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Refletindo sobre Tendências

Friday, July 10th, 2009

Recentemente muita gente tem me procurado nos instant messengers da vida para perguntar sobre tendências. Existe uma idéia no Brasil de que quem está de for a “traz as novidades”. Isso podia ser verdade antes da Internet mas agora as coisas se espalham com tanta velocidade que em muitos aspectos o Brasil está muito na frente da Austrália.

Mas existe o outro lado que é o trabalho na ThoughtWorks. Os projetos que nós enfrentamos geralmente começam da mesma maneira que os que qualquer consultoria, de três letrinhas ou três pessoas, enfrenta. O diferencial que faz ser um lugar interessante para se trabalhar é o que acontece durante o projeto.

O que segue neste post é uma amarrado de impressões pessoais sobre os últimos doze meses, tanto sobre a Austrália quanto o que sei de outros escritórios. Se ele não for coeso ou fácil de ler eu peço desculpas mas encare como um braindump.

Os projetos para bancos e empresas do mercado financeiro em geral continuam bem parecidos. Em 2007 houve uma euforia em torno da bolha econômica e muitos projetos megalomaníacos –e, por conseqüência, extremamente interessantes do ponto de vista técnico- apareceram mas a crise os tirou do baralho nos tempos recentes. Os bancos estão gastando menos e buscando fazer mais dinheiro reutilizando a estrutura existente. A maioria dos projetos que eu tenho conhecimento dentro de bancos é para estender uma determinada oferta para novos clientes ou é para migrar de uma plataforma legada para algo menos dispendioso.

O interessante sobre o “legado dispendioso”, dentro e fora de bancos, é que muitas vezes ele se trata de coisinhas como WebSphere, Aqualogic, Biztalk, Tibco e produtos parecidos. Apos gastar rios de dinheiro implantando estes e não ver nenhum centavo de retorno real muitos dos grandes estão migrando para plataformas mais eficientes, quase sempre baseadas em software livre. Hoje em dia são comuns projetos de migração de Websphere para Jetty ou de BizTalk para serviços RESTful usando IIS, JSON e ASP.Net MVC, por exemplo.

Na parte de aplicações para Internet, onde geralmente eu me envolvo mais, as coisas também têm mudado bastante. Basicamente os projetos têm se dividido em startups e legado. As startups aparecem com um problema e algum montante de dinheiro. A plataforma mais utilizada para atender estes cenários é Ruby on Rails, geralmente fazendo deployment em algum serviço de Cloud Computing.

Cloud Computing é um tópico extremamente relevante tanto para ThoughtWorks quanto nos nossos clientes. Uma das coisas interessantes que fizemos no início do ano foi trabalhar junto com o Google no lançamento da AppEngine em Java (e outras linguagens).

As empresas com legado de Internet são sempre interessantes. Geralmente elas são algum grande prestador de serviço na área de mídia e possuem um ou mais websites antigos que têm aquela arquitetura manjada de rodar em um Weblogic ou Tomcat com um Apache de front-end. O problema é que hoje em dia o numero de usuários é muito superior e a velocidade com que funcionalidades têm que ser adicionadas e alteradas é muito maior. Após entender que os Googles e Facebooks da vida não usam Java EE e não pagam licença para a IBM as empresas estão desesperadas para atingir o mesmo nível de eficiência.

O que temos feito nesta área é utilizar a já citada Cloud Computing para realizar tarefas que não precisam ser executadas dentro do firewall (de crawling até rodar teste de carga), refatorar aplicações grandes para atingir escalabilidade horizontal e simplificar processos de deployment e gerenciamento de recursos.

Na área mais de programação em si as coisas não têm sido lá muito excitantes. As plataformas em específico não têm nenhuma novidade marcante mas a programação poliglota é uma realidade. Até hoje todos os projetos que tive alguma participação dentro da ThoughtWorks utilizavam mais de uma linguagem de programação (já descontando Bash e JavaScript).

Uma surpresa agradável foi a que tive no meu projeto atual, em que voltei a programar em .Net após 3 anos afastado. A maioria das coisas que eu realmente não gostava sobre C# e seu ecossistema foram removidos (exceto Windows e Visual Studio, duas peças que eu considero de qualidade inferior). A Microsoft continua enfiando frameworks e ferramentas terríveis pela guela dos seus clientes (MSBuild? TFS? WCF? WTF?!?) mas no geral as coisas estão bem melhores.

