Archive for the ‘java’ Category

Refletindo sobre Tendências

Friday, July 10th, 2009

Recentemente muita gente tem me procurado nos instant messengers da vida para perguntar sobre tendências. Existe uma idéia no Brasil de que quem está de for a “traz as novidades”. Isso podia ser verdade antes da Internet mas agora as coisas se espalham com tanta velocidade que em muitos aspectos o Brasil está muito na frente da Austrália.

Mas existe o outro lado que é o trabalho na ThoughtWorks. Os projetos que nós enfrentamos geralmente começam da mesma maneira que os que qualquer consultoria, de três letrinhas ou três pessoas, enfrenta. O diferencial que faz ser um lugar interessante para se trabalhar é o que acontece durante o projeto.

O que segue neste post é uma amarrado de impressões pessoais sobre os últimos doze meses, tanto sobre a Austrália quanto o que sei de outros escritórios. Se ele não for coeso ou fácil de ler eu peço desculpas mas encare como um braindump.

Os projetos para bancos e empresas do mercado financeiro em geral continuam bem parecidos. Em 2007 houve uma euforia em torno da bolha econômica e muitos projetos megalomaníacos –e, por conseqüência, extremamente interessantes do ponto de vista técnico- apareceram mas a crise os tirou do baralho nos tempos recentes. Os bancos estão gastando menos e buscando fazer mais dinheiro reutilizando a estrutura existente. A maioria dos projetos que eu tenho conhecimento dentro de bancos é para estender uma determinada oferta para novos clientes ou é para migrar de uma plataforma legada para algo menos dispendioso.

O interessante sobre o “legado dispendioso”, dentro e fora de bancos, é que muitas vezes ele se trata de coisinhas como WebSphere, Aqualogic, Biztalk, Tibco e produtos parecidos. Apos gastar rios de dinheiro implantando estes e não ver nenhum centavo de retorno real muitos dos grandes estão migrando para plataformas mais eficientes, quase sempre baseadas em software livre. Hoje em dia são comuns projetos de migração de Websphere para Jetty ou de BizTalk para serviços RESTful usando IIS, JSON e ASP.Net MVC, por exemplo.

Na parte de aplicações para Internet, onde geralmente eu me envolvo mais, as coisas também têm mudado bastante. Basicamente os projetos têm se dividido em startups e legado. As startups aparecem com um problema e algum montante de dinheiro. A plataforma mais utilizada para atender estes cenários é Ruby on Rails, geralmente fazendo deployment em algum serviço de Cloud Computing.

Cloud Computing é um tópico extremamente relevante tanto para ThoughtWorks quanto nos nossos clientes. Uma das coisas interessantes que fizemos no início do ano foi trabalhar junto com o Google no lançamento da AppEngine em Java (e outras linguagens).

As empresas com legado de Internet são sempre interessantes. Geralmente elas são algum grande prestador de serviço na área de mídia e possuem um ou mais websites antigos que têm aquela arquitetura manjada de rodar em um Weblogic ou Tomcat com um Apache de front-end. O problema é que hoje em dia o numero de usuários é muito superior e a velocidade com que funcionalidades têm que ser adicionadas e alteradas é muito maior. Após entender que os Googles e Facebooks da vida não usam Java EE e não pagam licença para a IBM as empresas estão desesperadas para atingir o mesmo nível de eficiência.

O que temos feito nesta área é utilizar a já citada Cloud Computing para realizar tarefas que não precisam ser executadas dentro do firewall (de crawling até rodar teste de carga), refatorar aplicações grandes para atingir escalabilidade horizontal e simplificar processos de deployment e gerenciamento de recursos.

Na área mais de programação em si as coisas não têm sido lá muito excitantes. As plataformas em específico não têm nenhuma novidade marcante mas a programação poliglota é uma realidade. Até hoje todos os projetos que tive alguma participação dentro da ThoughtWorks utilizavam mais de uma linguagem de programação (já descontando Bash e JavaScript).

Uma surpresa agradável foi a que tive no meu projeto atual, em que voltei a programar em .Net após 3 anos afastado. A maioria das coisas que eu realmente não gostava sobre C# e seu ecossistema foram removidos (exceto Windows e Visual Studio, duas peças que eu considero de qualidade inferior). A Microsoft continua enfiando frameworks e ferramentas terríveis pela guela dos seus clientes (MSBuild? TFS? WCF? WTF?!?) mas no geral as coisas estão bem melhores.

Em termos de livros sobre programação eu tenho me focado quase que exclusivamente nos conceitos presentes em linguagens e paradigmas de programação. Esta é a lista de livros relacionados que eu li desde que cheguei aqui:



Esta é a fila dos que faltam:


(fora os que ainda estão no meu carrinho de compras na Amazon. Livro na Austrália é ridiculamente caro)

Na parte de gerenciamento de projetos e metodologias as coisas estão engraçadas. Tem horas que a euforia anima, tem hora que dá náusea. Eu acho que o Bellware resumiu muito bem:

early agile adopters were looking for a way to do things better. later adopters are just trying to do agile, thus the failures

Eu vim para a ThoughtWorks para ver como é que quem introduz métodos ágeis há anos trabalha. Nos últimos meses eu trabalhei com pessoas que fazem isto há mais de dez anos e em empresas que adotaram agile antes de eu saber que ele existia. O que eu aprendi neste período inicial é exatamente o descrito acima: quando seu objetivo é ser ágil você falha, quando seu objetivo é sempre melhorar você tem chances de sucesso.

