Archive for the ‘plataformas’ Category

Uh-Éme-Éle

Friday, July 25th, 2008

Este tópico no GUJ chamou atenção, especialmente porque o li logo após um interessante texto noblog do Marcelo Araújo sobre uma outra faceta do mesmo tema: modelagem usando especificações não executáveis.

O que eu quero dizer com isso? Dada a tecnologia atual na maioria das empresas (desconsiderando o uso de coisas como DSLs ou mesmo alguma solução MDSD que, ao contrario de MDA, funcione) todos os documentos comumente utilizados para “modelagem” não são verificáveis, não são executáveis e requerem um trabalho manual enorme. Como bem disse o Emerson Macedo no post, você acaba programando duas vezes, uma na sua notação gráfica (UML) e uma na sua notação executável (Java, C#, Ruby… o que for).

Acontece que ao passar do diagrama (e diagramas aceitam qualquer besteira) para o código (onde o compilador e testes unitários são muito exigentes – fora os usuários) o tal do pseudo-modelo criado pelo “analista” no Rational Rose (porque a empresa não percebeu que o Rose foi descontinuado há anos) é completamente diferente do modelo implementado. As classes até têm o mesmo nome mas a mecânica interna é bem diferente. E por quê? Porque UML não vai te oferecer tudo o necessário para modelar. O mínimo que se espera de um modelo de um sistema é que ele seja verificável para saber se cumpre seus requisitos. Como é que eu vou saber isso com UML? Como eu testo UML?

Há algum tempo que eu me pergunto porque que se usa UML para “modelar”. Não me entenda mal, UML é uma ótima noção gráfica para Orientação a Objetos e com ela você consegue passar uma big picture muitas vezes mais rapidamente do que código; mas ela fica por aí: comunicação.

Quando modelamos o comportamento de objetos nós estamos descrevendo como este se comporta em diversas situações. Ao modelar uma determinada atividade você precisa descrever um conjunto grande de detalhes sobre esta, e UML não esta pronta para este tipo de coisa - e nem é a idéia por trás dela. Se modelar em UML fosse eficiente nós estaríamos programando em UML não em C#, Java ou o que for.

O primeiro problema ao tentar introduzir este pensamento na indústria é: mas eu não posso deixar que meus “implementadores” façam o que quiserem. Pergunta: o que raios é um implementador? Um datilografo de luxo?

Supondo que sua empresa seja a típica empresa de três letrinhas, aquelas que contratam qualquer um como “programador júnior” porque ele vai receber instruções do analista. Neste cenário eu pergunto: para que o tal programador? Que tal dar ao seu “analista” uma ferramenta mágica em que ele consiga criar um modelo abstrato e ao mesmo tempo executável? Que tal se ao invés de gastar rios de dinheiro pagando 10-reais-mais-o-busão para seus implementadores você eliminasse completamente a necessidade deles, fazendo com que o “analista” sozinho cuide do serviço?

Não precisa sacar seus milhões do banco nem pensar em como justificar o gasto com esta ferramenta no orçamento, você muito provavelmente já possui o necessário dentro da sua empresa: uma linguagem de programação decente. Faça seu “analista” usar código para expressar a modelagem. No final dá no mesmo para o nível de modelagem desejada e você ainda ganha algo verificável e executável. Economia de rios de dinheiro quase que instantânea.

Mas como assim? O “modelo lógico” é muito diferente do “modelo físico” e o “analista” não pode perder tempo com essas coisinhas de tecnologia, tem que pensar em modelar o negocio. Muito bem, duas coisas:

  1. Analista de Sistemas não é analista de negócios. Se você não sabe o que é um analista de negócios eu recomendo que você mande um e-mail pro Paulo Vasconcellos perguntando.
  2. Há mais de cinco anos que não há quase nenhum motivo para que uma aplicação Java ou C# não seja uma cópia de 1-para-1 de um modelo UML do tipo “diagrama de domínio”. POJO/POCO, Hibernate, IoC, Camadas, OO, AOP, EJB3, MVC… toda essa parafernália de letrinhas permite que seus objetos de negocio não tenham o menor traço de infra-estrutura. Claro que alguém vai ter que fazer a infra-estrutura –ainda que seja mínima. Caso seus “analistas” sejam de qualidade extremamente baixa eu recomendo que você contrate um bom técnico para atuar como arquiteto e líder técnico do time.

Verdade seja dita: esta não é a primeira vez que este blog trata do tema e desde a última vez muita coisa melhorou, mas ainda há muito que melhorar.

Agile Software Deployment?

Friday, June 20th, 2008

A melhor coisa sobre meu trabalho atual é que, como consultores, tentamos sempre pensar fora da caixa. Isso não é fácil numa consultoria, você pode imaginar, já que o mercado tende à empresas de três letrinhas que não se interessam tanto em otimizar ou melhorar e sim em cobrar por hora.

Um desses momentos recentes me fez passar por algo que eu nunca havia visto na pratica: como fazer deployment (instalação) e administração de software de maneira ágil?

O cliente em questão possui times ágeis em diversos segmentos há alguns anos. Durante o andamento de um projeto enorme surgiram algumas dificuldades em gerenciar ambientes e versões do software. Apesar de toda a agilidade os testadores ainda precisam que versões específicas, com bases de dados específicas, estejam instaladas em ambientes para homologar o sistema. Para piorar mesmo os desenvolvedores precisam ter uma instância de uma search engine (algo como o Lucene) e popular esta engine para que seja usável demora por volta de 10 horas.

