Domain-Driven Design é Simples: Basta Chamar DAOs de Repositórios
Thursday, May 22nd, 2008Um fenômeno notado no Oriente e no Ocidente é a notável incapacidade de se entender o que raios é Domain-Driven Design. Na minha opinião isso é causado elo fato de que para chegar num nível onde DDD te ajuda você já precisa ter uma base formada e essa base não é comum. Eu vejo muitas pessoas tentando entender a solução quando na verdade elas deviam estar tentando chegar ao problema primeiro.
Uma das conseqüências deste comportamento é a síndrome do Padrão-de-Prata. Todo mundo sabe que Não existe bala de prata mas, hei, ninguém falou nada sobre padrões (ou frameworks, ou plataformas…) então, buscando respostas fáceis é comum se associar Domain-Driven Design aos padrões Entity, Repository, Value Object e amigos.
O que parece bem difícil de entender é que o ponto todo não é usar os padrões e sim porque você os usa. As técnicas dos padrões em si é muito antiga e o livro não traz nada de novo exceto sobre como utiliza-los para atingir o Domain-Driven Design. O que qualquer tópico no GUJ sobre o assunto (e mesmo na lista sobre Domain-Driven Design) não parece entender é que os padrões são um meio e não um fim.
Eu já repeti algumas vezes que você pode utilizar todos os padrões do Eric Evans e ainda assim não usar DDD. Nos últimos meses eu vivi um exemplo claro.
O cliente em questão é uma empresa de comunicação. Ela produz algo que você pode simplificar como um jornal de classificados. Os jornais em si são gerenciados e impressos por um sistema antigo e uma equipe de mais de 30 pessoas foi destacada para criar a versão online deste.
Como o sistema é antigo ele não oferece qualquer interface para conexão, logo a solução encontrada foi acessar o banco de dados diretamente. Como os dados continuam sendo inseridos pelo sistema antigo (e este não muda desde 1998) não existe muito problema nisso.
O projeto possui um time excelente, um dos grupos de pessoas mais capacitadas com quem já trabalhei, mas ainda assim não conseguiam andar. A velocidade da entrega das histórias estava bem abaixo do esperado e o nível de retrabalho era ridiculamente grande, mesmo com clientes on-site. Apos verificar que se a deadline não fosse cumprida eles teriam corte no orçamento chamaram consultores para avaliar a situação.
A primeira coisa que um consultor pensa quando chega num lugar desse é que eles não estão seguindo um processo ágil de verdade. É extremamente comum entrar numa empresa “Agile de carteirinha”e ver um processo que na verdade é composto por mini-waterfalls, tão comum que a solução default é mudar o processo. Não era o caso. O processo era legitimamente ágil, da análise de negócios à homologação, e a equipe, como disse, era excelente.
Apos alguns dias fazendo pair programming percebi uma coisa errada com o vocabulário. Era extremamente difícil entender conceitos simples da aplicação e cada reunião que se ia o vocabulário era diferente. Daí vamos analisar o caso melhor.
O banco de dados em questão, como era de se esperar numa aplicação legada, trazia um bando de regras de negocio embutidas em flags absurdos. O time fez um fabuloso trabalho criando um mecanismo que transformava dados do domínio antigo para o novo, formando um excelente Context Map.

Dentro do domínio o código era extremamente enxuto, fazendo uso de JPA e Spring para deixar o Domain Model apenas com regras de negocio. Eles usam Repositories como interfaces para DAOs que implementam a lógica JPA de maneira bem interessante.
Ainda assim a velocidade era ridícula. 5 pares e apenas 4 pontos por iteração(semanal). Após verificar que o problema não era nem o processo nem o código em si só restava continuar pareando para tentar ver o que estava acontecendo.
Um dia, após reescrever a mesma funcionalidade duas ou três vezes, meu par e eu saímos para um café na Starbucks. Enquanto conversávamos eu perguntei:
- Mas quando é que vocês vão começar a outra parte do sistema?
- Outra parte?
- Sim, a parte que substitui o legado…
- Ah. Não, não vamos.
- Não?
- Quer dizer, vamos sim mas ele não vai ficar muito diferente, na verdade para nós do sistema web a única diferença é que eles vão disponibilizar um web service ao invés do banco de dados…
- Mas vocês não vão mudar aqueles conceitos legados para o modelo novo?!?
- Conceitos legados? Aqueles não são conceitos legados, são os conceitos que nossa indústria usa. Se você parar de usar aqueles termos seus clientes não vão entender o que está falando…
E aí eu entendi o problema da comunicação. Na retrospectiva eu levantei um ponto e conversamos sobre o problema.
A coisa era bem simples, em verdade. Os usuários internos do sistema são vendedores. Quando você vende um anuncio você fala em estilos e estes estilos são padronizados nacionalmente. O sistema antigo, por pior que seja, tem os estilos e os outros conceitos editoriais modelados mas nós não tínhamos isso no sistema web. O nosso domínio, por mais bonito e bem-feitinho, foi criado pensando na melhor forma de disponibilizar dados na Internet e por isso o nosso modelo não falava a língua do usuário. Os usuários falavam os conceitos do modelo antigo e para entender o que eles diziam nós tínhamos que fazer todo o mapeamento para o que aquilo representava em código.
Com apenas algumas iterações para um grande release não há a menor possibilidade de mudar todo o domínio. A solução vai ser implementar as mudanças de maneira incremental, toda vez que código novo é escrito ou código antigo refatorado caminha-se para o novo modelo, que é algo parecido com o abaixo.

Este foi um exemplo real do que não é Domain-Driven Design. Todos os desenvolvedores desta empresa possuíam o livro do Evans nas suas baias, não existia BO ou VO no sistema e as Camadas eram bem definidas. Ainda assim a linguagem do código não era a linguagem do usuário e sem isso você pode até ter um modelo Orientado a Objetos de alta qualidade mas não tem Domain-Driven Design.