Todos os projetos que participei foram bem sucedidos? Depende de para quem você pergunta. Mesmo os clientes mais difíceis que tive acabaram ficando satisfeitos no final mas muitos projetos que participei (e o número de projetos é bem maior que o número de clientes) foram executados de uma maneira que o time não ficou satisfeito. Eu acho que neste caso é perspectiva. Como a maioria dos projetos são um fracasso colossal basta ter algum nível de sucesso que o projeto vira referência. O time, em compensação, tem um critério de sucesso muito mais alto e não considera o projeto como bem-sucedido.

É claro que no fim das contas o que vale mais é a opinião do cliente –tanto porque o problema dele foi solucionado bem como porque é ele quem paga a conta no final- mas eu já vi diversos problemas decorrentes deste tipo de coisa. De builds que começaram em 10 minutos e terminaram em duas horas de duração até um time que perde 50% do seu tempo corrigindo defeitos por falta de uma suíte de testes decente. Os problemas podem não ser grandes para aquele projeto em específico mas não prestar atenção há eles é mortal em médio prazo.

Minha conclusão é que a indústria está num estado melhor do que há alguns anos atrás. Tecnicamente estamos entrando em uma espécie de renascimento e isso promete render muito material para posts aqui. Em termos de gerencia de projetos e processos as pessoas estão finalmente se convencendo que tudo tem limite, até ineficiência.

Mingle Day - Rio e São Paulo

Tuesday, June 23rd, 2009

Como este blog já anunciou este ano será cheio de eventos da ThoughtWorks no Brasil.

Uma coisa a se notar sobre a ThoughtWorks é que somos uma empresa de consultoria mas com uma divisão de produtos. Como a eventual vinda da ThoughtWorks para o Brasil significa a vinda das duas partes é bom que também apresentemos ao mercado brasileiro os softwares que produzimos.

O software mais popular da suite é o Mingle, um sistema de gerenciamento de projetos com muitas características interessantes. Ele foi construído baseado na experiência da empresa prestando consultoria, entende bem que cada processo é diferente e que modelos engessados não funcionam bem. Também possui uma interface rica que aliada com alguns recursos de hardware se torna uma ferramenta extremamente útil quando um Kanban eletrônico é necessário. Por fim é provavelmente o mais famoso caso de uso do JRuby on Rails -o Mingle usa componentes escritos em Java aliados aos recursos do Rails.

Se você quer conhecer mais sobre o produto tem duas oportunidades. Abaixo os convites.

Rio de Janeiro

Hi,

ThoughtWorks is sponsoring Agile Brazil 2009, the first major conference on Agile methodologies to be held in Rio de Janeiro, Brazil. In this extensive, one-day event, various practitioners and speakers will conduct sessions on a range of well-known Agile methodologies and practices such as Lean, Scrum, XP, User Stories, Continuous Integration, Release management and Test Driven Development.

Date and Venue:
June 27, 2009, 8:30am - 6:00pm.
Salao A (Padre Anchieta hall)
PUC-Rio, Gavea, Rio de Janeiro, Brazil.
Registration Information
Registration: R$ 200,00.
Register for Agile Brazil 2009

Mingle User Group Meeting in Rio de Janeiro

We have organized a free follow-on event for agile enthusiasts. We invite you to the Rio Mingle User Group (MUG) Meeting, an exclusive meet for Mingle users in Brazil, to discuss and share their experience with Mingle. Adam Monago, our product expert along with other Agile experts will take you through Mingle and its features and provide you tips and tricks on how to better use Mingle for project management and collaboration. After the talk you can interact with the attendees over food and drinks.

Date: 1- July-2009
Time: 17:30 - 19:00
Venue: PUC-Rio, Rua Marques de Sao Vicente 225 - Predio Padre Leonel Franca - 13 andar - Gavea, Rio de Janeiro, Brazil

To confirm your participation for the Mingle User Group, simply reply to this email: Studios-Brazil@thoughtworks.com?

Regards,
ThoughtWorks Studios
Studios-Brazil@thoughtworks.com

São Paulo

A Aspercom e a ThoughtWorks convidam você para o Encontro Agile / Mingle User Group Meeting. Este será um evento gratuito em São Paulo com mini-palestras, discussões e muito bate-papo.

Data: 30 de junho de 2009 às 19:00hs / Local: Av. Paulista

Facilitadores:
Paulo Caroli, Adam Monago (ThoughtWorks)
Rodrigo Yoshima, José Paulo Papo

Mingle User Group Meeting

O encontro do Mingle User Group (MUG) do Brasil é uma oportunidade para conhecer, discutir e compartilhar experiências com o Mingle. Adam Monago, um especialista no produto juntamente com outros Agilistas experientes, demonstrarão o Mingle provendo dicas e truques em como usar o produto para gerenciamento de projetos e colaboração.

Local, agenda, inscrições e outras informações acesse: http://blog.aspercom.com.br/2009/06/22/evento-agile-mingle/

Rodrigo Yoshima
ASPERCOM

Paulo Caroli
ThoughtWorks

Falando em Java 2009

Saturday, March 14th, 2009

Tem um tempinho a Caelum anunciou a terceira edição do Falando em Java, que definitivamente para mim é o melhor evento nacional sobre o tema desde o ConexãoJava.

Pelo que eu entendi será realizado no mesmo espaço que o Falando em Agile, um excelente centro de convenções com restaurantes próximos (especialmente se você gosta de sushi) e bema cessível mesmo para os que, como eu, não conhecem a cidade de São Paulo.