Era preciso controlar qual desenvolvedor possui acesso à qual instalação da search engine e quais as versões instaladas em quais ambientes. No passado já ocorreu algumas vezes de um deployment para QA demorar mais que o esperado pela confusão generalizada de ambientes e isso atrasar o release para produção em uma semana.

A primeira proposta que eles tiveram foi clássica: vamos automatizar tudo. Construir um mega-sistema que controle o que está instalado onde, avise por email os responsáveis, tenha um controle de workflow, se integre ao sistema de QA, seja parte do IBM Tivoli, faça café… e seja extremamente caro.

Uma outra proposta surgiu do “grupo de governança” da empresa: ninguém faz deployment de nada sem ser autorizado. Toda vez que alguém precisa subir algo para QA ou outro ambiente precisa usar o Jira, toda vez que alguém precisar de uma modificação numa instancia da search engine precisa usar o Jira. Todos os pedidos são aprovados pelas pessoas competentes.

Aí começa o trabalho da nossa equipe: como ter o benefício esperado sem ter que vender a empresa pra comprar o sistema ou passar 20% do tempo preenchendo formulários?

O início deste trabalho foi feito seis meses atrás e foi parte do meu primeiro projeto aqui. Apos analisarmos o sistemas vimos que ele era estupidamente complexo sem a menor necessidade. O débito técnico foi se acumulando com o passar dos anos e uma coisa simples como instalar um WAR no Tomcat estava levando mais de duas horas, e trabalhando em par! Um dos grandes problemas era que das duas horas uma você gastava andando pelo corredor perguntando para outras pessoas o que fazer no caso X, qual a versão que está no servidor Y, etc.

A primeira coisa a se fazer era resolver o débito técnico. Não há solução que agüente mais de um mês em pé com aquela quantidade de problemas para resolver (incluindo um build que durava mais de quarenta minutos). Para isso os donos do negocio aceitaram alocar 10% dos pontos de uma iteração e, conforme a previsão, a maioria dos problemas graves se solucionou em cinco meses.

Enquanto isso, para amenizar o problema de maneira imediata, nós resolvemos usar um quadro-branco com a configuração dos ambientes. Quando a pressão do release passou o quadro foi para no wiki interno, numa grande tabela que qualquer um editava. Para o problema das instâncias de search engine nós criamos tokens: cada instancia tinha um cartão. Se você precisa de uma instancia você vai até uma parede e pega um cartão, adiciona as configurações daquela instancia na sua máquina e cola o cartão no seu monitor.

Simples e eficiente, a solução do cartão dura até hoje. O mesmo não se pode dizer do wiki. Enquanto o grupo de usuários era pequeno o wiki serviu de maneira ótima, após passarmos de algumas dezenas de pessoas -e diversos sub-projetos e spikes rodando em paralelo- ele se tornou inviável. O problema é que a tabela não comporta mais todos os dados de maneira eficiente e qualquer tentativa de organizar em sub-páginas faz com que as pessoas “esqueçam” de atualizar o wiki. Solução? Seguir o exemplo do que deu certo: cartões!

Acima você pode ver uma das paredes de cartões para nosso controle de mudanças e versões. O cartão rosa, no topo, tem o nome do ambiente. Cada um dos cartões azuis abaixo deste representa um dos componentes, os post-it laranja indicam as versões que foram instaladas. Os amarelos indicam qual instancia da search engine é usada em qual ambiente.

Os outros post-its colados nos cartões são meta-dados, eles indicam, por exemplo, que um serviço está inativo:

Esta solução tem funcionado nos últimos meses de maneira exemplar. Na verdade ela funciona tão bem que o problema agora é convencer os analistas de negocio que o problema do deployment não está solucionado e que eles ainda precisam investir nele.

Uma das conseqüências dessa técnica é que as duas pessoas que ficavam alocadas 100% do tempo gerenciando ambientes estarão em breve voltando a desenvolver as histórias e gerar valor de negócios ao invés de dar suporte aos desenvolvedores.

Muitas vezes você não precisa de milhões de dólares nem de burocracia, basta pensar fora da caixa.

Ruby é JavaScript ao Avesso

Thursday, June 12th, 2008

O titulo é uma brincadeira mas é uma boa forma de lembrar algumas coisinhas sobre programação nestas linguagens. Cada vez mais lidamos no dia-a-dia com conceitos que estão presentes há décadas em linguagens mais esotéricas mas nunca deram as caras no mainstream, um deles é o uso de funções como abstração. Existe um conflito de termos aqui então só para deixar claro eu não estou falando de funções como em programação procedural mas sim de funções como vemos em closures.

Muita gente tem escrito sobre como devemos aprender programação funcional. Eu concordo mas não posso deixar de notar que quando alguém diz programação funcional geralmente ela quer dizer Higher-Order Functions.

E o que é isso? Bom, uma linguagem possui higher-order quando uma função pode receber como parâmetro outra função. O nome deriva do fato de que uma função que recebe outra é considerada de ordem 1, uma função que recebe outra que recebe outra é considerado 3 e assim em diante.