Em termos de livros sobre programação eu tenho me focado quase que exclusivamente nos conceitos presentes em linguagens e paradigmas de programação. Esta é a lista de livros relacionados que eu li desde que cheguei aqui:



Esta é a fila dos que faltam:


(fora os que ainda estão no meu carrinho de compras na Amazon. Livro na Austrália é ridiculamente caro)

Na parte de gerenciamento de projetos e metodologias as coisas estão engraçadas. Tem horas que a euforia anima, tem hora que dá náusea. Eu acho que o Bellware resumiu muito bem:

early agile adopters were looking for a way to do things better. later adopters are just trying to do agile, thus the failures

Eu vim para a ThoughtWorks para ver como é que quem introduz métodos ágeis há anos trabalha. Nos últimos meses eu trabalhei com pessoas que fazem isto há mais de dez anos e em empresas que adotaram agile antes de eu saber que ele existia. O que eu aprendi neste período inicial é exatamente o descrito acima: quando seu objetivo é ser ágil você falha, quando seu objetivo é sempre melhorar você tem chances de sucesso.

Todos os projetos que participei foram bem sucedidos? Depende de para quem você pergunta. Mesmo os clientes mais difíceis que tive acabaram ficando satisfeitos no final mas muitos projetos que participei (e o número de projetos é bem maior que o número de clientes) foram executados de uma maneira que o time não ficou satisfeito. Eu acho que neste caso é perspectiva. Como a maioria dos projetos são um fracasso colossal basta ter algum nível de sucesso que o projeto vira referência. O time, em compensação, tem um critério de sucesso muito mais alto e não considera o projeto como bem-sucedido.

É claro que no fim das contas o que vale mais é a opinião do cliente –tanto porque o problema dele foi solucionado bem como porque é ele quem paga a conta no final- mas eu já vi diversos problemas decorrentes deste tipo de coisa. De builds que começaram em 10 minutos e terminaram em duas horas de duração até um time que perde 50% do seu tempo corrigindo defeitos por falta de uma suíte de testes decente. Os problemas podem não ser grandes para aquele projeto em específico mas não prestar atenção há eles é mortal em médio prazo.

Minha conclusão é que a indústria está num estado melhor do que há alguns anos atrás. Tecnicamente estamos entrando em uma espécie de renascimento e isso promete render muito material para posts aqui. Em termos de gerencia de projetos e processos as pessoas estão finalmente se convencendo que tudo tem limite, até ineficiência.

Mingle Day - Rio e São Paulo

Tuesday, June 23rd, 2009

Como este blog já anunciou este ano será cheio de eventos da ThoughtWorks no Brasil.

Uma coisa a se notar sobre a ThoughtWorks é que somos uma empresa de consultoria mas com uma divisão de produtos. Como a eventual vinda da ThoughtWorks para o Brasil significa a vinda das duas partes é bom que também apresentemos ao mercado brasileiro os softwares que produzimos.

O software mais popular da suite é o Mingle, um sistema de gerenciamento de projetos com muitas características interessantes. Ele foi construído baseado na experiência da empresa prestando consultoria, entende bem que cada processo é diferente e que modelos engessados não funcionam bem. Também possui uma interface rica que aliada com alguns recursos de hardware se torna uma ferramenta extremamente útil quando um Kanban eletrônico é necessário. Por fim é provavelmente o mais famoso caso de uso do JRuby on Rails -o Mingle usa componentes escritos em Java aliados aos recursos do Rails.

Se você quer conhecer mais sobre o produto tem duas oportunidades. Abaixo os convites.

Rio de Janeiro

Hi,

ThoughtWorks is sponsoring Agile Brazil 2009, the first major conference on Agile methodologies to be held in Rio de Janeiro, Brazil. In this extensive, one-day event, various practitioners and speakers will conduct sessions on a range of well-known Agile methodologies and practices such as Lean, Scrum, XP, User Stories, Continuous Integration, Release management and Test Driven Development.

Date and Venue:
June 27, 2009, 8:30am - 6:00pm.
Salao A (Padre Anchieta hall)
PUC-Rio, Gavea, Rio de Janeiro, Brazil.
Registration Information
Registration: R$ 200,00.
Register for Agile Brazil 2009

Mingle User Group Meeting in Rio de Janeiro

We have organized a free follow-on event for agile enthusiasts. We invite you to the Rio Mingle User Group (MUG) Meeting, an exclusive meet for Mingle users in Brazil, to discuss and share their experience with Mingle. Adam Monago, our product expert along with other Agile experts will take you through Mingle and its features and provide you tips and tricks on how to better use Mingle for project management and collaboration. After the talk you can interact with the attendees over food and drinks.