Em 2007 eu tive o prazer de apresentar na primeira edição do evento, com a infame “A Web 2.0 somos Nozes”:

Infelizmente este ano não vou poder participar. Apesar da minha mudança recente para Sydney estou trabalhando num projeto em melbourne (sim, eu vôo segunda de manhã para Melbourne e volto sexta de noite para Sydney, toda semana!) e por enquanto não posso ter planos de viajar em médio prazo.

Interessante que olhando agora a apresentação do FeJ2007 eu vejo que mais uma vez eu estou trabalhando numa grande empresa de mídia tradicional tentando fazê-los entender o que é Web 2.0 e como não ficar atrás. Estamos construindo um agregador de blogs utilizando coisa bem legais como Atom Publishing Protocol e microformatos, além de novamente uma estrutura de widgets.

Mas voltando ao evento, pela bagatela de R$ 95,00 você não vai perder essa, vai?

Domain-Driven Design & Agile: Fechando Malas

Wednesday, October 8th, 2008

Como falei algumas dezenas de vezes estou no fim de um projeto, na verdade na minha última semana neste instante. Foi um projeto muito interessante onde pudemos aplicar diversas técnicas como Domain-Specific Languages para testes e promoção de testes de aceitação. Também foi o primeiro projeto Java sem container que participei desde 2006, apenas PicoContainer, Hibernate, JMX e um cliente JMS -sem mesmo interface de usuário.

Outro ponto interessante sobre este projeto é que foi uma reescrita de um sistema com o qual estive envolvido antes. O cliente está passando por um programa que compreende diversos projetos e muitas fases. Há alguns meses nós fomos chamados para entregar, em algumas poucas semanas, uma versão deste sistema. Na nova fase do projeto eles resolveram investir mais na qualidade deste e tivemos uns bons 3 meses para reescrever tudo. Não só o sistema foi completamente reescrito bem como teve um time diferente (no anterior erámos eu e um colega ThoughtWorker, no atual somos 5 pares entre TWers, empregados do cliente e outros terceirizados).

O problema agora é a pressa. Não, o projeto não está com pressa, nossa entrega é em uma semana e faltam poucos cartões na parede. Eu que estou. Estou saindo deste projeto com muita coisa que eu queria fazer ainda meio-acabada e nesta última semana estou me dedicando basicamente a criar tracing bullets para o desenvolvimento futuro já que quem toma conta do sistema a partir da entrega de 15/10 é o cliente. Não é fácil com tão pouco tempo.

E esta lenga-lenga foi um mea-culpa para maiores informações sobre minha viagem ao Brasil. O press-release ficou assim:

Dia 23 e 24 de outubro ocorre em São Paulo o primeiro grande evento de Agile do Brasil:
http://www.falandoEmAgile.com.br/

Ouça as histórias de empresas que tem obtido sucesso com Scrum, entenda como estas práticas podem ser implantadas em ambientes tradicionais de projetos, veja o que a indústria tem falado e feito com Agile e descubra quais serão os próximos passos a serem dados nesse mundo. Conta com o palestrante internacional David Anderson, reconhecido líder na comunidade Ágil e autor do livro “Agile Management for Software Engineering”, e com o primeiro Certified Scrum Trainer da Scrum Alliance da América Latina, Alexandre Magno. De tópicos de Scrum e CMMI até estudos de caso com Agile na Austália, Inglaterra, Estados Unidos e Brasil.

Ocorrerão mais outros eventos próximos a essas datas:

O Zen of Agile, nos dias 21 e 22, um workshop com David Anderson:
http://www.heptagon.com.br/ws-zen-agile-mgmt

O Certified ScrumMaster, dias 27 e 28 de outubro:
http://www.caelum.com.br/treinamentos/csm-certified-scrum-master/

E por três vezes Phillip Calçado, conhecido aqui no GUJ, ministrará um workshop de Domain Driven Design de 8 horas, dia 21 de outubro no Rio de Janeiro, e dias 27 e 28 em São Paulo:
http://www.caelum.com.br/treinamentos/ws-46-domain-driven-design/
http://blog.fragmental.com.br/2008/09/01/brazilian…em-agile-domain-driven-design/

Está sendo divertido montar este workshop. É algo estranho porque é maior que uma palestra e menor que um curso -ao mesmo tempo é tempo demais e tempo de menos. Eu quero começar desmistificando alguns conceitos sobre objetos, trabalhando a idéia das decisões em três níveis e só depois entrar em Domain-Driven Design. É impressionante como fica mais claro falar sobre DDD depois de quebrar mitos, numa palestra nunca se tem tempo de fazer isso.

Como falei antes, para maiores informações basta ligar para a Caelum do Rio ou São Paulo.

E com a confirmação das datas eu muito provavelmente vou estar também no último dia do Rails Summit.

Nem só de troca de mensagens vivem os objetos

Sunday, May 25th, 2008

Percebi que boa parte das dúvidas quanto ao meu post sobre como objetos não possuem atributos se deve ao fato das pessoas não terem geralmente um conhecimento real sobre o que é troca de mensagens.

Perfeitamente compreensível. Na maior parte dos livros e faculdades as pessoas aprendem que Orientação a Objetos é sobre como utilizar classes e sobre como as funções são chamadas de métodos. Por algum motivo esquecido nas areias do tempo decidiu-se que chamar o método em uma classe era passar uma mensagem e por isso algumas pessoas notoriamente pedantes usam este termo ao invés de dizer apenas “chama a função”.

