Quando simplificamos demais ao ensinar conceitos acabamos criando problemas que demoram anos para se resolver, se é que são resolvidos. Um exemplo que eu observei hoje foi como algumas pessoas pensam sobre objetos.
É comum que seja ensinado no primeiro contato das pessoas com orientação a Objetos que objetos representam atributos e funções embaladas no mesmo saco. Bom, isso é uma simplificação extrema utilizada para fazer com que quem conheça programação procedural trabalhe com objetos de maneira mais simples, mas é uma simplificação tão grosseira que atrapalha algumas pessoas para o resto da vida.
Objetos não possuem propriedades + funções, eles possuem estado + comportamento. Você provavelmente vai usar atributos (i.e. variáveis de instancia) e funções (de instancia também) para implementar isso mas é um detalhe de implementação, não algo que deva ser exposto.
Um agravante deste problema são propriedades. Sejam propriedades bem resolvidas como as do C# ou meia-boca como do Java, elas representam apenas mais uma mensagem que o objeto recebe (já que ambas as linguagens são baseadas em troca de mensagens) e não “atributos” do objeto.
get/set em Java são herança de um modelo de componentes. Componentes não são necessariamente objetos, o que a (finada?) especificação JavaBeans fez foi utilizar classes Java para implementar componentes gráficos. Como não havia metadados (annotations em Java) naquela época o melhor era adotar uma convenção, daí os setXxx e getXxx da vida.
O problema é que este idioma saiu do controle. Ao invés de utilizarmos um método que faça sentido dentro do domínio preferimos criar um get/set burro, típico de arquiteturas BOLOVO.
Por exemplo, suponha que você possua uma classe Pedido que possui um status. Quando alguém vai atualizar o status do pedido para “finalizado” qual idioma é mais comum?
//1) set/get pedido.setStatus(Pedido.Status.FINALIZADO); //2) Mensagem pedido.finalizar();
Creio que você concorda comigo que o primeiro é de longe mais utilizado. Qual o problema com ele? Como dissemos antes, Java é uma linguagem baseada em troca de mensagens. Uma mensagem é algo que o objeto recebe e decide o que fazer, no caso de Java isso acontece quando chamamos um método. Quem deve decidir o que deve ser feito não é o cliente e sim o destinatário da mensagem. Quando você diz setStatus(Status) você está dizendo para a classe que quer que os status dela seja o especificado. Pensa bem, é isso que você quer?
O que você quer em verdade é que o pedido seja finalizado. Como isso é feito, se muda status ou não, não é papel do código cliente, é papel do objeto (e deve ser documentado, especificado e verificado através de testes unitários).
Da mesma forma, quando você executa um getStatus() no objeto o que você faz com isso? Exceto em alguns casos específicos, um método getXxx() só deveria ser utilizado porque você precisa executar algo com ele que não vai envolver mudança de estado, como por exemplo exibir numa interface gráfica. Se você faz um getXxx() porque baseado no retorno você chama uma lógica ou outra provavelmente você está fazendo algo errado, já que é uma violação gritante da Lei de Deméter.
O que eu deveria fazer, então? Suponha que eu tenha o seguinte código:
public void notificarMudancaEm(Pedido p){
if(p.getStatus().equals(Pedido.Status.FINALIZADO){
servicoEmail.enviamensagemConclusao(p);
}
}
Isso parece bem razoável, não? A lógica de enviar um e-mail de conclusão não está no Pedido e sim em algum serviço próprio para isso. Ele provavelmente é um observador do pedido e cada vez que você chama setStatus() esta é notificado. Num caso real recente eu estava trabalhando numa aplicação legada com o código exatamente como o acima. De repente alguém decidiu que um Pedido também está finalizado se estiver em status CANCELADO.
Essa é a hora em que o programador xinga a mãe do analista de negócios e vai caçar um email de três meses atrás que contem uma documentação, assinada em sangue, que contraria isso. O gerente de projetos vê aquilo, dá um sorriso e manda um email para o cliente daquela consultoria de três letrinhas dizendo que é uma mudança de escopo e que vai precisar de 50 horas a mais para isso. Ele diz ao programador que na verdade só tem 5 horas porque as outras 45 ele vai usar como desculpa quando o projeto atrasar. De quem é a culpa?
Bom, de quem é a culpa é assunto para outro post mas eu te garanto que não é da Orientação a Objetos. O problema no código acima (e certamente este código está repetido em milhões de outros lugares) é que ele não cumpre o princípio básico de deixar o objeto ser responsável pela sua própria vida. Você precisa saber se o pedido está finalizado mas ao invés de perguntar isso ao objeto você pergunta qual seu status.
Imagine que ao invés do código acima você possuísse algo mais… OO:
public void notificarMudancaEm(Pedido p){
if(p.isFinalizado()){
servicoEmail.enviamensagemConclusao(p);
}
}
E suponha que você tenha que alterar o que FINALIZADO significa. Qual é mais fácil?
É este tipo de coisa que você perde ao transformar objetos em atributos+funções. Ao invés de pensar “quais são os atributos deste objeto?” pense “quais mensagens este objeto responde?”.


