mercado se filtra. As pessoas se falam. As pessoas sabem quem faz ou fez algo que preste em se tratando de consultoria e/ou treinamento.

    Isto é fato.

    E sobre a qualidade do serviço, isto também aparece. Eu posso te falar que fico extremamente chateado com algumas coisas que vejo e que me comentam, mas fico principalmente chateado por ver empresas quererem começar a usar softwares, planilhas e gráficos para calcular burndown, ou usar cartões e post-its e começar a marcar 1000 reuniões diferentes durante a semana, e não param para entender que antes de qualquer coisa, o time precisa passar pela necessária mudança cultural.

    O Mike Vizdos falou disto ontem (http://www.implementingscrum.com/2008/09/23/done-start-singing-dont-worry-be-happy-ub40/). Os caras começam a criar um ambiente de novela das 20h e de interpretação para parecer que está dando tudo certo, mas é só aparência.

    Quanto ao Vinícius, ele sempre vai ter o lugar e o respeito que ele merece. O cara desbravou e publicou muito material que ajuda a comunidade no Brasil. Fazendo os produtos na ImproveIt ou nas palestras que ele realiza agora eventualmente, segue contribuindo para a comunidade no Brasil.

    E os filtros seguem…

  2. Bruno says:

    Agora sim, liberdade de expressão deixa eu falar…wordpress filha da…expressão (vide raimundos rs)! Como eu quero ser o primeiro a postar comentários, pois aposto em pelo menos mais 10 comments revoltados e quero que meu nome apareça em primeiro, sou egocêntrico. Vou replicar o que escrevi por e-mail com algumas alterações.

    Pra mim agilidade começou e se dissipou à partir da globo.com, sei que o Vinícius foi um dos primeiros engajados no assunto, pioneiro mesmo, e foi um cara que sempre tentou levar boas práticas do xp pra frente, eu fiz um curso com ele após ver que isso funcionava e a globo.com era o exemplo disso (sei que lá todos aprenderam e apanharam juntos até chegar ao estágio de maturidade que é hoje)

    Com excessao das pessoas que realmente começaram com a
    idéia e estavam preocupadas em boas práticas de software ao invés de fazer jabá e se vender como scrum master fodao bla bla bla, só me resta dizer uma coisa, com o perdão da palavra, PQP!

    Não aguento mais ouvir falar de agilidade, juro, to tão de saco cheio que to pensando em fazer uma coisa diferente, usar waterfall!

    Até as revistas da mundojava que antes tinham artigos interessantes,
    agora tem artigos de “vendedores de agilidade” que nao é o objetivo ficar dando nome aos bois, mas tentam vender consultoria aos montes, inclusive quando você vai tirar dúvida sobre o artigo publicado em pvt da forma mais explícita e descarada possível.

    O que era pra ser bom virou uma “modinha” de sodoma e gomorra! Pegaram as metodologias ágeis, colocaram um selinho pop e cool nelas, tornando tudo vendável. Nao se assuste se você topar com canetinhas, bonés e camisetas estampadas “eu sou ágil!”

    Agora da licença que tenho que voltar pro meu ms project e a descrever os meus casos de uso! (kidding!)

  3. Ivan Sanchez says:

    Excelente post! Retrata exatamente o que eu estava pensando ha alguns dias atras:

    http://twitter.com/s4nchez/statuses/926958097

    Eu participei do primeiro treinamento oficial de Scrum no Brasil com o pessoal da TeamWare e quase 2 anos depois eh engracado ver como muitos dali ja estao vendendo seus treinamentos e consultorias. E pelo visto desde entao muita gente esta seguindo essa tendencia…

    Ficaria muito mais empolgado se para cada curso anunciado eu visse ao menos um caso de successo da aplicacao de scrum/XP em projetos reais. Quem sabe isso acontence depois que a moda passar…

  4. Bem, Shoes deu o passo inicial, todos precisam comecarem a impedir esse movimento de PMBOK de Jeans e matar enquanto ele ainda é uma criança antes que seja tarde demais.
    Esse pessoal que quer tirar o consultor RUP e colocar o consultor ágil. Daqui a pouco os baluartes da inovação e flexibilidade [como os governos] vão exigir Scrum Master na licitação [se é que não já estão].