Bem, os conceitos no parágrafo acima estão errados. Orientação a Objetos não é sobre classes e sim sobre…er… objetos. Você pode ter OO sem ter classes, como JavaScript e Io e pode ter também OO sem mensagens.

Troca de mensagens é um conceito utilizado em diversas áreas, não apenas Orientação a Objetos. Você pode ter um Sistema Operacional baseado neste conceito -como o MINIX por exemplo- ou criar uma arquitetura de computação distribuída como SOAP.

O que distingue a passagem de mensagens é o fato de que o recipiente da mensagem, seja um objeto, um serviço ou um processo, é quem decide o que é feito em decorrência de sua invocação.

Para tentar içar um pouco mais claro eu criei um meta-modelo bem bobinho em Java. Este representa um sistema Orientado a Objetos com classes e passagem de mensagens. O código abaixo mostra como declarar uma Classe calculadora e enviar uma mensagem dizendo para que esta multiplique números.

BlocoDeCodigo bloco = new BlocoDeCodigoImpl<Integer, Integer, Integer>(){
			public Integer executar(Integer a, Integer b){
				return a * b;
			}
		};

		Classe classeCalculadora = novaClasse("Calculadora");
		classeCalculadora.declaraMensagem("multiplique", bloco);

		Instancia calculadora = instanciar("Calculadora");

		assertEquals(8, calculadora.enviaMensagem("multiplique", 2, 4));

Note os passos realizados. Primeiro criamos um bloco de código, uma função. Depois dizemos ao sistema que existe uma classe chamada calculadora. Logo apos registramos o fato de que calculadora responde a uma mensagem executando o bloco que havíamos declarado.

Em termos de semântica, este código é mais ou menos equivalente a este:

public class Calculadora{
 public Integer multiplicar(Integer a, Integer b){
  return a * b;
}
}

Depois nós instanciamos a classe e passamos uma mensagem para ela, o que seria equivalente a:

Calculadora calc = new Calculadora();
calc.multiplicar(2,4);

As classes relevantes:

public class Ambiente {
	static Map<String, Classe> classesDeclaradas = new HashMap<String, Classe>();

	static Classe novaClasse(String nomeDaClasse) {
		ClasseImpl classe = new ClasseImpl(nomeDaClasse);
		classesDeclaradas.put(nomeDaClasse, classe);
		return classe;
	}

	static Instancia instanciar(String nomeDaClasse) {
		return new Instancia(classesDeclaradas.get(nomeDaClasse));
	}
}

public class ClasseImpl implements Classe {

	private final String nome;

	private Map<String, BlocoDeCodigo> mensagens = new HashMap<String, BlocoDeCodigo>();

	public ClasseImpl(String nome) {
		this.nome = nome;
	}

	public void declaraMensagem(String nomeDaMensagem, BlocoDeCodigo blocoASerExecutado) {
		mensagens.put(nomeDaMensagem, blocoASerExecutado);
	}

	public String nome() {
		return nome;
	}

	public boolean respondeA(String nomeDaMensagem) {
		return mensagens.containsKey(nomeDaMensagem);
	}

	public BlocoDeCodigo codigoParaMensagem(String nomeDaMensagem) {
		return mensagens.get(nomeDaMensagem);
	}

}

public class Instancia {
	private final Classe minhaClasse;

	public Instancia(Classe classe) {
		this.minhaClasse = classe;
	}

	public Object enviaMensagem(String mensagem, Object... args) {
		Object primeiro = args.length > 0 ? args[0] : null;
		Object segundo = args.length > 1 ? args[1] : null;

		return minhaClasse.codigoParaMensagem(mensagem).executar(primeiro,
				segundo);
	}

	public Classe classe() {
		return minhaClasse;
	}

}

Esse meta-modelo é baseado em troca de mensagens. A classe Calculadora não recebe código a ser executado ela apenas recebe o nome de uma mensagem e parâmetros. Imagine que eu registre o mesmo bloco de código para várias mensagens, ou que eu use recursos de AOP e intercepte a execução do bloco. Nada disso é relevante para quem invoca a mensagem, ele apenas a envia e o que acontece em decorrência disso é responsabilidade do receptor.

Como quase todas as linguagens atuam desta forma pode ser difícil entender o conceito já que nunca se viu nada diferente. Vamos então implementar outro meta-modelo que não usa troca de mensagens mas sim uma outra forma chamada Data-Directed.

Nesta forma de invocar operações em objetos –que, como a anterior não é específica de OO- quem decide qual função será aplicada é o ambiente de execução, o runtime. Quando você invoca uma operação o ambiente vai procurar dentre os métodos registrados qual é o aplicável para aquele objeto e vai executar o método nele. Common Lisp utiliza este recurso de maneira tão poderosa em suas Generic Functions que praticamente elimina a necessidade de coisas como proxies e AOP.

Nosso meta-modelo para Data-Directed é executado dessa forma:

BlocoDeCodigo bloco = new BlocoDeCodigoImpl<Integer, Integer, Integer>(){
			public Integer executar(Instancia instancia, Integer a, Integer b) {
				return a * b;
			}
		};

		Classe classeCalculadora = novaClasse("Calculadora");
		registrarMetodo("multiplique", classeCalculadora, bloco);

		Instancia calculadora = instanciar("Calculadora");

		assertEquals(8, executarMetodo("multiplique", calculadora, 2, 4));

Repare que agora o bloco de código recebe como seu primeiro argumento uma referência para a instancia a qual se aplica (se você já usou java.lang.Method sabe que isso não é incomum quando se desce ao nível de implementação de linguagem). Caso nosso exemplo fosse minimamente usável seria desta forma que o bloco obteria acesso ao objeto em si.

