Archive for May, 2010

Fazer e Falar

Saturday, May 15th, 2010

Eu sou terrivelmente tímido. Você pode não acreditar dada a facilidade em que eu me meto em pagação de mico, mas esta é a verdade. Eu simplesmente morro de medo de começar uma conversa com uma pessoa que não conheço; o único motivo de fazê-lo com certa naturalidade hoje em dia é porque, apos tantos anos, eu descobri que ou me forço a falar com pessoas ou minha vida não vai para a frente.

A timidez me trouxe muitas coisas ruins mas também moldou meu comportamento de algumas formas que considero benéficas. Uma das conseqüências da timidez é que eu sou bem ruim em convencer os outros de alguma coisa. Isso é horrível em diversos cenários, mas uma coisa boa é que eu aprendi que antes de tentar convencer alguém é melhor ter meus argumentos, provas e protótipos prontos.

E, felizmente, durante a minha vida eu encontrei muitas pessoas com um comportamento parecido –ainda que, na maioria das vezes, não gerado por timidez mas sim por algum outro motivo. Especialmente, eu vi diversas vezes e espero continuar vendo o impacto que um time de “fazedores” tem em uma organização.

O cenário é sempre igual. Determinado lugar, seja um dos meus clientes atuais ou alguma das empresas para quem já trabalhei, possui um grupo de pessoas de alto prestígio dentro de casa. Infelizmente estas pessoas não entregam nada há anos, eles apenas vivem de política. Por algum motivo é formado um time com pessoas que se preocupam mais com fazer do que falar. Este time acaba entregando em uma cadência bem superior do que o melhor dos times antigos. A empresa fica feliz, os gestores resolvem espalhar a “cultura do fazer” (que sempre toma um nome mais buzzwordy como “agile”, “lean”, “times auto-geridos”, “gestão 2.0” ou coisa que o valha).

O problema é que a cultura do fazer não escala muito bem. As pessoas que preferem fazer à falar são chamadas pela diretoria e se pede a eles que ajudem a espalhar a boa nova para toda a organização. Neste ponto, em minha experiência, o time original se divide em dois.

O primeiro grupo é formado por pessoas que vêem na oportunidade um reconhecimento de que, finalmente, atingiram o nível de “ninja” –ou qualquer outro nome saído de algum desenho animado que os desenvolvedores superstar resolvam usar—e sua missão agora é virar alguma espécie de evangelista. Estas pessoas, então, passam a maior parte do seu tempo falando, e quando fazem alguma coisa estão ou trabalhando em algum projeto para reinventar a roda ou atrapalhando a vida de alguém com alguma de suas idéias brilhantes.

O outro grupo até tenta entrar na roda. Eles vão às primeiras reuniões, aos coding dojos e aos outros eventos. Eventualmente eles percebem no que estão entrando. Eles percebem que, se ficarem ali, sua vida mudará. Eles entendem que seu novo cargo não é nem um pouco diferente daquelas antigas “pessoas de alto prestígio dentro da empresa”. Possivelmente eles descobrem que tais pessoas foram, um dia, fazedores. Que estas pessoas foram convertidos de fazedores para peso-morto em um processo parecido com o que se está iniciando.

E então ocorre algum cisma. O primeiro grupo, dos desenvolvedores hax0r-evangelista-superstar-ninja-estrelinha-blogueiro-palestrante-modelo-atriz-manequim fazem da torre de marfim sua nova casa. Os desenvolvedores do segundo grupo voltam para sua caverna e tentam continuar trabalhando em paz.

Eventualmente o grupo dos ninjas começa a contratar pessoas com uma opinião parecida com a sua própria. Em pouco tempo a empresa está tomada por um estilo que um amigo costuma chamar de “awesome, dude!” (em uma voz de americano que acabou de fumar alguma coisa estranha).

Existem alguns benefícios, claro. Os problemas históricos da empresa são, geralmente, trabalhados. O problema é que ao invés de resolver o problema o time awesome está mais interessado em usar as novas ferramentas ninja. Se a ferramenta ninja não possui o necessário para resolver o problema é melhor ainda, eles podem usar suas maravilhosas habilidades awesome para desenvolver o necessário –ainda que isso signifique fazer a organização pagar um custo absurdo para desenvolver infra-estrutura em casa quando existem centenas de alternativas consolidadas e amplamente disponíveis, ainda que não sejam ninja.

Apos algum tempo as coisas começam a ficar engraçadas. O clã dos ninjas perde prazo atrás de prazo, entregando novas rodas ao invés de valor de negócio. Quando a coisa começa a apertar, o clã lança uma bomba de fumaça e some na escuridão; sua fama no meio awesome-ninja-modelo-atriz-manequim já o garantiu um outro emprego de evangelista ou coisa parecida em outro lugar. Todos os filhotes de ninja ficam perdidos. Lideranças alternativas aparecem e guerras internas sobre o que, afinal, significa ser awesome destroem a produtividade. Plataformas são reescritas a cada quinze dias.

De repente, alguém repara que o único time que anda entregando algo é o time daquele povo que fazia parte do grupo de fazedores original mas recusou-se a converter em ninja awesome. Alguém resolve visitar a caverna destas pessoas e descobre o que restou deles lá dentro, no escuro, isolado das ondas de hype. Usando ferramentas e técnicas que fora banida pelos ninjas há muito.

Infelizmente nem todos estão ali, alguns já desistiram e foram para outras organizações. E, nestas organizações, eles vão eventualmente encontrar outro grupo de fazedores. E vão entregar software de qualidade e no prazo. E vão ser chamados pela gerencia para espalhar a boa nova pela empresa. E o ciclo se repete.