JavaScript possui higher-order programming. Funções são a abstração principal em javaScript e elas podem ser passadas à vontade pelo programa. Por exemplo, vamos supor que queremos comparar dois objetos de acordo com um critério arbitrário. Em JavaScript podemos fazer algo assim:

function melhorEntre(um, outro, criterio){
  if(criterio(um, outro)){
    return um;
  }
  else {
    return outro;
  }
}

sorvete1 = {sabor: 'morango'};
sorvete2 = {sabor: 'chocolate'};

prefiroChocolate = (function (s1, s2){
                                   return (s1.sabor === 'chocolate');
                            });

prefiroMorango = (function (s1, s2){
                                  return (s1.sabor === 'morango');
                            });

alert(melhorEntre(sorvete1, sorvete2, prefiroMorango).sabor);
alert(melhorEntre(sorvete1, sorvete2, prefiroChocolate).sabor);

Em Ruby o código ficaria um pouco diferente:

def melhor_entre(um, outro, criterio)
    if criterio.call(um, outro)
        um
    else
        outro
    end
end

sorvete_1 = { :sabor => 'chocolate' }
sorvete_2 = { :sabor => 'morango' }

prefiro_chocolate = lambda {|s1,s2| s1[:sabor] == 'chocolate'}
prefiro_morango = lambda {|s1,s2| s1[:sabor] == 'morango'}

puts melhor_entre(sorvete_1, sorvete_2, prefiro_morango)[:sabor]
puts melhor_entre(sorvete_1, sorvete_2, prefiro_chocolate)[:sabor]

Agora vamos pensar: as duas linguagens possuem higher-order programming? Não, só JavaScript possui. Em Ruby o que é passado não é uma função e sim um objeto, veja só:

prefiro_chocolate = lambda {|s1,s2| s1[:sabor] == 'chocolate'}
puts prefiro_chocolate
#=> #<Proc:0x00028a64@tmp/compara.rb:19>
puts prefiro_chocolate.class
#=> Proc

O principal divergente da solução em Ruby é que você deve passar a mensagem call para o objeto (ou usar a palavra-chave yield). Na pratica do dia-a-dia não tem tanta diferença e é comum falar em higher-order Ruby.

Em Ruby não precisamos de funções de verdade para termos higher-order programming, podemos usar objetos para modelar as funções. Em JavaScript não temos construções especiais para objetos, mas utilizamos funções:

function Sorveteiro(){
  this.numeroDeVendidos = 0;
  this.vender = function(){this.numeroDeVendidos++;};
};

s = new Sorveteiro();
alert(s.numeroDeVendidos);
s.vender();
alert(s.numeroDeVendidos);
s.vender();
s.vender();
alert(s.numeroDeVendidos);

Alguém me disse essa semana que uma das grandes vantaens em aprender higher-order programming (a pessoa falou em programação funcional mas não é bem isso que ela quis dizer) é que com ela você simula objetos mas o contrario não é verdade. Bom, não é assim. Nada impede de você ter higher-order programming em uma linguagem Orientada a Objetos (JavaScript é Orientada a Objetos!) e com objetos você pode facilmente modelar higher-order programming.

E qual a diferença disso tudo para programação funcional? Bom, programação funcional usa higher-order programming, mas não é isso que define uma linguagem funcional (JavaScript não é funcional).

Em 1984, John Hughes publicou um paper chamado “Why Functional Programming Matters”. Este paper é, até hoje, uma das obras mais importantes para o paradigma. Nele o autor descreve:

The special characteristics and advantages of functional programming are often summed up more or less as follows. Functional programs contain no assignment statements, so variables, once given a value, never change. More generally, functional programs contain no side-effects at all. A function call can have no effect other than to compute its result. This eliminates a ma jor source of bugs, and also makes the order of execution irrelevant - since no side-efect can change the value of an expression, it can be evaluated at any time. This relieves the programmer of the burden of prescribing the flow of control. Since expressions can be evaluated at any time, one can freely replace variables by their values and vice versa - that is, programs are “referentially transparent”. This freedom helps make functional programs more tractable mathematically than their conventional counterparts.

Erik Meijer apresentou uma palestra no JAOO chamada “Why Functional Programming (still) Matters” onde ele afirma que nenhuma linguagem é realmente funcional, provando que se pode simular efeitos colaterais em Erlang, Haskell, F# e várias outras.

A conclusão do Erik -é claro que defendendo suas decisões ao criar o LINQ- é que os conceitos por trás das linguagens ditas funcionais são mais importantes do que ser uma linguagem puramente funcional ou não.

Isso significa que você deve aprender sobre programação funcional e aplicar suas técnicas sempre que necessário mas cuidado com o termo “funcional”. Na maioria das vezes você quis dizer Higher-Order Programming.

Update: Alguns dos comentários msotram uma confusão com funções javaScript e objetos. Não só o texto falou que em JavaScript funções são objetos bem como ele mostrou o exemplo do sorveteiro, mas tentando deixar ainda mais claro:

ds

Nem só de troca de mensagens vivem os objetos

Sunday, May 25th, 2008

Percebi que boa parte das dúvidas quanto ao meu post sobre como objetos não possuem atributos se deve ao fato das pessoas não terem geralmente um conhecimento real sobre o que é troca de mensagens.

Perfeitamente compreensível. Na maior parte dos livros e faculdades as pessoas aprendem que Orientação a Objetos é sobre como utilizar classes e sobre como as funções são chamadas de métodos. Por algum motivo esquecido nas areias do tempo decidiu-se que chamar o método em uma classe era passar uma mensagem e por isso algumas pessoas notoriamente pedantes usam este termo ao invés de dizer apenas “chama a função”.

Bem, os conceitos no parágrafo acima estão errados. Orientação a Objetos não é sobre classes e sim sobre…er… objetos. Você pode ter OO sem ter classes, como JavaScript e Io e pode ter também OO sem mensagens.

Troca de mensagens é um conceito utilizado em diversas áreas, não apenas Orientação a Objetos. Você pode ter um Sistema Operacional baseado neste conceito -como o MINIX por exemplo- ou criar uma arquitetura de computação distribuída como SOAP.

O que distingue a passagem de mensagens é o fato de que o recipiente da mensagem, seja um objeto, um serviço ou um processo, é quem decide o que é feito em decorrência de sua invocação.

