Archive for the ‘testes’ Category

Uh-Éme-Éle

Friday, July 25th, 2008

Este tópico no GUJ chamou atenção, especialmente porque o li logo após um interessante texto noblog do Marcelo Araújo sobre uma outra faceta do mesmo tema: modelagem usando especificações não executáveis.

O que eu quero dizer com isso? Dada a tecnologia atual na maioria das empresas (desconsiderando o uso de coisas como DSLs ou mesmo alguma solução MDSD que, ao contrario de MDA, funcione) todos os documentos comumente utilizados para “modelagem” não são verificáveis, não são executáveis e requerem um trabalho manual enorme. Como bem disse o Emerson Macedo no post, você acaba programando duas vezes, uma na sua notação gráfica (UML) e uma na sua notação executável (Java, C#, Ruby… o que for).

Acontece que ao passar do diagrama (e diagramas aceitam qualquer besteira) para o código (onde o compilador e testes unitários são muito exigentes – fora os usuários) o tal do pseudo-modelo criado pelo “analista” no Rational Rose (porque a empresa não percebeu que o Rose foi descontinuado há anos) é completamente diferente do modelo implementado. As classes até têm o mesmo nome mas a mecânica interna é bem diferente. E por quê? Porque UML não vai te oferecer tudo o necessário para modelar. O mínimo que se espera de um modelo de um sistema é que ele seja verificável para saber se cumpre seus requisitos. Como é que eu vou saber isso com UML? Como eu testo UML?

Há algum tempo que eu me pergunto porque que se usa UML para “modelar”. Não me entenda mal, UML é uma ótima noção gráfica para Orientação a Objetos e com ela você consegue passar uma big picture muitas vezes mais rapidamente do que código; mas ela fica por aí: comunicação.

Quando modelamos o comportamento de objetos nós estamos descrevendo como este se comporta em diversas situações. Ao modelar uma determinada atividade você precisa descrever um conjunto grande de detalhes sobre esta, e UML não esta pronta para este tipo de coisa - e nem é a idéia por trás dela. Se modelar em UML fosse eficiente nós estaríamos programando em UML não em C#, Java ou o que for.

O primeiro problema ao tentar introduzir este pensamento na indústria é: mas eu não posso deixar que meus “implementadores” façam o que quiserem. Pergunta: o que raios é um implementador? Um datilografo de luxo?

Supondo que sua empresa seja a típica empresa de três letrinhas, aquelas que contratam qualquer um como “programador júnior” porque ele vai receber instruções do analista. Neste cenário eu pergunto: para que o tal programador? Que tal dar ao seu “analista” uma ferramenta mágica em que ele consiga criar um modelo abstrato e ao mesmo tempo executável? Que tal se ao invés de gastar rios de dinheiro pagando 10-reais-mais-o-busão para seus implementadores você eliminasse completamente a necessidade deles, fazendo com que o “analista” sozinho cuide do serviço?

Não precisa sacar seus milhões do banco nem pensar em como justificar o gasto com esta ferramenta no orçamento, você muito provavelmente já possui o necessário dentro da sua empresa: uma linguagem de programação decente. Faça seu “analista” usar código para expressar a modelagem. No final dá no mesmo para o nível de modelagem desejada e você ainda ganha algo verificável e executável. Economia de rios de dinheiro quase que instantânea.

Mas como assim? O “modelo lógico” é muito diferente do “modelo físico” e o “analista” não pode perder tempo com essas coisinhas de tecnologia, tem que pensar em modelar o negocio. Muito bem, duas coisas:

  1. Analista de Sistemas não é analista de negócios. Se você não sabe o que é um analista de negócios eu recomendo que você mande um e-mail pro Paulo Vasconcellos perguntando.
  2. Há mais de cinco anos que não há quase nenhum motivo para que uma aplicação Java ou C# não seja uma cópia de 1-para-1 de um modelo UML do tipo “diagrama de domínio”. POJO/POCO, Hibernate, IoC, Camadas, OO, AOP, EJB3, MVC… toda essa parafernália de letrinhas permite que seus objetos de negocio não tenham o menor traço de infra-estrutura. Claro que alguém vai ter que fazer a infra-estrutura –ainda que seja mínima. Caso seus “analistas” sejam de qualidade extremamente baixa eu recomendo que você contrate um bom técnico para atuar como arquiteto e líder técnico do time.