Date: 1- July-2009
Time: 17:30 - 19:00
Venue: PUC-Rio, Rua Marques de Sao Vicente 225 - Predio Padre Leonel Franca - 13 andar - Gavea, Rio de Janeiro, Brazil

To confirm your participation for the Mingle User Group, simply reply to this email: Studios-Brazil@thoughtworks.com?

Regards,
ThoughtWorks Studios
Studios-Brazil@thoughtworks.com

São Paulo

A Aspercom e a ThoughtWorks convidam você para o Encontro Agile / Mingle User Group Meeting. Este será um evento gratuito em São Paulo com mini-palestras, discussões e muito bate-papo.

Data: 30 de junho de 2009 às 19:00hs / Local: Av. Paulista

Facilitadores:
Paulo Caroli, Adam Monago (ThoughtWorks)
Rodrigo Yoshima, José Paulo Papo

Mingle User Group Meeting

O encontro do Mingle User Group (MUG) do Brasil é uma oportunidade para conhecer, discutir e compartilhar experiências com o Mingle. Adam Monago, um especialista no produto juntamente com outros Agilistas experientes, demonstrarão o Mingle provendo dicas e truques em como usar o produto para gerenciamento de projetos e colaboração.

Local, agenda, inscrições e outras informações acesse: http://blog.aspercom.com.br/2009/06/22/evento-agile-mingle/

Rodrigo Yoshima
ASPERCOM

Paulo Caroli
ThoughtWorks

Australian Architecture Forum 2008

Thursday, May 1st, 2008

Falando em coisas agitadas, fui convidado para palestrar no Australian Architecture Forum 2008. O título é “Lightweight SOA Through Web Widgets” e falar de SOA com REST num evento onde vai estar presente o impagável Jim Webber é algo bem diferente.

Como meu Google Analytics diz que ese blog é acessado por pessoas aqui na Austrália fica o convite.

Labirinto

Thursday, March 27th, 2008

A quantidade de dados disponível na Internet é algo interessante e quando temos a ferramenta certa algumas realidades são tão claras que chegam a ser constrangedoras. Para mim a rede social mais relevante hoje é o Linkedin. Apesar de haverem centenas de desesperados para arrumar um emprego e ganhar recomendações sem merecer é m sistema bem feitinho e de uma empresa que parece ter o pé no chão: nada de criar o novo Facebook, foco foco foco!

Bem, dia desses eu vi que eles lançaram páginas das empresas. Além de uma interação redondinha com a BusinessWeek o perfil da empresa possui diversos dados extraídos dos perfis dos seus funcionários e, como a experiência de trabalhar com alto volume de dados e acessos me mostrou, isso não é nada fácil.

Mas aí vem a parte engraçada. Pegue a página de uma empresa de três letrinhas qualquer. Veja o box “Related Companies” e perceba a quantidade de empresas de três letrinhas dos dois lados (antes de entrar na empresa, depois de sair). Agora clique em uma empresa de três letrinhas da lista. Tente achar uma delas que não tenha uma empresa de três letrinhas como “after”.

É óbvio que isso não é nenhum dado científico mas mostra a realidade que quem trabalha nessas empresas vive -falo isso de conhecimento próprio. A coisa mais comum para o desenvolvedor de sistemas no Brasil é viver entre consultorias, você fica um pouco em uma, recebe uma proposta melhor, vai para outra, tira um certificado, volta pra anterior, quer ganhar mais, muda de novo. Sair deste ciclo não é fácil, exige sorte e/ou muita vontade. Não é fácil arrumar um bom lugar para se trabalhar e ainda ganhar a mesma coisa, mas existe. Na verdade eu percebo que tirando poucas exceções a maioria das pessoas com nível técnico bom que eu conheço ou não estão mais neste ciclo ou estão saindo dele.

Existe uma onda de pessoas que estão indo trabalhar com produtos, fazer consultoria por conta própria ou abrir sua própria startup. Isso é ótimo, quebra o paradigma infeliz de que para um técnico ter uma carreira de sucesso e;e deve sair da área.

Aqui em Melbourne -e imagino que na Australia toda- existe um saudável mercado de pequenas consultorias. São empresas pequenas, de umas dez pessoas, que conseguem competir nesse mercado tão cheio de absurdos. Infelizmente no Brasil isso é meio impossível -e dá para entender o Viícius-, as consultorias ganham contratos na base do… bom, vocês são brasileiros e sabem do que eu estou falando. Aqui existem as grandes também, Melbourne é um centro mundial, mas ainda que as pequenas estejam longe das contas megalomaníacas elas conseguem se virar com empresas que precisam de resultado de verdade, e não apenas encher uma sala de gente que finge que desenvolve.