Para tentar içar um pouco mais claro eu criei um meta-modelo bem bobinho em Java. Este representa um sistema Orientado a Objetos com classes e passagem de mensagens. O código abaixo mostra como declarar uma Classe calculadora e enviar uma mensagem dizendo para que esta multiplique números.

BlocoDeCodigo bloco = new BlocoDeCodigoImpl<Integer, Integer, Integer>(){
			public Integer executar(Integer a, Integer b){
				return a * b;
			}
		};

		Classe classeCalculadora = novaClasse("Calculadora");
		classeCalculadora.declaraMensagem("multiplique", bloco);

		Instancia calculadora = instanciar("Calculadora");

		assertEquals(8, calculadora.enviaMensagem("multiplique", 2, 4));

Note os passos realizados. Primeiro criamos um bloco de código, uma função. Depois dizemos ao sistema que existe uma classe chamada calculadora. Logo apos registramos o fato de que calculadora responde a uma mensagem executando o bloco que havíamos declarado.

Em termos de semântica, este código é mais ou menos equivalente a este:

public class Calculadora{
 public Integer multiplicar(Integer a, Integer b){
  return a * b;
}
}

Depois nós instanciamos a classe e passamos uma mensagem para ela, o que seria equivalente a:

Calculadora calc = new Calculadora();
calc.multiplicar(2,4);

As classes relevantes:

public class Ambiente {
	static Map<String, Classe> classesDeclaradas = new HashMap<String, Classe>();

	static Classe novaClasse(String nomeDaClasse) {
		ClasseImpl classe = new ClasseImpl(nomeDaClasse);
		classesDeclaradas.put(nomeDaClasse, classe);
		return classe;
	}

	static Instancia instanciar(String nomeDaClasse) {
		return new Instancia(classesDeclaradas.get(nomeDaClasse));
	}
}

public class ClasseImpl implements Classe {

	private final String nome;

	private Map<String, BlocoDeCodigo> mensagens = new HashMap<String, BlocoDeCodigo>();

	public ClasseImpl(String nome) {
		this.nome = nome;
	}

	public void declaraMensagem(String nomeDaMensagem, BlocoDeCodigo blocoASerExecutado) {
		mensagens.put(nomeDaMensagem, blocoASerExecutado);
	}

	public String nome() {
		return nome;
	}

	public boolean respondeA(String nomeDaMensagem) {
		return mensagens.containsKey(nomeDaMensagem);
	}

	public BlocoDeCodigo codigoParaMensagem(String nomeDaMensagem) {
		return mensagens.get(nomeDaMensagem);
	}

}

public class Instancia {
	private final Classe minhaClasse;

	public Instancia(Classe classe) {
		this.minhaClasse = classe;
	}

	public Object enviaMensagem(String mensagem, Object... args) {
		Object primeiro = args.length > 0 ? args[0] : null;
		Object segundo = args.length > 1 ? args[1] : null;

		return minhaClasse.codigoParaMensagem(mensagem).executar(primeiro,
				segundo);
	}

	public Classe classe() {
		return minhaClasse;
	}

}

Esse meta-modelo é baseado em troca de mensagens. A classe Calculadora não recebe código a ser executado ela apenas recebe o nome de uma mensagem e parâmetros. Imagine que eu registre o mesmo bloco de código para várias mensagens, ou que eu use recursos de AOP e intercepte a execução do bloco. Nada disso é relevante para quem invoca a mensagem, ele apenas a envia e o que acontece em decorrência disso é responsabilidade do receptor.

Como quase todas as linguagens atuam desta forma pode ser difícil entender o conceito já que nunca se viu nada diferente. Vamos então implementar outro meta-modelo que não usa troca de mensagens mas sim uma outra forma chamada Data-Directed.

Nesta forma de invocar operações em objetos –que, como a anterior não é específica de OO- quem decide qual função será aplicada é o ambiente de execução, o runtime. Quando você invoca uma operação o ambiente vai procurar dentre os métodos registrados qual é o aplicável para aquele objeto e vai executar o método nele. Common Lisp utiliza este recurso de maneira tão poderosa em suas Generic Functions que praticamente elimina a necessidade de coisas como proxies e AOP.

Nosso meta-modelo para Data-Directed é executado dessa forma:

BlocoDeCodigo bloco = new BlocoDeCodigoImpl<Integer, Integer, Integer>(){
			public Integer executar(Instancia instancia, Integer a, Integer b) {
				return a * b;
			}
		};

		Classe classeCalculadora = novaClasse("Calculadora");
		registrarMetodo("multiplique", classeCalculadora, bloco);

		Instancia calculadora = instanciar("Calculadora");

		assertEquals(8, executarMetodo("multiplique", calculadora, 2, 4));

Repare que agora o bloco de código recebe como seu primeiro argumento uma referência para a instancia a qual se aplica (se você já usou java.lang.Method sabe que isso não é incomum quando se desce ao nível de implementação de linguagem). Caso nosso exemplo fosse minimamente usável seria desta forma que o bloco obteria acesso ao objeto em si.

Logo depois criamos a classe como antes mas ao invés de registrar uma mensagem na classe nós registramos um método no ambiente, dizendo que o método se aplica àquela classe. A invocação em si é bem parecida com a anterior.