Logo depois criamos a classe como antes mas ao invés de registrar uma mensagem na classe nós registramos um método no ambiente, dizendo que o método se aplica àquela classe. A invocação em si é bem parecida com a anterior.

Na implementação a única classe mais interessante é o Ambiente, que agora é bem mais esperto:

public class Ambiente {
	static Map<String, Classe> classesDeclaradas = new HashMap<String, Classe>();
	static Map<String, Map<Classe, BlocoDeCodigo>> metodos = new HashMap<String, Map<Classe, BlocoDeCodigo>>();

	static Classe novaClasse(String nomeDaClasse) {
		ClasseImpl classe = new ClasseImpl(nomeDaClasse);
		classesDeclaradas.put(nomeDaClasse, classe);
		return classe;
	}

	static Instancia instanciar(String nomeDaClasse) {
		return new Instancia(classesDeclaradas.get(nomeDaClasse));
	}

	static void registrarMetodo(String nomeDoMetodo, Classe tipoEmQueSeAplica,
			BlocoDeCodigo bloco) {
		metodo(nomeDoMetodo).put(tipoEmQueSeAplica, bloco);
	}

	static Object executarMetodo(String nomeDoMetodo, Instancia instancia,
			Object... args) {
		Map<Classe, BlocoDeCodigo> tiposAceitaveis = metodo(nomeDoMetodo);
		if (!tiposAceitaveis.containsKey(instancia.classe()))
			throw new RuntimeException("Metodo inexistente");

		BlocoDeCodigo bloco = tiposAceitaveis.get(instancia.classe());

		Object primeiro = args.length > 0 ? args[0] : null;
		Object segundo = args.length > 1 ? args[1] : null;

		return bloco.executar(instancia, primeiro, segundo);
	}

	private static Map<Classe, BlocoDeCodigo> metodo(String nomeDoMetodo) {
		if (!metodos.containsKey(nomeDoMetodo))
			metodos.put(nomeDoMetodo, new HashMap<Classe, BlocoDeCodigo>());

		return metodos.get(nomeDoMetodo);
	}

}

Agora não apenas registra as classes mas também os métodos que são aplicáveis à cada classe e faz a invocação dos métodos em si.

Estes exemplos são bem educacionais, sem muita aplicação pratica, mas como já vimos em posts passados o fato de se usar message-passing ou Data-Directed ou properties, ou componentes ou qualquer outra coisa interfere no modo como devemos projetar nosso software. Existe uma vasta literatura sobre este tema mas ainda assim é uma das coisas mais desconhecidas pelo programador profissional.

Objetos não são atributos + funções

Sunday, May 18th, 2008

Quando simplificamos demais ao ensinar conceitos acabamos criando problemas que demoram anos para se resolver, se é que são resolvidos. Um exemplo que eu observei hoje foi como algumas pessoas pensam sobre objetos.

É comum que seja ensinado no primeiro contato das pessoas com orientação a Objetos que objetos representam atributos e funções embaladas no mesmo saco. Bom, isso é uma simplificação extrema utilizada para fazer com que quem conheça programação procedural trabalhe com objetos de maneira mais simples, mas é uma simplificação tão grosseira que atrapalha algumas pessoas para o resto da vida.

Objetos não possuem propriedades + funções, eles possuem estado + comportamento. Você provavelmente vai usar atributos (i.e. variáveis de instancia) e funções (de instancia também) para implementar isso mas é um detalhe de implementação, não algo que deva ser exposto.

Um agravante deste problema são propriedades. Sejam propriedades bem resolvidas como as do C# ou meia-boca como do Java, elas representam apenas mais uma mensagem que o objeto recebe (já que ambas as linguagens são baseadas em troca de mensagens) e não “atributos” do objeto.

get/set em Java são herança de um modelo de componentes. Componentes não são necessariamente objetos, o que a (finada?) especificação JavaBeans fez foi utilizar classes Java para implementar componentes gráficos. Como não havia metadados (annotations em Java) naquela época o melhor era adotar uma convenção, daí os setXxx e getXxx da vida.

O problema é que este idioma saiu do controle. Ao invés de utilizarmos um método que faça sentido dentro do domínio preferimos criar um get/set burro, típico de arquiteturas BOLOVO.

Por exemplo, suponha que você possua uma classe Pedido que possui um status. Quando alguém vai atualizar o status do pedido para “finalizado” qual idioma é mais comum?

//1) set/get
pedido.setStatus(Pedido.Status.FINALIZADO);

//2) Mensagem
pedido.finalizar();

Creio que você concorda comigo que o primeiro é de longe mais utilizado. Qual o problema com ele? Como dissemos antes, Java é uma linguagem baseada em troca de mensagens. Uma mensagem é algo que o objeto recebe e decide o que fazer, no caso de Java isso acontece quando chamamos um método. Quem deve decidir o que deve ser feito não é o cliente e sim o destinatário da mensagem. Quando você diz setStatus(Status) você está dizendo para a classe que quer que os status dela seja o especificado. Pensa bem, é isso que você quer?

O que você quer em verdade é que o pedido seja finalizado. Como isso é feito, se muda status ou não, não é papel do código cliente, é papel do objeto (e deve ser documentado, especificado e verificado através de testes unitários).