Afinal, quantas permutações você consegue fazer com três letrinhas?

Você Pergunta: RAD

Thursday, January 24th, 2008

Uma pessoa me escreveu um email sobre o tópico anterior. Novamente não vou citar nomes porque não pedi permissão (e não tenho motivos para expôr esta):

Shoes, beleza cara?

Então, lendo sobre a discussão sobre o Maker eu cheguei no seu blog e li sobre RAD.
Aquela ferramenta no NetBeansLixo pra fazer GUIs é um RAD? Ele desenvolve parte de um software, eu sei, não é um modelo de processo de desenvolvimento, né??

Enfim, acredito que existam mais algumas por aí como Maker e queria saber da sua opinião: todas essas ferramentas são RADs e todas elas cometem gafes? Onde quero chegar é na pergunta: Hoje em dia, SEMPRE teremos um desenvolvedor por trás da solução?

É que eu sou totalmente contra essas ferramentas de gerar códigos automáticos… não confio muito nessas coisas… prefiro eu mesmo fazer os códigos, mas tenho a dúvida: estou muito antiquado (no sentido de muito atrasado e não acompanhando as tecnologias que estão evoluindo hoje) ou estou no caminho correto?

Bom, se você respondeu que sim na primeira pergunta (do NetBeans sobre GUIs), a principal desvantagem das ferramentas RAD (se é isso que aquele Lixo é) é a manutenção e evolução, certo? Uma vez, fazendo um trabalho pra faculdade, tive que usar aquele NetBeans. Quando fui usar Refactoring… nossa cara, que coisa mais chata… tive que refazer praticamente toda a interface gráfica.

Abraço.

Apesar de usar, eu odeio o termo RAD. Ele significa um grupo enorme de coisas e ao mesmo tempo não significa nada. O livro Software Development: Building Reliable Systems define RAD:

For the last ten years, many software projects have incorporated the use of “Rapid Application Development” methodologies in an effort to decrease development times. RAD, as it is generally referred to, incorporates an umbrella of methodologies based on spiral, iterative development technologies. RAD techniques range from the simple use of GUI development tools to quickly build prototypes, to processes incorporating complete, cross-functional business analysis. [...]

Então vou considerar que você quer dizer por RAD “ferramentas geradoras de código” do contrario este post nunca vai acabar. Sim, o Matisse do Netbeans é uma ferramenta geradora de código.

Ferramentas geradoras, em geral, são úteis quando não querem dominar o mundo. Eu adoro quando o Hibernate ou o Rails gera meu DDL SQL e eu não tenho que escrever CREATE TABLE. Eu adoro quando o Eclipse gera meus getters e setters e coisa do tipo. O problema é que esses geradores não costumam sobreviver num projeto de verdade.

O grande problema do gerador de código padrão, como o citado, é que ele possui diversos vazamentos de abstração. O Joel Spolsky fala especificamente sobre geradores:

The law of leaky abstractions means that whenever somebody comes up with a wizzy new code-generation tool that is supposed to make us all ever-so-efficient, you hear a lot of people saying “learn how to do it manually first, then use the wizzy tool to save time.” Code generation tools which pretend to abstract out something, like all abstractions, leak, and the only way to deal with the leaks competently is to learn about how the abstractions work and what they are abstracting. So the abstractions save us time working, but they don’t save us time learning.

Como pode-se perceber pelas discussões citadas o mercado destas ferramentas é… complicado. Um desenvolvedor que entende como a plataforma funciona (Java EE, no caso) dificilmente se encantaria pela ferramenta. Ele pode utilizar algo como um Spring IDE para gerar arquivos de configuração mas sabe que isso não é tão simples assim.

Os programadores mais recentes na plataforma Java podem não ter consciência disso mas uma ferramenta chamada xdoclet era muito usada quando sofríamos diariamente com EJBs 2.1. O que o xdoclet faz é gerar código, ele gerava todo o mapeamento do EJB (uns 3 arquivos XML diferentes, pelo menos) a partir de anotações JavaDoc (não existia Java 5 naquela época). O xdoclet era a salvação da lavoura, conseguia abstrair muitos problemas mas.. não era perfeito, nem pretendia.