Na implementação a única classe mais interessante é o Ambiente, que agora é bem mais esperto:

public class Ambiente {
	static Map<String, Classe> classesDeclaradas = new HashMap<String, Classe>();
	static Map<String, Map<Classe, BlocoDeCodigo>> metodos = new HashMap<String, Map<Classe, BlocoDeCodigo>>();

	static Classe novaClasse(String nomeDaClasse) {
		ClasseImpl classe = new ClasseImpl(nomeDaClasse);
		classesDeclaradas.put(nomeDaClasse, classe);
		return classe;
	}

	static Instancia instanciar(String nomeDaClasse) {
		return new Instancia(classesDeclaradas.get(nomeDaClasse));
	}

	static void registrarMetodo(String nomeDoMetodo, Classe tipoEmQueSeAplica,
			BlocoDeCodigo bloco) {
		metodo(nomeDoMetodo).put(tipoEmQueSeAplica, bloco);
	}

	static Object executarMetodo(String nomeDoMetodo, Instancia instancia,
			Object... args) {
		Map<Classe, BlocoDeCodigo> tiposAceitaveis = metodo(nomeDoMetodo);
		if (!tiposAceitaveis.containsKey(instancia.classe()))
			throw new RuntimeException("Metodo inexistente");

		BlocoDeCodigo bloco = tiposAceitaveis.get(instancia.classe());

		Object primeiro = args.length > 0 ? args[0] : null;
		Object segundo = args.length > 1 ? args[1] : null;

		return bloco.executar(instancia, primeiro, segundo);
	}

	private static Map<Classe, BlocoDeCodigo> metodo(String nomeDoMetodo) {
		if (!metodos.containsKey(nomeDoMetodo))
			metodos.put(nomeDoMetodo, new HashMap<Classe, BlocoDeCodigo>());

		return metodos.get(nomeDoMetodo);
	}

}

Agora não apenas registra as classes mas também os métodos que são aplicáveis à cada classe e faz a invocação dos métodos em si.

Estes exemplos são bem educacionais, sem muita aplicação pratica, mas como já vimos em posts passados o fato de se usar message-passing ou Data-Directed ou properties, ou componentes ou qualquer outra coisa interfere no modo como devemos projetar nosso software. Existe uma vasta literatura sobre este tema mas ainda assim é uma das coisas mais desconhecidas pelo programador profissional.

Objetos não são atributos + funções

Sunday, May 18th, 2008

Quando simplificamos demais ao ensinar conceitos acabamos criando problemas que demoram anos para se resolver, se é que são resolvidos. Um exemplo que eu observei hoje foi como algumas pessoas pensam sobre objetos.

É comum que seja ensinado no primeiro contato das pessoas com orientação a Objetos que objetos representam atributos e funções embaladas no mesmo saco. Bom, isso é uma simplificação extrema utilizada para fazer com que quem conheça programação procedural trabalhe com objetos de maneira mais simples, mas é uma simplificação tão grosseira que atrapalha algumas pessoas para o resto da vida.

Objetos não possuem propriedades + funções, eles possuem estado + comportamento. Você provavelmente vai usar atributos (i.e. variáveis de instancia) e funções (de instancia também) para implementar isso mas é um detalhe de implementação, não algo que deva ser exposto.

Um agravante deste problema são propriedades. Sejam propriedades bem resolvidas como as do C# ou meia-boca como do Java, elas representam apenas mais uma mensagem que o objeto recebe (já que ambas as linguagens são baseadas em troca de mensagens) e não “atributos” do objeto.

get/set em Java são herança de um modelo de componentes. Componentes não são necessariamente objetos, o que a (finada?) especificação JavaBeans fez foi utilizar classes Java para implementar componentes gráficos. Como não havia metadados (annotations em Java) naquela época o melhor era adotar uma convenção, daí os setXxx e getXxx da vida.

O problema é que este idioma saiu do controle. Ao invés de utilizarmos um método que faça sentido dentro do domínio preferimos criar um get/set burro, típico de arquiteturas BOLOVO.

Por exemplo, suponha que você possua uma classe Pedido que possui um status. Quando alguém vai atualizar o status do pedido para “finalizado” qual idioma é mais comum?

//1) set/get
pedido.setStatus(Pedido.Status.FINALIZADO);

//2) Mensagem
pedido.finalizar();

Creio que você concorda comigo que o primeiro é de longe mais utilizado. Qual o problema com ele? Como dissemos antes, Java é uma linguagem baseada em troca de mensagens. Uma mensagem é algo que o objeto recebe e decide o que fazer, no caso de Java isso acontece quando chamamos um método. Quem deve decidir o que deve ser feito não é o cliente e sim o destinatário da mensagem. Quando você diz setStatus(Status) você está dizendo para a classe que quer que os status dela seja o especificado. Pensa bem, é isso que você quer?

O que você quer em verdade é que o pedido seja finalizado. Como isso é feito, se muda status ou não, não é papel do código cliente, é papel do objeto (e deve ser documentado, especificado e verificado através de testes unitários).

Da mesma forma, quando você executa um getStatus() no objeto o que você faz com isso? Exceto em alguns casos específicos, um método getXxx() só deveria ser utilizado porque você precisa executar algo com ele que não vai envolver mudança de estado, como por exemplo exibir numa interface gráfica. Se você faz um getXxx() porque baseado no retorno você chama uma lógica ou outra provavelmente você está fazendo algo errado, já que é uma violação gritante da Lei de Deméter.

O que eu deveria fazer, então? Suponha que eu tenha o seguinte código:

public void notificarMudancaEm(Pedido p){
 if(p.getStatus().equals(Pedido.Status.FINALIZADO){
     servicoEmail.enviamensagemConclusao(p);
 }
}

Isso parece bem razoável, não? A lógica de enviar um e-mail de conclusão não está no Pedido e sim em algum serviço próprio para isso. Ele provavelmente é um observador do pedido e cada vez que você chama setStatus() esta é notificado. Num caso real recente eu estava trabalhando numa aplicação legada com o código exatamente como o acima. De repente alguém decidiu que um Pedido também está finalizado se estiver em status CANCELADO.