Da mesma forma, quando você executa um getStatus() no objeto o que você faz com isso? Exceto em alguns casos específicos, um método getXxx() só deveria ser utilizado porque você precisa executar algo com ele que não vai envolver mudança de estado, como por exemplo exibir numa interface gráfica. Se você faz um getXxx() porque baseado no retorno você chama uma lógica ou outra provavelmente você está fazendo algo errado, já que é uma violação gritante da Lei de Deméter.

O que eu deveria fazer, então? Suponha que eu tenha o seguinte código:

public void notificarMudancaEm(Pedido p){
 if(p.getStatus().equals(Pedido.Status.FINALIZADO){
     servicoEmail.enviamensagemConclusao(p);
 }
}

Isso parece bem razoável, não? A lógica de enviar um e-mail de conclusão não está no Pedido e sim em algum serviço próprio para isso. Ele provavelmente é um observador do pedido e cada vez que você chama setStatus() esta é notificado. Num caso real recente eu estava trabalhando numa aplicação legada com o código exatamente como o acima. De repente alguém decidiu que um Pedido também está finalizado se estiver em status CANCELADO.

Essa é a hora em que o programador xinga a mãe do analista de negócios e vai caçar um email de três meses atrás que contem uma documentação, assinada em sangue, que contraria isso. O gerente de projetos vê aquilo, dá um sorriso e manda um email para o cliente daquela consultoria de três letrinhas dizendo que é uma mudança de escopo e que vai precisar de 50 horas a mais para isso. Ele diz ao programador que na verdade só tem 5 horas porque as outras 45 ele vai usar como desculpa quando o projeto atrasar. De quem é a culpa?

Bom, de quem é a culpa é assunto para outro post mas eu te garanto que não é da Orientação a Objetos. O problema no código acima (e certamente este código está repetido em milhões de outros lugares) é que ele não cumpre o princípio básico de deixar o objeto ser responsável pela sua própria vida. Você precisa saber se o pedido está finalizado mas ao invés de perguntar isso ao objeto você pergunta qual seu status.

Imagine que ao invés do código acima você possuísse algo mais… OO:

public void notificarMudancaEm(Pedido p){
 if(p.isFinalizado()){
     servicoEmail.enviamensagemConclusao(p);
 }
}

E suponha que você tenha que alterar o que FINALIZADO significa. Qual é mais fácil?

É este tipo de coisa que você perde ao transformar objetos em atributos+funções. Ao invés de pensar “quais são os atributos deste objeto?” pense “quais mensagens este objeto responde?”.

Qi4j @ ThoughtWorks Community College

Thursday, April 3rd, 2008

Ontem tivemos mais um Community College na ThoughtWorks Melbourne, desta vez focamos no Qi4j.

É uma idéia interessante. Basicamente o qi4j (”quiforjêi”) usa micro-aspectos para modelar qualquer coisa. O problema é que a sintaxe atrapalha. Eles usam a Linguagem Java, com Language Adaptations e uma Factory mágica, provavelmente uma linguagem própria teria mais efeito.

J2EE Spider no InfoQ

Thursday, March 13th, 2008

Saiu no InfoQ uma matéria sobre o J2EE Spider, do Bruno Braga. Eu recebi um email do Bruno há algum tempo me convidando para fazer um review da nova versão da ferramenta, e dando ênfase no fato que não é um gerador abrace-o-mundo como vemos por aí.

Ainda não tive tempo de fazer o teste da ferramenta mas já deixo aqui os parabéns pela notoriedade.

Gerenciando Débitos

Sunday, February 17th, 2008

Todo projeto que já participei, dos meus pet-projects até os com equipes imensas, possuem algum nível de tech debt. Sempre a mesma história: não temos tempo para isso agora, na próxima oportunidade corrigimos.

O problema é que em muitos casos o acúmulo de coisas que deixamos pelo meio do caminho é prejudicial à saúde do projeto. Mais que preciosismo de nerds e perfeccionistas, tech debt pode –e geralmente vai- atrasar o andamento do time.

Nos projetos que eu gerencio eu gosto de alocar um orçamento para resolver estes problemas. Durante o planning game eu deixo claro que precisamos resolver problemas enquanto estamos implementando funcionalidades e geralmente aloco alguns pontos na iteração para eles, normalmente algo perto de 20% do trabalho. Normalmente eu aceito que estas histórias técnicas tenham prioridade baixa e no geral tudo ocorre bem.

Se temos uma emergência então eu costumo não ser muito flexível em relação à solução do problema. As histórias técnicas neste caso ganham prioridade máxima dentro da iteração.

Como geralmente o cliente está satisfeito com a velocidade da equipe num processo ágil (se não está temos outro problema) quando sobra –e quase sempre sobra- tempo extra numa iteração geralmente eu preencho com tech debt, e em especial deixo os desenvolvedores priorizarem o que querem fazer. Muitas vezes não dá tempo para fazer homologação destas mudanças durante a iteração vigente e elas acabam indo para produção apenas na iteração posterior, mas é uma boa estratégia.

O que importa é não deixar o tech debt acumular. Se você tem duvidas dos problemas que o acúmulo de histórias técnicas causam basta lembrar a última vez que você entrou em um projeto para dar manutenção em um sistema pré-existente. Eu nunca vi um caso onde o sistema antigo não tenha toneladas de problemas causados por “deixar para depois” mudanças que não eram urgentes mas foram crescendo em urgência com o tempo.