Eu já trabalhei em projeto onde 50% do código era gerado pelo xdoclet e do restante ele não dava conta. A ferramenta não possui o tal do round-tripping então não dava para misturar código gerado com modificado. A solução foi optar por uma arquitetura que isolava as duas partes em módulos diferentes e só conseguimos chegar até ela porque –como disse o Joel- sabíamos como a ferramenta funcionada. Essa é uma ferramenta de automação, não de “geração automática de sistema”. Ela automatiza o trabalho que você teria, não te livra do fato de conhecer o que… bem… é sua profissão.

Acho que o Matisse se enquadra neste tipo.

O problema é que essas ferramentas –e seus persuasivos vendedores- dizem que irão abstrair todo o desenvolvimento. Para os cenários ideais elas podem fazer todo o prometido mas não houve até hoje uma ferramenta que conseguisse real sucesso fora dos casos mais simples e isso porque não é assim que construímos sistemas hoje. Nossos sistemas são uma salada de linguagens, conceitos, mapeamentos e configurações que uma ferramenta deste tipo não consegue acompanhar.

O que geralmente elas fazem é te prender à uma ou algumas arquiteturas genéricas que servem razoavelmente para alguns casos -geralmente sitezinhos CRUD de intranet- mas não para todos ou sequer para a maioria. Como arquitetura não é commodity não se pode simplesmente aplicar a mesma estrutura em todos os cenários.

Apos algum tempo em TI você começa a entender que o dia-a-dia desse mercado é um grande “mais do mesmo”. Você sempre está criando as mesmas coisas. Da última vez que contei eu já tinha criado uns sete gerenciadores de conteúdo web. Dá para utilizar a mesma arquitetura em todos? Não. Uns eram simples formulários, outros se integravam com back-ends complicados, outros era assíncronos, outros tinham integração com legado… cada um tinha uma história. Se há oito anos atrás eu comprasse uma ferramenta dessas e a tivesse aplicado nestes projetos eu teria que fazer personalização (i.e. sair do maravilhoso mundo do fluxograma) a cada projeto.

Mas eu estou falando de desenvolvimento de software de um tipo, não do mercado todo. Quando estive na faculdade pela última vez (antes da segunda fuga) estudei com uma pessoa de 43 anos que desde os anos 80 vive fazendo software em coisas como CLIPPER para lojinhas e boutiques. Ele não ganha mal. Pelo que entendo dos softwares deste tipo (já trabalhei neste ramo) a arquitetura é quase sempre a mesma. Talvez ele se favorecesse de algo assim nos seus negócios, apesar de que eu ainda acharia um risco desnecessário.

Então sim, hoje precisamos de desenvolvedores para projetar um sistema. Desenvolver sua arquitetura, seu design e verificar para que tudo seja eito da maneira mais adequada para o projeto (que nem sempre é a técnica mais adequada). Mas e o futuro?

O futuro prevê o uso de ferramentas de um nível mais alto, mas de maneira diferente. O ponto crucial é que essas ferramentas não são geradores de código Java (ou C#, ou Ruby ou o que for), elas mudam a visão sobre o código. Ferramentas como Domain-Specific Languages aumentam o nível da linguagem não tornando-a mais abstrata apenas mas sim levando para perto do negócio. Ferramentas de visualização criam pontos de vista diferenciado sobre o mesmo artefato, dependendo de com que olhos se enxerga.

Tudo indica que para desenvolver softwares no futuro o desenvolvedor não terá o mesmo papel que tem hoje. Ao invés de criar o código do sistema em si iremos criar as ferramentas que dão suporte à criação de sistemas pelos usuários.

Seja qual for o futuro ele não é sobre gerar código. Isso nós já fazemos à décadas e serve apenas como quebra-galho para nos livrar da complexidade que nós mesmo criamos.

Programação RADioativa

Sunday, January 20th, 2008

Há alguns anos, quando era consultor independente, eu fui chamado por uma empresa bem grandinha do ramo de telefonia. Eles tinham produtos em C++ e queriam migrar para o Java. Na verdade já haviam migrado, mas estavam com problemas.

A primeira tentativa deles foi transferir toda a parte gerencial do sistema -que era vendido por alguns milhões de Euros- para Java. Para fazer esta etapa eles haviam contratado há um ano uma consultoria especializada canadense. Os canadenses sugeriram a compra de uma ferramenta RAD -por um acaso de outra empresa canadense- que permitiria que os desenvolvedores C++ criassem a aplicação em pouco tempo. Em três meses, tempo recorde, a aplicação já estava rodando no cliente, em produção. Durante os testes eles verificaram que a coisa era muito lenta mas como o mercado de telefonia tem muito dinheiro eles simplesmente aumentaram o número de máquinas.