Verdade seja dita: esta não é a primeira vez que este blog trata do tema e desde a última vez muita coisa melhorou, mas ainda há muito que melhorar.

Rastreabilidade em User Stories

Friday, July 18th, 2008

Pergunta na XP-Rio:

Me ajudem no seguinte, no processo unificado, espera-se que todos os casos de uso gerem algum tipo de artefato dentro do projeto. Na verdade, com os casos de uso espera-se chegar em classes que juntas formarão o sistema. Dentro da metodologia existe artefatos que quando feitos, permitem mapear todos os artefatos gerados a partir de um caso de uso. A matriz de rastreabilidade.

Gostaria de saber como o XP permite chegar as classes (código) a partir das User Stories. Por exemplo, dado uma User Stories, quais são as classes geradas para atender essa User Stories?

O XP permite isso? Como é feito?

Provavelmente a primeira coisa a se perguntar é: por que eu precisaria deste dados? Alguns modelos de processo como CMMI definem rastreabilidade, que geralmente é definida nesta linha:

Requirements traceability refers to the ability to describe and follow the life of a requirement, in both forwards and backwards direction (i.e. from its origins, through its development and specification, to its subsequent deployment and use, and through all periods of on-going refinement and iteration in any of these phases.)

- Gotel O.C.Z and Finklestein A.C.W (tirado da Wikipedia)

A necessidade parece justa e real, é preciso saber quais partes do software são afetadas por mudanças no negocio e vice-versa. O grande problema desta métrica é que transformações de modelo não são mais tão drásticas há algumas décadas. Ao utilizar qualquer tecnologia relativamente comum (Java, Ruby, .Net, Python, JavaScript…) não existe motivo técnico para que o software não modele o negocio em uma relação próxima de 1-para-1, desta forma saber qual parte de um código realiza qual tarefa torna-se bem simples.

Outro problema é que eu nunca vi um artefato de rastreabilidade, seja qual for, que não ficasse defasado. Se você abraça uma metodologia ágil sabe que refactoring faz parte da vida.

Mesmo com todos os problemas que esta métrica possui eu entendo que existem casos onde seu uso se faz necessário –especialmente por equipes tentando introduzir agilidade em ambientes tradicionais. Supondo que exista uma necessidade justificável para algum controle deste tipo, metodologias ágeis em geral possuem um mecanismo muito mais eficiente que documentos ou mesmos sistemas: testes.

Toda história, todo cartão, deve ter um critério de aceite. O critério de aceite traz o que o cliente considera ser o mínimo para que a história seja considerada concluída. Por exemplo:

História: Como administrador eu quero criar um novo grupo para que possa aplicar permissões à diversos usuários de uma só vez.
Critérios de Aceite:

  • O novo grupo criado deve possuir o usuário que o criou como seu administrador
  • O novo grupo não deve conter outros membros
  • O novo grupo não deve ser visível na listagem de grupos

Cada um destes critérios via um teste unitário e/ou funcional que é executado como parte da integração contínua. Para saber exatamente quais classes e códigos são afetados por cada um deles é simples: use uma ferramenta de test coverage como o Emma e execute apenas os testes de aceitação para aquele cartão. A ferramenta irá gerar relatórios como estes:

[class, %]	[method, %]	[block, %]	[line, %]	[name]
25%  (1/4)!	25%  (3/12)!	40%  (3012/7446)!	25%  (3/12)!	com.sun.tools.javac.v8.resources
94%  (16/17)!	49%  (41/83)!	48%  (1111/2292)!	45%  (201.1/450)!	com.sun.tools.javac.v8
88%  (45/51)!	61%  (242/397)!	54%  (3070/5729)!	52%  (809.6/1563)!	com.sun.tools.javac.v8.tree

Classes que possuem alguma cobertura foram afetadas pelo teste, logo são parte da execução daquela história. Não é difícil escrever um script que –talvez como parte do build- processe estes relatórios e gere o artefato de rastreabilidade que seu processo te obrigar a fazer. Melhor ainda: este artefato nunca estará desatualizado.