Essa é a hora em que o programador xinga a mãe do analista de negócios e vai caçar um email de três meses atrás que contem uma documentação, assinada em sangue, que contraria isso. O gerente de projetos vê aquilo, dá um sorriso e manda um email para o cliente daquela consultoria de três letrinhas dizendo que é uma mudança de escopo e que vai precisar de 50 horas a mais para isso. Ele diz ao programador que na verdade só tem 5 horas porque as outras 45 ele vai usar como desculpa quando o projeto atrasar. De quem é a culpa?

Bom, de quem é a culpa é assunto para outro post mas eu te garanto que não é da Orientação a Objetos. O problema no código acima (e certamente este código está repetido em milhões de outros lugares) é que ele não cumpre o princípio básico de deixar o objeto ser responsável pela sua própria vida. Você precisa saber se o pedido está finalizado mas ao invés de perguntar isso ao objeto você pergunta qual seu status.

Imagine que ao invés do código acima você possuísse algo mais… OO:

public void notificarMudancaEm(Pedido p){
 if(p.isFinalizado()){
     servicoEmail.enviamensagemConclusao(p);
 }
}

E suponha que você tenha que alterar o que FINALIZADO significa. Qual é mais fácil?

É este tipo de coisa que você perde ao transformar objetos em atributos+funções. Ao invés de pensar “quais são os atributos deste objeto?” pense “quais mensagens este objeto responde?”.

Australian Architecture Forum 2008

Thursday, May 1st, 2008

Falando em coisas agitadas, fui convidado para palestrar no Australian Architecture Forum 2008. O título é “Lightweight SOA Through Web Widgets” e falar de SOA com REST num evento onde vai estar presente o impagável Jim Webber é algo bem diferente.

Como meu Google Analytics diz que ese blog é acessado por pessoas aqui na Austrália fica o convite.

Par de Jarros

Sunday, April 6th, 2008

Metodologias ágeis pensam sempre em times de especialistas generalistas. Isso é algo fantástico.

É óbvio que ter um especialista em banco de dados Oracle no time aumenta bastante a capacidade técnica, é óbvio que ter o James Gosling como programador Java aumenta a produtividade nesta linguagem mas é mais que óbvio que a grande, grande maioria dos projetos de software hoje em dia não precisam de especialistas extremos, precisam de gente boa o suficiente na tecnologia.

Isso nos coloca confortáveis para ao invés de um DBA dedicado termos apenas bons desenvolvedores, que ainda que não saibam diferenciar todos os tipos de tablespace possíveis conseguem fazer o sistema funcionar de forma razoável –e razoável significa dentro dos requisitos funcionais e não-funcionais.

Não consigo lembrar de nenhum projeto que eu tenha participado nos últimos três anos que não envolvesse mais de uma linguagem de programação, geralmente Java com Ruby, C++, JavaScript, C#, Bash e/ou PERL (alem das DSLs: HQL, SQL, etc.). Nos bons times não havia “desenvolvedor C#”, havia desenvolvedor, e isso significava que o cara usava as ferramentas que melhor servissem para o trabalho.

Mas o que isso quer dizer do ponto de vista do desenvolvedor? Quer dizer que ele vai ser exposto à tecnologias diferentes, o que é ótimo, mas também quer dizer que ele terá que abandonar algumas das suas preferências pessoais em favor do time, o que pode não ser tão bom.

Em um time ágil, todos os membros devem estar comprometidos com o projeto. Não tem essa de “a minha parte está feita, falta Fulano terminar a dele”, todos são responsáveis e todos vão ajudar. Se você foi contratado como programador SQL e precisamos de uma mão para terminar de escrever testes em Selenium é sua obrigação para com o time se voluntariar.

Mas isso, como tudo na vida, tem dois lados. Existem pessoas que não ligam para a tecnologia utilizada, elas gostam do projeto em si, mas no mundo do desenvolvimento existem muitas pessoas –e geralmente pessoas muito boas- que possuem suas preferências. O cara não gosta de programar em Ruby, ele prefere Java. Se o time precisar ele escreve Ruby mas por ele fazia tudo em Java -ele não acredita que Ruby tenha a mesma qualidade, ou algo do tipo.

Lembre-se que o manifesto ágil coloca pessoas acima do processo, se o processo diz que o desenvolvedor deve ser bombril multi-uso mas a pessoa não se sente a vontade nessa área você como gestor tem obrigação de fazer algo a respeito.

O que fazer? Deixar este desenvolvedor apenas nos projetos Java? Se isso for uma opção tudo bem, mas e em times pequenos? Eu vejo essa situação como um contrato entre as partes:

  • O desenvolvedor deve saber que sua preferência de linguagem/tecnologia/plataforma/framework/biblioteca não necessariamente é a melhor para o caso e/ou não é viável na atual situação.
  • O desenvolvedor deve se comprometer a utilizar a tecnologia em questão quando o time necessitar que ele o faça –e ele tem o direito de dizer até 3 palavrões por linha de código escrita
  • O gestor tem que garantir que o desenvolvedor tenha direito à expressar sua opinião quanto às escolhas do grupo
  • O gestor tem que saber que essa pessoa não está confortável nessa posição e fazer o possível para que isso seja amenizado

Da mesma maneira que o gestor do projeto ou do time sabe que não pode arriscar seu sucesso por uma birra do desenvolvedor com a linguagem, ele sabe que é muito difícil encontrar bons desenvolvedores e manter um ambiente de trabalho agradável. Na minha experiência o que eu mais vi foram casos onde o desenvolvedor cumpre a parte dele no contrato acima mas o gestor não. O gestor trata todos os desenvolvedores como iguais, ignorando completamente o caráter pessoal e social de um projeto de desenvolvimento.