A coisa foi passando até que alguém foi fazer a primeira manutenção. O sistema era um grande catálogo de assinantes, dependentes e registros de ligação, as regras pesadas mesmo ficavam no sistema em C++. As primeiras manutenções foram correção de bugs. A ferramenta funcionava dentro do Eclipse, você definia um modelo de entidades parecido com o modelo relacional, depois dizia quais operações precisava (criar, ler, listar, etc.), isso gerava o código. Se você precisasse de uma regrinha de negócio diferente, digamos que cada vez que um novo cliente fosse adicionado alguém recebesse um email, ia ter que alterar o código gerado. Como a aplicação -como todas- tinha suas peculiaridades muito código era escrito a mão. Mesmo assim o ato de criar toda a infra-estrutura (o scaffolding) poupava muito tempo.

Qual não foi a surpresa quando alguém reparou que a ferramenta só gerava código, ela não o lia de volta? Se você alterar o código e fizer alguma alteração o fornecedor deu duas escolhas:

  1. Alterar o código usando a ferramenta gráfica, regerar o código e depois adicionar novamente nossas alterações
  2. Abandonar a ferramenta e fazer tudo no código

Neste ponto que eu fui chamado. O fornecedor sugeria fortemente a segunda opção, por incrível que pareça. Eu concordei com eles, recomendei ao cliente que assumisse o prejuízo de ter escolhido uma ferramenta ruim e refatorasse o sistema enquanto inseria novas funcionalidades.

O mundo adora ferramentas RAD. Elas provocam a ilusão de que você não precisa de conhecimento ou de um profissional para criar programas. Não é assim que a banda toca.

Essas ferramentas surgem todos os anos. Todos se dizem revolucionários, quase nenhum diz que é um gerador de código, e todos dizem que servem para 87% dos casos. Puro marketing.

Geradores deste tipo existem há décadas. É até engraçado que o mais novo representante desta leva se gabe de ‘revolucionar’ usando o conceito de programação visual por fluxograma. Ahm? Isso existe praticamente desde que surgiram IDEs gráficas. Qualquer coisa que gere código via UML vai ter um fluxograma. A diferença é que não vai ter só fluxogramas, exatamente porque essas coisas foram abandonadas.

Na UML utilizamos o diagrama de atividades para um fim muito específico: representar transição entre estados dos objetos. É um dos diagramas mais raramente utilizados em um projeto OO simplesmente porque ele é procedural demais. Um sistema OO foca na interação entre objetos, não em algoritmos em si -que estão encapsulados dentro dos objetos.

Ao utilizar um fluxograma como unidade principal do seu sistema você está abandonando a OO. Isso pode ser uma coisa boa, depende do caso. para sistemas genéricos décadas de pesquisa da indústria apontam que Orientação a Objetos traz os melhores resultados na modelagem de negócios. Para um caso específico (BPM por exemplo), fluxogramas podem ser melhor. Estas ferramentas vendem trinta anos de retrocesso em modelagem.

Ainda assim, elas oferecem um bom scaffolding, não? Você não precisa saber nada sobre arquitetura, basta gerar o código na ferramenta! Bem, não exatamente. A maioria destas ferramentas vai seguir o exemplo acima: possuem poucos pontos de extensão e quando possuem não conseguem se integrar a eles. A primeira pergunta a fazer para um fornecedor desses é se a ferramenta suporta round-tripping. Round-tripping é o ato de gerar o código na ferramenta, editar o código e a ferramenta ser capaz de lidar com o código alterado. Quase nenhum RAD possui esta característica.

Outro problema é a arquitetura. Eu tenho certeza que uma arquitetura web simples pode ser utilizada por 87% dos casos mas tenho mais certeza ainda que cada um destes casos vai evoluir de uma maneira diferente. A arquitetura tem que ser flexível o suficiente para permitir todas estas formas de evolução. Obviamente que nenhuma destas ferramentas oferece nada parecido. Nós já vimos antes sobre o problema de se estabelecer uma arquitetura única para tudo, o problema com estas ferramentas é muito pior. Quando se define uma única arquitetura para todos os sistemas de uma empresa é ruim mas o que estas empresas estão vendendo é uma arquitetura única que funcionaria em diversos tipos de aplicações de diversos domínios sem sequer saber as necessidades delas antes.

Infelizmente em busca do cálice sagrado as empresas e -pior ainda- governos vão continuar gastando dinheiro nestes engodos. Eles prometem inovação mas fazem retrocesso de três décadas no tempo. Como conseguem montar um CRUD em 30 minutos são vendidos como a última bolacha do pacote, e lá vão os gerentes desinformados comprar estas coisas.