  5. Jefferson Velasco says:

    Eu tenho uma pergunta: se um cara é tão bom em alguma coisa (scrum, XP, PM, etc.) por qual motivo não está rico empregando esse conhecimento em grandes contratos e sim brigando por um farelo, quero dizer, fatia, do mercado de cursos e treinamentos? Para alguns casos específicos eu tenho a resposta… pra grande maioria não. Muito bom o desabafo.

  6. Rubem Azenha says:

    Shoes, eu nunca fiz o treinamento oficial para tirar a CSM, mas pelo que eu entendi do seu post, você considera o treinamento em si bem fraquinho? É isso mesmo?

  7. É um tema muito interessante! Mas, acredito que tudo isso era claro previsivel por questões de moda. Essa onda de “Agilidade” e “Minha empresa á ágil” é o povo lutando para ganhar maturidade no assunto. O mercado há de filtrar e colocar cada um no seu lugar nos próximos meses.

    parabéns pelo post.

  8. Rubem, depois o Shoes responde, mas eu vejo o treinamento como um estalo para despertar a curiosidade e não um aval do tipo “agora vá e passe a palavra vendendo treinamentos”. Trabalho para uma empresa empenhada em adotar agile e posso dizer: é difícil. É difícil especialmente em projetos com menos problemas, mas que poderiam ser BEM melhores, engraçado até.

    Fora isso, é complicado mudar os valores, os dogmas, as crenças das pessoas. Das equipes com as quais tenho contato já ouvi que “o cliente atrapalha” e por isso “vamos manter o cara longe” ou que “esse negócio de empower people é besteira”. Tem mesmo é que controlar e pronto! Eu não sou guru agile, mas sempre aproveito para perguntar: “tá, mas por que está assim?” e os problemas acabam aparecendo.

    Phillip, gostei BASTANTE do post, especialmente sobre as subversão das listas a canais comerciais ou às toneladas de besteiras que os agilistas retardatários - certificados e tudo mais - estão literalmente vendendo por aí.

    valeuz…

  9. Rafael Rocha says:

    Ao mencionar sobre treinamento de SCM, isto é uma questão interessante, existem poucos livros e empresas que buscam o desenvolvimento desta área.

    Participei no processo de definição de um ambiente de gerência de configuração e tenho notado que poucos livros e empresas que prestam cursos, mal divulgam ou não dão tanta importância a isto. Existem boas referências, mas são poucas e envolve muita política também. Acho que por conta disto não achei tão interessante assim.

    Agora(muito passado mesmo) com práticas como integração contínua e novas tecnologias se desenvolvendo, vem sendo questionado bastantemente.

  10. Sérgio Monteiro says:

    Concordo com o post. E acho que temos que tomar cuidado com essa onda, pode estragar muita coisa boa.

    Mas em contrapartida acredito que existam profissionais bons que entendam muito bem a “filosofia” ágil e que não são “famosos”, ou seja, nunca escreveram um artigo na internet, não tem blog, não é adepto a nenhum tipo de promoção individual e mesmo assim continua sendo excelente no que faz.

    Trabalhei com um gerente de projeto que sua forma de organizar a equipe e o projeto era bem parecida com o que é pregado hoje com o Scrum, XP, FDD (era uma mistura dos 3) e isso foi antes da assinatura do manifesto.

    Outro dia conversando com ele sobre agilidade ele disse que sabe muito bem qual é o espírito da coisa mas que ele prefere continuar fazendo da forma dele, sem siglas, sem nomes e adaptando da forma que ele bem entender.

    Um cara desse com tantos anos de experiência em gerência de projetos, conhecedor da “filosofia” ágil, pode tranquilamente fazer um trabalho de coaching ou mentoring, sem esquecer de reforçar o fato de que ele não é “famoso” na nossa comunidade.

    Valeu!

  11. Alex says:

    eu ainda vou criar uma certificação de qualquer coisa e ficar rico…basta eu me aproveitar da Industria da Moda do Software.

  12. É a famosa maldição da popularidade (http://blog.thiagoarrais.com.br/2008/08/26/a-maldicao-da-popularidade/)
    Virou popular o preço diminui, assim como a qualidade.
    Uma passagem no The Pragmatic Programmer.
    “Technology exists along a spectrum from risky, potentially high-reward to low-risk, low-reward standards. It’s not a good idea to invest all of your money in high-risk stocks that might collapse
    suddenly, nor should you invest all of it conservatively and miss out on possible opportunities. Don’t put all your technical eggs in one basket.”

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