Inovação: Construa e Eles Virão

Inovar é preciso, e você sabe disto. Todos aqueles livros sobre a Cabeça do Pai Rico que Mexeu no Queijo do Segredo da Arte da Guerra foram bem claros: inove ou morra.

Mas como se faz isso em um ambiente corporativo? Sinceramente, não é muito difícil. A coisa mais importante é ter as pessoas ideais. Existem pessoas que trabalham de nove às cinco, e não existe problema nenhum em fazê-lo. Eu, entretanto, prefiro trabalhar com gente apaixonada pelo que faz. Gente apaixonada têm o privilégio de ter como hobby sua própria profissão. Dado este tipo de gente, basta você criar a oportunidade.

A minha experiência neste tipo de cenário começou com o que aprendi com o Antônio Carlos Silveira, que é meu grande mentor em anti-corporativismo. Quando trabalhávamos na Globo.com, a vida era uma eterna disputa entre dançar a dança tentando não cair no corporativismo das requisições de mudança, Jiras e PMAs. Das lições mais importantes que aprendi com o Toninho, uma das que mais ficou pode ser resumida em: você pode ter vestir uniforme de marinheiro mas ainda é um pirata.

E nós tentamos várias coisas, e falhamos miseravelmente em quase todas. Como exemplo, nosso time iniciou um projeto piloto para copiar os (míticos) 20% livre do Google. Sexta-feira a tarde os desenvolvedores eram livres para fazer o que quiser, seus projetos pessoais. Essa foi uma iniciativa capitaneada pelo Danilo Bardusco que, antes de ser promovido à gerente do lojinha fazia parte da finada equipe de Webmedia da Globo.com, certamente o melhor time com que já trabalhei na vida e cuja maioria dos membros são grandes amigos até hoje.

Todas as idéias que surgiram nestes projetos falharam de uma maneira ou de outra. A maioria não foi para frente por motivos técnicos/motivacionais (i.e. fogo-de-palha) e alguns chegaram a ter implementações completas mas não foram pro ar porque o pessoal de negócios não achou a idéia atraente.

Fracasso? Perda de tempo? Muito pelo contrario. O clima na equipe mudou de uma maneira tão brusca que parecia outra empresa. Quando entrei na Globo.com, em 2006, a Webmedia era, basicamente um departamento de uma grande empresa. Entravam requisitos e saia código. Após esta e muitas outras iniciativas como a adoção oficial de métodos ágeis –é bom notar que nós, na Webmedia, nunca fizemos Scrum de fato. E eu me orgulho muito disso.— o clima mudou completamente. A equipe passou a ter um clima muito diferente, bem mais próxima de uma startup do que de uma empresa de três letras. A coisa foi tão bem sucedida que o que você vê de Globo.com é uma tentativa de espalhar esta cultura.

Nos últimos dias eu tenho experimentado uma proposta parecida. Aqui na ThoughtWorks nós temos o eterno problema de tentar conciliar crescimento com qualidade e inovação. Como fazer para estimular pessoas que já trabalham em projetos para clientes para que não percam a motivação?

Algumas mentes tiveram uma ótima idéia: um concurso. Todos os ThoughtWorkers da Austrália são convidados a formar grupos e desenvolver uma aplicação para o iPad. O grupo vencedor leva dois iPads.

Parece algo bobo, mas será? Um iPad em Sydney custa por volta de AUD$1.000.00. Com descontos corporativos e uma série de benefícios fiscais que o governo fornece você consegue comprar o modelo mais caro por uns AUD$700.00. A maioria dos meus colegas ou já comprou um iPad ou está esperando a segunda geração, ninguém está contando com o prêmio em si. Por que as pessoas entrariam na competição?

Porque é divertido. Lembra de como eu falei que as pessoas que eu gosto de trabalhar misturam trabalho e diversão? Pois é. A foto abaixo mostra o Fábio Lessa e o Ben Barnard num domingo em pleno escritório:

O que é necessário para que este tipo de comportamento aconteça? Do mais importante nós já falamos: pessoas interessadas. A segunda coisa é suporte material. No caso do Fábio e do Ben, a empresa oferece algumas coisas que motivam alguém a ir para o escritório no Domingo aprender uma nova tecnologia:

  1. Um computador decente para cada empregado, neste caso um MacBook Pro trocado há cada dois anos
  2. Chave do escritório para todos os consultores, com acesso ilimitado e sem que seja feitas perguntas sobre “o que diabos você estava fazendo aqui?”
  3. Geladeira cheia de guloseimas, refrigerante, suco, cerveja e demais coisas que fazem mal
  4. Uso de cartão corporativo para pagar coisas como contas no Github, livros e downloads de screencasts
  5. Acesso corporativo às ferramentas necessárias (neste caso uma conta corporativa no iPhone Developer Program)

Mas por que a empresa oferece isso? Porque é boazinha e quer que todo mundo seja feliz? Não exatamente. A ThoughtWorks é uma consultoria, nós fazemos questão de nos diferenciarmos de outras empresas do ramo pela nossa qualidade. O concurso do qual estou falando vai ser decidido por uma banca de juízes. Nesta banca estão as pessoas de vendas da empresa.