O que “amenizar” significa depende do seu contexto. Você pode tentar mudar a pessoa de equipe, pode fazer com que ele tenha a opção de pegar outras tarefas que não seriam imediatamente executadas, oferecer treinamento… O que você não pode fazer é que o processo –ágil ou não- vença à razão e você tenha um desenvolvedor completamente desestimulado e frustrado na sua equipe, que enquanto você não olha está em um site de empregos.

Não deixe que para aquele desenvolvedor agile signifique trabalhar com algo que você não gosta.

Qi4j @ ThoughtWorks Community College

Thursday, April 3rd, 2008

Ontem tivemos mais um Community College na ThoughtWorks Melbourne, desta vez focamos no Qi4j.

É uma idéia interessante. Basicamente o qi4j (”quiforjêi”) usa micro-aspectos para modelar qualquer coisa. O problema é que a sintaxe atrapalha. Eles usam a Linguagem Java, com Language Adaptations e uma Factory mágica, provavelmente uma linguagem própria teria mais efeito.

Labirinto

Thursday, March 27th, 2008

A quantidade de dados disponível na Internet é algo interessante e quando temos a ferramenta certa algumas realidades são tão claras que chegam a ser constrangedoras. Para mim a rede social mais relevante hoje é o Linkedin. Apesar de haverem centenas de desesperados para arrumar um emprego e ganhar recomendações sem merecer é m sistema bem feitinho e de uma empresa que parece ter o pé no chão: nada de criar o novo Facebook, foco foco foco!

Bem, dia desses eu vi que eles lançaram páginas das empresas. Além de uma interação redondinha com a BusinessWeek o perfil da empresa possui diversos dados extraídos dos perfis dos seus funcionários e, como a experiência de trabalhar com alto volume de dados e acessos me mostrou, isso não é nada fácil.

Mas aí vem a parte engraçada. Pegue a página de uma empresa de três letrinhas qualquer. Veja o box “Related Companies” e perceba a quantidade de empresas de três letrinhas dos dois lados (antes de entrar na empresa, depois de sair). Agora clique em uma empresa de três letrinhas da lista. Tente achar uma delas que não tenha uma empresa de três letrinhas como “after”.

É óbvio que isso não é nenhum dado científico mas mostra a realidade que quem trabalha nessas empresas vive -falo isso de conhecimento próprio. A coisa mais comum para o desenvolvedor de sistemas no Brasil é viver entre consultorias, você fica um pouco em uma, recebe uma proposta melhor, vai para outra, tira um certificado, volta pra anterior, quer ganhar mais, muda de novo. Sair deste ciclo não é fácil, exige sorte e/ou muita vontade. Não é fácil arrumar um bom lugar para se trabalhar e ainda ganhar a mesma coisa, mas existe. Na verdade eu percebo que tirando poucas exceções a maioria das pessoas com nível técnico bom que eu conheço ou não estão mais neste ciclo ou estão saindo dele.

Existe uma onda de pessoas que estão indo trabalhar com produtos, fazer consultoria por conta própria ou abrir sua própria startup. Isso é ótimo, quebra o paradigma infeliz de que para um técnico ter uma carreira de sucesso e;e deve sair da área.

Aqui em Melbourne -e imagino que na Australia toda- existe um saudável mercado de pequenas consultorias. São empresas pequenas, de umas dez pessoas, que conseguem competir nesse mercado tão cheio de absurdos. Infelizmente no Brasil isso é meio impossível -e dá para entender o Viícius-, as consultorias ganham contratos na base do… bom, vocês são brasileiros e sabem do que eu estou falando. Aqui existem as grandes também, Melbourne é um centro mundial, mas ainda que as pequenas estejam longe das contas megalomaníacas elas conseguem se virar com empresas que precisam de resultado de verdade, e não apenas encher uma sala de gente que finge que desenvolve.

Afinal, quantas permutações você consegue fazer com três letrinhas?

Testadores Ágeis

Monday, March 24th, 2008

Todo mundo sabe que agilidade é sobre testes. Muitos testes. Bem, mais ou menos. Geralmente quando falamos de testes em metodologias ágeis estamos falando de testes escritos pelo desenvolvedor enquanto escreve código, e estes têm dois objetivos: feedback e bom design.

Feedback se consegue ao executar os testes. Quando você escreve uma classe que quebra um teste você sabe que existe algo errado imediatamente. Bom design se dá porque nada alem do necessário é criado, alem de que as tecnologias atuais de testes exigem que seu código siga alguns bons princípios para que seja testável, como bom gerenciamento de dependências.

Existe, entretanto, outro tipo de teste, geralmente feito por um profissional especializado, que chamamos de QA (Quality Assurance). Este teste valida o software de um ponto de vista diferente. Muita gente se engana achando que testes de desenvolvedor são suficientes para validar um sistema. Obviamente que assim como nem todo sistema exige um web designer profissional especializado nem todo exige um profissional de testes, mas a maioria dos projetos que já participei tinham nisso um benefício.

Estava lendo o artigo do Jeff Paton, ex-colega ThoughtWorker, sobre isso e lembrei das minhas experiências com testadores em time ágeis. Mas primeiro talvez seja melhor contar sobre as experiências em times não-ágeis.