Se você está procurando este tipo de ferramenta esqueça qualquer um desses produtos ‘revolucionários’. Para começar entenda que a Ciência da Computação ainda não tem uma resposta definitiva para você. Sinto muito, estamos trabalhando nisso (é uma das partes da minha pesquisa). O campo mais avançado nesta área chama-se MDA. Eu não acredito em MDA mas isso não me faria negar que ela é a proposta mais plausível para este tipo de ferramenta atualmente. MDA possui implementações livres e proprietárias, é um padrão do OMG, utiliza UML, é baseado em um conceito de transformação de modelos e não de geração de código, é extremamente extensível e pode ter as características de produtividade dessas ferramentinhas de garagem. Só não baseie sua estratégia nele.

Os problemas de MDA: (1)ele eleva o nível de abstração mas não gera programação intencional e (2)ele usa uma ferramenta que não foi criada para isso, UML. São problemas muito menores do que os que você vai enfrentar com estes softwares ‘revolucionáros’ de ‘programação por fluxograma’.

Não caia no conto do vigário.

Second Life

Monday, November 5th, 2007

O G1 acabou com seu blog no Second Life. Ninguém liga mais para Second Life. Uma das coisas mais engraçadas sobre estes “novos” conceitos de Internet é ver um bando de gente das mais variadas áreas falando sobre os temas sem entender quase nada do assunto.

O que move a Internet desde sempre são as possibilidades derivadas do aspecto técnico. O curioso é que o programador não está pronto para lidar com isso, ele passou anos, décadas aprendendo a somente pegar as regras de negócio de alguém e transformá-las em código, quando temos um ambiente como a Internet onde quem sabe mais sobre o negócio é o programador ele simplesmente trava.

Enquanto você não colocar um arquiteto de informação lado a lado com um desenvolvedor você não vai ter nada que preste. É óbvio para alguém que entenda minimamente do que é feita a Internet que o Second Life não ia dar em nada simplesmente porque é uma plataforma de software muito pobre. Não falo dos recursos 3D mas sim da forma de distribuição.

“Não tem ninguém lá”, as pessoas reclamam. É óbvio que não vai ter, quem vai querer fazer o download, criar uma continha, um avatar e ter que abrir aquele programa enorme e lento toda hora para conversar com as pessoas? Pergunte a qualquer programador experiente e ele vai ter dizer que esse problema já matou diversas outras boas iniciativas, se você está querendo introduzir algo novo não obrigue as pessoas a usar algo só para isso.

É só olhar a história dos Instant Messengers. O ICQ é muito melhor que qualquer alternativa (eu acho que já usei todos) exceto o Jabber (que é um protocolo aberto e padronizado, outro nível) mas ainda assim não deu em nada. Quando o conceito de instant messaging ficou popular não foi através dele, foi com MSN, Yahoo! Messenger e agora o Google Talk. Instalar o ICQ e utilizá-lo numa conexão de 33kpbs era uma droga e quando a conexão ficou aceitável a Mirabilis já era passado.

Fale sobre FTP, Gopher,Finger ou qualquer outra coisa que não seja HTML entregue via HTTP que a maioria dos “profissionais de internet” não vai sequer entender. Fazendo uma versão do famoso bordão da comunidade Lisp: Aqueles que não conhecem de verdade a Internet estão fadados a repetir os erros que já foram cometidos.

Arquiteturas Simples Duram Mais

Wednesday, October 24th, 2007

Um amigo outro dia me perguntou que tipo de arquitetura eu usaria num caso bem peculiar. Basicamente ele foi encarregado de definir a arquitetura corporativa de um grande banco, ou seja: definir hoje a forma como aplicações serão construídas pelas próximas décadas. Basicamente ele vai se ro cara que vai ser xingado por algumas centenas de programadores nos próximos tempos, não importa que arquitetura escolha.

Há poucos dias atrás falamos aqui sobre arquiteturas de referência e seu efeito danoso. Geralmente quando alguém tem à frente um desafio desse ele logo pensa em um modelinho que mostra obriga o uso de uma meia dúzia de frameworks e padrões (clássico moderno: Struts/JSF e JPA, clássico vintage: Struts 1.1 e EJB/DAO). Para melhorar ainda é incorporado um conjunto de classes “utilitárias” feitas com práticas que talvez tenham servido para um projetinho piloto mas hoje em dia só atrapalham.