A idéia não é apenas que um bando de desenvolvedores se junte e gaste alguns domingos bebendo cerveja de graça e esmurrando o teclado; a idéia é que criemos algo útil. Os times são estimulados a tentar focar em um dos nossos atuais clientes, pensar em um produto que possa ser interessante para os problemas que estes possuem.

A realidade Australiana é, certamente, bem diferente da Brasileira mas isso não quer dizer que algo do tipo não seja viável. Substitua iPads por HTML5 e você tem um programa muito parecido e com custo bem baixo, por exemplo.

E, como no caso da Globo.com, ainda que nada saia destes projetinhos seu papel já foi cumprido. Nós queremos que nossos consultores se interessem cada vez mais por tecnologia. Nós queremos que nossos clientes entendam que somos especialistas em tecnologia.

Nós queremos inovar. Sempre.

13 Responses to “Inovação: Construa e Eles Virão”

  1. Só não posso concordar como que foi falado da webmedia atualmente. Essa equipe continua sendo uma fonte de inovação constante na globo.com. Não estou mais lá, mas acompanho de perto, dia após dia os projetos e pesquisas que eles têm feito. Uma nova geração misturada com o pessoal das antigas continua experimentando novas tecnologias e entregando software de qualidade.

  2. Nossa Philip! Parabéns pela inspiração e por compartilhar isso com a comunidade. Sem dúvida, algo que as empresas devem pensar antes começar a reclamar por não ter pessoas interessadas em aprender de verdade. Abraço.

  3. Era algo que eu gostava muito nessa equipe…esse espírito de experimentar o novo…

    Eu queria que todas as empresas/equipes de tecnologia pudessem dar esse tipo de “ferramenta” aos desenvolvedores…

    Abs.

  4. Infelizmente, não tenho mais contato diário com essa equipe a quase 1 ano, mas não há um dia em que eu não me lembre do quanto era estimulante trabalhar naquele ambiente.

    Fico muito feliz em ter tido a oportunidade de participar daquela equipe. Espero que muitas pessoas leiam cada vez mais relatos como estes e que descubram que, muitas vezes, o problema não está nas pessoas que temos, mas, sim, no ambiente onde elas estão.

    Excelente post cara!

  5. olá,

    apesar de ser muito gratificante e infinitamente melhor q a maioria do emrcado, essas empresas fazem igual os portugueses com os índios quando chegaram no brasil… trocam espelhinhos por ouro. coca-cola, video game e chave de empresa por idéias super lucrativas através de um recurso muito simples: matar o espírito empreendedor dentro de cada um.
    pensando numa futura empresa entre amigos, eu tento fazer essas coisas no tempo livre, pq embora o meu ambiente de trabalho seja pior, a empresa não ocupa todo meu tempo livre com atividades voltadas para ela mesmo… como vcs de fim de semana.
    pensar em si mesmo no lugar do seu trabalho as vezes é bom ;)

  6. Fausto says:

    Olá Philip,
    que texto motivador.
    O problema de muitas empresas é o fato delas não entenderem que proporcionar um ambiente digno já é grande ajuda para motivação e inovação.
    No Brasil muitas empresas fazem com que um desenvolvedor trabalhe num computador lento, com monitor de 14 polegadas que mal da pra ler direito. Com isso, os funcionários entram as 8 horas da manha rezando para que as 18 horas chegue logo.

  7. Olá,
    Para mim que nunca estive em empresas como as citadas aqui, parece tudo ficção. Na empresa que estou hoje as portas USBs são bloqueadas e não pode ouvir musica usando o micro da empresa, Lamentável.

  8. Pessoal,
    Além da ThoughtWorks qual empresa aqui no Brasil que tem o perfil a cima?

    []ão

  9. Fausto says:

    Caramba Rogério, não pode ouvir musica do pc é demais, não é?
    Eu já vi algumas empresas que bloqueam portas USBs, até hoje não entendo essa palhaçada!
    Sobre as empresas do Brasil, já ouvi falar muito bem da Globo.com e do Yahoo!

    Abraços.

  10. Fausto says:

    Quero dizer, empresas no Brasil!

  11. Fabiano Silva says:

    O importante é que não é a empresa em si que pode ou não fazer as coisas.
    Estou fazendo algo interessante onde trabalho: estou a 6 meses na empresa, gastei 2 observando as pessoas, conversas, etc. Um belo dia comecei a despejar idéias - novas ferramentas, tecnologias, etc e usei como ponto de partida o fato de eu conhecer um pouco a mais de agilidade que o restante do pessoal.

    Ainda não tenho apoio corporativo mas já tenho 1 grupo de estudos e um segundo está sendo estruturado. E por qual motivo as pessoas se juntaram? Fazer diferente e melhor as coisas por aqui.

    Ótimo post como sempre. Parabéns.

  12. [...] Inovação: Construa e Eles Virão – Phillip Calçado (Fragmental); [...]

  13. PQP. Você não tem idéia de quão inspirador esse post é…
    E do mesmo modo que o Fabiano Silva falou, eu não tenho ainda apoio corporativo, mas só ter encontrado um grupo com vontade de aprender e ensinar já torna o ambiente totalmente diferente. E entre os vários motivos que me levaram a correr atrás de montar esse grupo está esse post.
    Parabéns.