E claro que meu projeto atual não é diferente. Trata-se da conversão de boa parte de um sistema legado em Java para Ruby (não Rails, Ruby). Como todo projeto deste tipo o orçamento não contempla uma reescrita do sistema, apenas uma conversão. Isso quer dizer que se um módulo assovia e chupa cana em Java ele, teoricamente, vai assoviar e chupar cana em Ruby.

O bom de trabalhar em um time ágil é que não é porque no início do projeto não se pensou em melhorar as coisas que isso precisa ser verdade até o fim dele. Após a equipe (desenvolvedores, analistas de negócios e gerente de projetos) percebemos que alguns itens realmente estavam atrapalhando o andamento do projeto. Nossos dias estão cercados de tarefas repetitivas que existem apenas para contornar alguma “gambiarra” que o sistema original tinha e nós estamos reproduzindo de maneira burra. Levamos a questão aos clientes e fizemos entender que se gastarmos alguns pontos nestas tarefas em algumas iterações nossa velocidade irá aumentar, e muito.

Apos conseguirmos 25% dos pontos de uma iteração para histórias técnicas veio a questão: temos dezenas de problemas, o que faremos primeiro? Como é um time grande cada um tem seu ponto de vista sobre o que está errado e o que precisa melhorar, então fizemos da maneira ágil: disciplina e flexibilidade.

Marcamos uma reunião com o time e coletamos em cartões todos os problemas que conseguíssemos pensar. Os cartões foram pregados na parede, divididos entre coisas do dia-a-dia e coisas que realmente indicam a visão que o sistema deve tomar, aspectos arquiteturais.

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Depois cada um recebeu 5 votos para distribuir entre os cartões. Quase todas as histórias eram importantes então precisamos limitar o numero de votos para entender o que realmente é critico.

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Apos este exercício nós criamos um backlog paralelo para o produto, apenas com histórias técnicas. Este backlog foi estimado e baseado nele o time decide que história técnica entra nos 25% de pontos disponíveis.

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Uma das vantagens dessa abordagem já foi percebida. Nosso sistema é um fluxo de operações em sequência. Operações em sequência são uma ótima área para programação procedural e isso fez com que os desenvolvedores originais do sistema seguissem este paradigma.

Claro que quando se mistura uma linguagem orientada a Objetos com código procedural é necessária muita cautela, e a maioria das pessoas acha que para o código ser procedural basta usar atributos públicos nas suas classes. Existem muitas métricas para qualidade de código procedural (a maioria das métricas de código OO são evoluções ou adaptações destas, na verdade) e nosso código não seguia nenhuma.

Aproveitando o nosso orçamento para histórias técnicas nós introduzimos um sistemas de jobs, uma implementação do padrão Chain of Responsibility. Até agora 50% das funções já foram convertidas para o modelo novo e a cada iteração mais são convertidas.

O resultado das ultimas iterações mostra um aumento consistente de 10% na velocidade. Todos os envolvido creditam esta melhoria à mudança e ainda estimamos que quando todo o sistema for convertido para a nova arquitetura teremos por volta de 25% de aumento total.

Existem coisas simples que podem decidir se um projeto vai ser um sucesso ou fracasso. Não esconder sujeira debaixo do tapete é uma delas.

Você Pergunta: RAD

Thursday, January 24th, 2008

Uma pessoa me escreveu um email sobre o tópico anterior. Novamente não vou citar nomes porque não pedi permissão (e não tenho motivos para expôr esta):

Shoes, beleza cara?

Então, lendo sobre a discussão sobre o Maker eu cheguei no seu blog e li sobre RAD.
Aquela ferramenta no NetBeansLixo pra fazer GUIs é um RAD? Ele desenvolve parte de um software, eu sei, não é um modelo de processo de desenvolvimento, né??

Enfim, acredito que existam mais algumas por aí como Maker e queria saber da sua opinião: todas essas ferramentas são RADs e todas elas cometem gafes? Onde quero chegar é na pergunta: Hoje em dia, SEMPRE teremos um desenvolvedor por trás da solução?

É que eu sou totalmente contra essas ferramentas de gerar códigos automáticos… não confio muito nessas coisas… prefiro eu mesmo fazer os códigos, mas tenho a dúvida: estou muito antiquado (no sentido de muito atrasado e não acompanhando as tecnologias que estão evoluindo hoje) ou estou no caminho correto?

Bom, se você respondeu que sim na primeira pergunta (do NetBeans sobre GUIs), a principal desvantagem das ferramentas RAD (se é isso que aquele Lixo é) é a manutenção e evolução, certo? Uma vez, fazendo um trabalho pra faculdade, tive que usar aquele NetBeans. Quando fui usar Refactoring… nossa cara, que coisa mais chata… tive que refazer praticamente toda a interface gráfica.

Abraço.

Apesar de usar, eu odeio o termo RAD. Ele significa um grupo enorme de coisas e ao mesmo tempo não significa nada. O livro Software Development: Building Reliable Systems define RAD:

For the last ten years, many software projects have incorporated the use of “Rapid Application Development” methodologies in an effort to decrease development times. RAD, as it is generally referred to, incorporates an umbrella of methodologies based on spiral, iterative development technologies. RAD techniques range from the simple use of GUI development tools to quickly build prototypes, to processes incorporating complete, cross-functional business analysis. [...]

Então vou considerar que você quer dizer por RAD “ferramentas geradoras de código” do contrario este post nunca vai acabar. Sim, o Matisse do Netbeans é uma ferramenta geradora de código.