Só não se esqueça que melhoria contínua é um conceito importante. Se o artefato de rastreabilidade é algo tão ineficiente a obrigação de um desenvolvedor que perceba isto é mostrar para sua organização que o valor desta pratica é nulo. Não se acomode.

Testadores Ágeis

Monday, March 24th, 2008

Todo mundo sabe que agilidade é sobre testes. Muitos testes. Bem, mais ou menos. Geralmente quando falamos de testes em metodologias ágeis estamos falando de testes escritos pelo desenvolvedor enquanto escreve código, e estes têm dois objetivos: feedback e bom design.

Feedback se consegue ao executar os testes. Quando você escreve uma classe que quebra um teste você sabe que existe algo errado imediatamente. Bom design se dá porque nada alem do necessário é criado, alem de que as tecnologias atuais de testes exigem que seu código siga alguns bons princípios para que seja testável, como bom gerenciamento de dependências.

Existe, entretanto, outro tipo de teste, geralmente feito por um profissional especializado, que chamamos de QA (Quality Assurance). Este teste valida o software de um ponto de vista diferente. Muita gente se engana achando que testes de desenvolvedor são suficientes para validar um sistema. Obviamente que assim como nem todo sistema exige um web designer profissional especializado nem todo exige um profissional de testes, mas a maioria dos projetos que já participei tinham nisso um benefício.

Estava lendo o artigo do Jeff Paton, ex-colega ThoughtWorker, sobre isso e lembrei das minhas experiências com testadores em time ágeis. Mas primeiro talvez seja melhor contar sobre as experiências em times não-ágeis.

Eu trabalhei em uma empresa muito interessante mas com um processo muito estranho. A empresa tem orgulho de usar waterfall para desenvolver seus produtos, ninguém está autorizado a escrever uma linha de código sem escrever 8 documentos. Obviamente todos os projetos atrasam e obviamente o software tem uma qualidade deprimente, mas eles conseguem fazer dinheiro neste cenário –ainda que pagando um preço muito alto.

Teste é uma coisa séria nesta empresa. Os produtos estão sujeitos à regulamentação de telecomunicações de diversos paises, e cada funcionalidade tinha que ser testada de acordo. O fluxo de desenvolvimento era o típico de waterfall, nós desenvolvedores criávamos nossos sistemas (programas em C++ para plataformas UNIX diversas) e enviávamos uma tag do Subversion para a equipe de testes. O testador teoricamente já lera todas as especificações funcionai do produto e já tinha os casos de testes escritos e, talvez, implementados.

Era aí que a brincadeira começava. Na melhor das hipóteses o testador encontrava um bug, rejeitava o pacote (usando um maravilhoso sistema interno desenvolvido em Lótus Notes) e enviava de volta. O desenvolvedor corrigia e o pacote era retestado. Isso nunca acontecia. O que acontecia era:

  • O pacote era aprovado. O desenvolvedor, com o sistema já em produção, olhava o plano de testes por curiosidade e via que eles não testavam absolutamente nada de relevante, ninguém garantia a qualidade do treco
  • O pacote era rejeitado. O desenvolvedor olha ao motivo da rejeição e via que o que estava sendo testado nem de perto era o que o sistema deveria fazer. O testador Não entendeu o documento, muitas reuniões explicando tudo novamente e o pacote era retestado sem modificações
  • O pacote era recebido pelo testador com total surpresa. Era uma aplicação de linha de comando e o testador esperava uma aplicação com interface web, ou o testador esperava que o sistema usasse banco de dados e ele mantinha tudo em memória, ou…
  • O testador rejeitava o pacote porque não sabia como testa-lo. O desenvolvedor não pensava no testador, o testador não pensava no desenvolvedor.

