O tópico já tem oito páginas. Acho que chega à 10. Por mais que minha mão coce para comentar lá eu não vou, simplesmente porque já tive problemas demais com o pessoal do Mentawai.
De qualquer forma sempre me preocupa a possibilidade de algum desenvolvedor ler o tópico e pensar “Poxa, se esses caras que fazem todos estes frameworks não usam testes por que eu vou usar?”.
Desenvolvedores profissionais escrevem testes. Simples assim.
Uma pessoa que não ganha milhões de dólares mas escreveu uma das obras mais clássicas deste ramo deixa bem claro em sua primeira aula que programar é gerenciar complexidade. Nós precisamos gerenciar complexidade o tempo todo, por isso criamos funções, objetos e tudo mais. Não adianta, mesmo Einstein teve que provar que suas fórmulas e execuções estavam corretas, que poderiam ser verificadas. Na faculdade aprende-se isso desde as cadeiras básicas (e o fato de ser esquecido como “coisa teórica inútil” me faz novamente perguntar sobre o valor do ensino formal).
Existe uma grande diferença entre fazer Test-Driven Development e testar. TDD é sobre modelagem de objetos e especificações, não sobre testes (tanto que Behaviour Driven Development está se consolidando como algo mais eficiente que TDD) apesar de que no final você acaba ganhando uma suíte de testes de graça.
É muito difícil achar um projeto open-source relevante que não tenha testes. Na verdade os projetos decentes só aceitam um relatório de bug ou um patch se vier acompanhando por um caso de testes. Imagine uma aplicação feita colaborativamente por diversas pessoas, como saber que o que eu acabei de fazer commit não vai quebrar o que você modificou ontem? Boas práticas de orientação a Objetos? Não se iludam, OO não foi feita para este tipo de verificação! Com boas práticas você consegue minimizar o impacto de mudanças diminuindo dependências mas você não vai ter certeza disso.
Eu sinceramente não sei que técnica é essa que faz programação defensiva evitar testes. Eu já li bastante sobre Orientação a Objetos e programação defensiva e não vi nada deste tipo, pelo menos não vindo de uma fonte com um mínimo de credibilidade. Um exemplo simples, imagine que o framework web imaginário Pagai possui um código parecido com este:
Acao acaoSendoExecutada = controladorPrincipal.acao(requisicao.acaoDesejada());
Simples, não? Agora imaginemos que o código do método acao(String) seja algo assim:
public Acao acao(String pathInvocado){
//verifica se acao possui o formato desejado, deve ter uma barra e deve ter dois itens separados por barra apenas
if((pathInvocado.indexOf("/") == -1) || (pathInvocado.split("/").size < 2)) throw new IllegalArgumentException("Path invocado ["+pathInvocado+"] nao possui o formato adequado (consulte a documentacao XYZ)");
//lógica...
}
Isso é programação defensiva: eu não estou aceitando o que me passam, eu verifico se é o que deveria e se for eu continuo, se não eu paro ali mesmo e deixo alguém tomar conta do problema, seja a classe em questão ou alguma outra mais acima.
Imagine que eu por engano commitei um código que utilize “” em vez de “/” nesta requisição. Se for numa parte central do código é bem possível que uns testezinhos peguem mas imagine que é utilizado apenas em um caso específico e que, por um acaso, eu baseei meu sistema de controle de jatinhos particulares 9meu chefe tem muitos jatinhos) nele. Quando eu fiz o comit não alertou. Quando eu fiz o build não alertou. Quando eu fiz meus testezinhos não alertou. Quando foi para a produção eu tive erro.
Ok, acontece. Programadores de qualquer tipo cometem erros. Eu vejo o problema muito rapidamente e o corrijo, temos uma versão beta em 15 minutos no ar, fantástico. Aí daqui há um mês outro programador comete o mesmo erro. Quando fizer o build não vai alertar. Quando fizer seus testezinhos não vai alertar. Quando for para a produção… Isso não é profissionalismo.
O que eu preciso é de uma suite de testes, unitários e de integração, que me digam que o sistema está incorreto já no processo de build, sem lançar jars beta, alfa ou gama.
Mas se tem um argumento nessa história toda que realmente me irrita é quando as pessoas dizem que “num mundo capitalizado não há tempo para testes” ou que “o cliente não quer saber como é feito, ele quer que funcione”. O cliente realmente não quer saber como funciona, ele quer que funcione. Mas ele também não vai querer saber que você alterou uma classe que usava barra para barra invertida e tudo parou de funcionar, ele quer que o problema não aconteça e se acontecer que seja corrigido rapidamente. Se seu sistema não tem qualidade -e testes fazem parte de qualidade- você não consegue isso. TI gasta fortuna das empresas reescrevendo sistemas simplesmente porque não foram feitos por profissionais, e profissionais se preocupam com a qualidade do que fazem. E isso inclui testes.
Não seja um amador.