Ferramentas geradoras, em geral, são úteis quando não querem dominar o mundo. Eu adoro quando o Hibernate ou o Rails gera meu DDL SQL e eu não tenho que escrever CREATE TABLE. Eu adoro quando o Eclipse gera meus getters e setters e coisa do tipo. O problema é que esses geradores não costumam sobreviver num projeto de verdade.

O grande problema do gerador de código padrão, como o citado, é que ele possui diversos vazamentos de abstração. O Joel Spolsky fala especificamente sobre geradores:

The law of leaky abstractions means that whenever somebody comes up with a wizzy new code-generation tool that is supposed to make us all ever-so-efficient, you hear a lot of people saying “learn how to do it manually first, then use the wizzy tool to save time.” Code generation tools which pretend to abstract out something, like all abstractions, leak, and the only way to deal with the leaks competently is to learn about how the abstractions work and what they are abstracting. So the abstractions save us time working, but they don’t save us time learning.

Como pode-se perceber pelas discussões citadas o mercado destas ferramentas é… complicado. Um desenvolvedor que entende como a plataforma funciona (Java EE, no caso) dificilmente se encantaria pela ferramenta. Ele pode utilizar algo como um Spring IDE para gerar arquivos de configuração mas sabe que isso não é tão simples assim.

Os programadores mais recentes na plataforma Java podem não ter consciência disso mas uma ferramenta chamada xdoclet era muito usada quando sofríamos diariamente com EJBs 2.1. O que o xdoclet faz é gerar código, ele gerava todo o mapeamento do EJB (uns 3 arquivos XML diferentes, pelo menos) a partir de anotações JavaDoc (não existia Java 5 naquela época). O xdoclet era a salvação da lavoura, conseguia abstrair muitos problemas mas.. não era perfeito, nem pretendia.

Eu já trabalhei em projeto onde 50% do código era gerado pelo xdoclet e do restante ele não dava conta. A ferramenta não possui o tal do round-tripping então não dava para misturar código gerado com modificado. A solução foi optar por uma arquitetura que isolava as duas partes em módulos diferentes e só conseguimos chegar até ela porque –como disse o Joel- sabíamos como a ferramenta funcionada. Essa é uma ferramenta de automação, não de “geração automática de sistema”. Ela automatiza o trabalho que você teria, não te livra do fato de conhecer o que… bem… é sua profissão.

Acho que o Matisse se enquadra neste tipo.

O problema é que essas ferramentas –e seus persuasivos vendedores- dizem que irão abstrair todo o desenvolvimento. Para os cenários ideais elas podem fazer todo o prometido mas não houve até hoje uma ferramenta que conseguisse real sucesso fora dos casos mais simples e isso porque não é assim que construímos sistemas hoje. Nossos sistemas são uma salada de linguagens, conceitos, mapeamentos e configurações que uma ferramenta deste tipo não consegue acompanhar.

O que geralmente elas fazem é te prender à uma ou algumas arquiteturas genéricas que servem razoavelmente para alguns casos -geralmente sitezinhos CRUD de intranet- mas não para todos ou sequer para a maioria. Como arquitetura não é commodity não se pode simplesmente aplicar a mesma estrutura em todos os cenários.

Apos algum tempo em TI você começa a entender que o dia-a-dia desse mercado é um grande “mais do mesmo”. Você sempre está criando as mesmas coisas. Da última vez que contei eu já tinha criado uns sete gerenciadores de conteúdo web. Dá para utilizar a mesma arquitetura em todos? Não. Uns eram simples formulários, outros se integravam com back-ends complicados, outros era assíncronos, outros tinham integração com legado… cada um tinha uma história. Se há oito anos atrás eu comprasse uma ferramenta dessas e a tivesse aplicado nestes projetos eu teria que fazer personalização (i.e. sair do maravilhoso mundo do fluxograma) a cada projeto.

Mas eu estou falando de desenvolvimento de software de um tipo, não do mercado todo. Quando estive na faculdade pela última vez (antes da segunda fuga) estudei com uma pessoa de 43 anos que desde os anos 80 vive fazendo software em coisas como CLIPPER para lojinhas e boutiques. Ele não ganha mal. Pelo que entendo dos softwares deste tipo (já trabalhei neste ramo) a arquitetura é quase sempre a mesma. Talvez ele se favorecesse de algo assim nos seus negócios, apesar de que eu ainda acharia um risco desnecessário.

Então sim, hoje precisamos de desenvolvedores para projetar um sistema. Desenvolver sua arquitetura, seu design e verificar para que tudo seja eito da maneira mais adequada para o projeto (que nem sempre é a técnica mais adequada). Mas e o futuro?

O futuro prevê o uso de ferramentas de um nível mais alto, mas de maneira diferente. O ponto crucial é que essas ferramentas não são geradores de código Java (ou C#, ou Ruby ou o que for), elas mudam a visão sobre o código. Ferramentas como Domain-Specific Languages aumentam o nível da linguagem não tornando-a mais abstrata apenas mas sim levando para perto do negócio. Ferramentas de visualização criam pontos de vista diferenciado sobre o mesmo artefato, dependendo de com que olhos se enxerga.

Tudo indica que para desenvolver softwares no futuro o desenvolvedor não terá o mesmo papel que tem hoje. Ao invés de criar o código do sistema em si iremos criar as ferramentas que dão suporte à criação de sistemas pelos usuários.

Seja qual for o futuro ele não é sobre gerar código. Isso nós já fazemos à décadas e serve apenas como quebra-galho para nos livrar da complexidade que nós mesmo criamos.