Claro que todos os membros do escritório de projetos (já falei que tínhamos CMMI?) sabiam a solução para estes problemas e é claro que para eles a solução passava pela criação de mais documentos, de 1 a 5 dependendo de quem você perguntasse.

Nas equipes ágeis que trabalhei a coisa era diferente. O testador senta ao lado do desenvolvedor, e por vezes eles trabalham em pair programming (pair testing, provavelmente). O testador está envolvido em todas as tarefas, validando que o que o analista de negócios pede é entregue, que confirma com as premissas do projeto e etc.

Para fazer isso ele está envolvido na elaboração das user stories e, principalmente, dos critérios de aceite definidos nela. Seu trabalho é verificar que os critérios de aceite são obedecidos pela implementação e que eles fazem sentido em primeiro lugar.

Um profissional come site perfil não pode ser simplesmente um usuário. Ele tem que conhecer sobre metodologia de testes de software (um campo enorme por si só), sobre o domínio do sistema e sobre desenvolvimento. Idealmente o testador é um desenvolvedor e sabe criar suas ferramentas. Um testador deve ser capaz de escrever seu próprio programa usando Selenium RC, ou suas fixtures no Fit.

Infelizmente nem sempre isso acontece. Em muitas empresas o cargo de testador é delegado à pessoas que possuem um conhecimento técnico muito baixo e executam tarefas do tipo “aperte o botão e verifique se quebra o layout”. Neste caso os desenvolvedores podem prover as ferramentas para os testadores mas ainda assim eles devem ter capacidade de escrever os casos de testes usando a ferramenta sozinhos.

O papel do testador não é dizer que a aplicação está homologada, na maioria das vezes isso é apenas uma ilusão que gerentes gostam de cultivar. O papel do testador é garantir a qualidade dele submetendo à testes rígidos. Não é um aceite formal, o testador não é quem aprova o software –o analista de negócios ou seu equivalente aprova o software- ele faz parte do desenvolvimento deste.

Minha experiência diz que assim como trabalhar com testadores apertadores-de-botão não agrega nada ao produto alem de burocracia desnecessária, trabalhar com testadores de verdade no time é uma das melhores coisas que pode acontecer num projeto de software.

No meu projeto anterior os testadores chegaram ao time apenas como apertadores de parafusos. Eles clicavam na tela e verificavam que a informação correta era disponibilizada. Como nossa participação no projeto era facilitar a adoção de metodologias ágeis isso tinha que mudar. A primeira coisa foi a participação dos testadores na definição das histórias, eles trabalham junto com o analista de negócios e o usuário definindo critérios. Eles também participam do sign-off da história –quando ela é apresentada aos desenvolvedores que vão executa-la- e quando conclui a história o desenvolvedor az um walkthrough dela para o testador. Em todas as etapas eles agregam informação, questionam as praticas e, principalmente, garantem que o software final é testável.

Foi adicionado ao time de facilitadores um testador especialista em automação –um desenvolvedor exercendo função de QA, basicamente-, a função dele era disponibilizar ferramentas e disseminar seu uso. Com o tempo desenvolvemos uma Internal DSL em Ruby para controlar nossa ferramenta de teste, o Selenium RC. A ferramenta é utilizada por desenvolvedores nos nossos testes de aceitação que fazem parte do build e pelos testadores na hora de dizer que uma história está concluída.

Os resultados desta adoção são excelentes. Quando nossa parte no projeto –facilitar a adoção das praticas- acabou a pessoas estavam aptas à continuar o bom trabalho por si mesmas. Os desenvolvedores ainda criam as ferramentas mas a gerencia, vendo os benefícios, agendou cursos de Ruby e Selenium para a equipe de QA.