Eu trabalhei em uma empresa muito interessante mas com um processo muito estranho. A empresa tem orgulho de usar waterfall para desenvolver seus produtos, ninguém está autorizado a escrever uma linha de código sem escrever 8 documentos. Obviamente todos os projetos atrasam e obviamente o software tem uma qualidade deprimente, mas eles conseguem fazer dinheiro neste cenário –ainda que pagando um preço muito alto.

Teste é uma coisa séria nesta empresa. Os produtos estão sujeitos à regulamentação de telecomunicações de diversos paises, e cada funcionalidade tinha que ser testada de acordo. O fluxo de desenvolvimento era o típico de waterfall, nós desenvolvedores criávamos nossos sistemas (programas em C++ para plataformas UNIX diversas) e enviávamos uma tag do Subversion para a equipe de testes. O testador teoricamente já lera todas as especificações funcionai do produto e já tinha os casos de testes escritos e, talvez, implementados.

Era aí que a brincadeira começava. Na melhor das hipóteses o testador encontrava um bug, rejeitava o pacote (usando um maravilhoso sistema interno desenvolvido em Lótus Notes) e enviava de volta. O desenvolvedor corrigia e o pacote era retestado. Isso nunca acontecia. O que acontecia era:

  • O pacote era aprovado. O desenvolvedor, com o sistema já em produção, olhava o plano de testes por curiosidade e via que eles não testavam absolutamente nada de relevante, ninguém garantia a qualidade do treco
  • O pacote era rejeitado. O desenvolvedor olha ao motivo da rejeição e via que o que estava sendo testado nem de perto era o que o sistema deveria fazer. O testador Não entendeu o documento, muitas reuniões explicando tudo novamente e o pacote era retestado sem modificações
  • O pacote era recebido pelo testador com total surpresa. Era uma aplicação de linha de comando e o testador esperava uma aplicação com interface web, ou o testador esperava que o sistema usasse banco de dados e ele mantinha tudo em memória, ou…
  • O testador rejeitava o pacote porque não sabia como testa-lo. O desenvolvedor não pensava no testador, o testador não pensava no desenvolvedor.

Claro que todos os membros do escritório de projetos (já falei que tínhamos CMMI?) sabiam a solução para estes problemas e é claro que para eles a solução passava pela criação de mais documentos, de 1 a 5 dependendo de quem você perguntasse.

Nas equipes ágeis que trabalhei a coisa era diferente. O testador senta ao lado do desenvolvedor, e por vezes eles trabalham em pair programming (pair testing, provavelmente). O testador está envolvido em todas as tarefas, validando que o que o analista de negócios pede é entregue, que confirma com as premissas do projeto e etc.

Para fazer isso ele está envolvido na elaboração das user stories e, principalmente, dos critérios de aceite definidos nela. Seu trabalho é verificar que os critérios de aceite são obedecidos pela implementação e que eles fazem sentido em primeiro lugar.

Um profissional come site perfil não pode ser simplesmente um usuário. Ele tem que conhecer sobre metodologia de testes de software (um campo enorme por si só), sobre o domínio do sistema e sobre desenvolvimento. Idealmente o testador é um desenvolvedor e sabe criar suas ferramentas. Um testador deve ser capaz de escrever seu próprio programa usando Selenium RC, ou suas fixtures no Fit.

Infelizmente nem sempre isso acontece. Em muitas empresas o cargo de testador é delegado à pessoas que possuem um conhecimento técnico muito baixo e executam tarefas do tipo “aperte o botão e verifique se quebra o layout”. Neste caso os desenvolvedores podem prover as ferramentas para os testadores mas ainda assim eles devem ter capacidade de escrever os casos de testes usando a ferramenta sozinhos.

O papel do testador não é dizer que a aplicação está homologada, na maioria das vezes isso é apenas uma ilusão que gerentes gostam de cultivar. O papel do testador é garantir a qualidade dele submetendo à testes rígidos. Não é um aceite formal, o testador não é quem aprova o software –o analista de negócios ou seu equivalente aprova o software- ele faz parte do desenvolvimento deste.

Minha experiência diz que assim como trabalhar com testadores apertadores-de-botão não agrega nada ao produto alem de burocracia desnecessária, trabalhar com testadores de verdade no time é uma das melhores coisas que pode acontecer num projeto de software.

No meu projeto anterior os testadores chegaram ao time apenas como apertadores de parafusos. Eles clicavam na tela e verificavam que a informação correta era disponibilizada. Como nossa participação no projeto era facilitar a adoção de metodologias ágeis isso tinha que mudar. A primeira coisa foi a participação dos testadores na definição das histórias, eles trabalham junto com o analista de negócios e o usuário definindo critérios. Eles também participam do sign-off da história –quando ela é apresentada aos desenvolvedores que vão executa-la- e quando conclui a história o desenvolvedor az um walkthrough dela para o testador. Em todas as etapas eles agregam informação, questionam as praticas e, principalmente, garantem que o software final é testável.

Foi adicionado ao time de facilitadores um testador especialista em automação –um desenvolvedor exercendo função de QA, basicamente-, a função dele era disponibilizar ferramentas e disseminar seu uso. Com o tempo desenvolvemos uma Internal DSL em Ruby para controlar nossa ferramenta de teste, o Selenium RC. A ferramenta é utilizada por desenvolvedores nos nossos testes de aceitação que fazem parte do build e pelos testadores na hora de dizer que uma história está concluída.

Os resultados desta adoção são excelentes. Quando nossa parte no projeto –facilitar a adoção das praticas- acabou a pessoas estavam aptas à continuar o bom trabalho por si mesmas. Os desenvolvedores ainda criam as ferramentas mas a gerencia, vendo os benefícios, agendou cursos de Ruby e Selenium para a equipe de QA.