Ainda assim uma arquitetura corporativa é algo interessante. Quando empresas grandes não possuem uma macro-arquitetura acabam crescendo de maneira desordenada e criando dezenas de aplicações redundantes e gambiarras de integração entre sistemas. Note no entanto que uma arquitetura corporativa não é uma arquitetura de referência, a arquitetura corporativa não fala sobre como implementar aplicações mas sim provê guias sobre como integrá-las, define as relações previstas em no ecossistema que é uma grande empresa.

Quais são as melhores macro-arquiteturas que você conhece? Eu consigo pensar em algumas: Apache, UNIX, World Wide Web… Nestes ecossistemas aplicações novas surgem, são alteradas e morrem todos os dias há décadas, um sistema criado com a tecnologia mais recente de 2007 vai rodar tranqüilamente neste ambiente. Por quê?

Porque estas arquiteturas se baseiam em primitivas e contratos, não em especificações rígidas. Criar um módulo para o Apache , um programa para rodar em UNIX ou uma site é basicamente criar um programa de computador em uma das plataformas suportadas que obedeça a um contrato.

Uma boa arquitetura corporativa vai definir algumas políticas e contratos para a aplicação se relacionar com o meio-ambiente e só isso. No caso do banco, poderíamos definir que uma aplicação deve disponibilizar via uma interface POX/REST seus WebServices, que ela deve utilizar a API do Mogile FS para guardar dados em disco, que cache deve ser feito utilizando a API do memcached.

E se o arquiteto quiser sair do padrão? Ótimo, saia, mas ele deve oferecer compatibilidade com o ambiente.

E se eu já tiver comprado um sistema que faz WebServices via SOAP? Eu preciso criar um meio de disponibilizar estes serviços via POX/REST também. Pode ser uma adaptador simples, um ESB, o que quer que seja. É como quando você compra um equipamento eletrônico com tomada americana, você não vai mudar uma tomada na sua casa para o padrão exótico, vai é comprar o adaptador necessário para plugar ele nas tomadas do seu ambiente.

Mas e se não precisarmos de filesystem distribuído? E se já estivermos utilizando uma solução de cache que faz mais sentido nesta aplicação?

Ótimo, use. O uso de filesystem X, cache Y, banco de dados Z deve ser um guia. Toda vez que alguém precisar de uma solução de cache, filesystem, etc. ele olha o guia da empresa, se não servir ele usa algo que sirva. O que importa é que o uso fique encapsulado no sistema. Imagine que ao invés do Oracle 10g eu resolva usar um MySQL na minha aplicação. Está ótimo mas eu devo manter essa peculiaridade interna à minha aplicação. Os outros sistemas que vierem a se comunicar com o meu não devem precisar saber sobre a existência deste banco, eu não posso usar este banco para comunicação entre aplicações (o que já é uma coisa péssima para se fazer de qualquer forma).

O que importa é:

  1. O arquiteto tem liberdade para resolver seu problema da maneira mais adequada
  2. O novo sistema é compatível com o meio-ambiente

Para ser um bom arquiteto não é necessário ter tanta experiência assim, basta saber olhar os casos de sucesso e aproveitar o que funciona. Geralmente as técnicas utilizadas nestas arquiteturas são também catalogadas como Padrões Arquiteturais em livros. Um bom arquiteto tem que ser um ávido leitor de livros e de código.

Conexão Java 2007

Tuesday, October 23rd, 2007

Mais um ano vai, outro ano vem e o Conexão Java está aí. Este é certamente o evento mais descolado da comunidade Java do Brasil.

O CJ é um grande encontro entre as pessoas que participam em fóruns como o GUJ, o PortalJava e o RioJUG. O foco do evento são os mini-cursos que agem na formação de novos profissionais. Bem, formação não exatamente, ninguém sai de um curso de meioa dúzia de horas especialista em nada mas é uma boa oportunidade de ter contato mão-na-massa com algumas tecnologias e técnicas.

Este ano a estrela do evento é ninguém menos que Carlos Villela. Radicado em Londres pela ThoughtWorks há… bem, há alguns anos… o cv vem falar de algo bem atual: o declínio dos arquitetos monoglotas.

Também teremos algo um pouco diferente. Possivelmente deve haver um repeteco da minha palestra sobre arquitetura do JustJava 2007 (infelizmente sem o Paulo que vai estar de férias) mas enquanto isso é confirmado ficamos com mais uma atração: Oficina do Arquiteto.

Essa é uma idéia meio maluca que acabamos de fechar, vai funcionar mais ou menos assim: alguém traz uma arquitetura -seja de um projeto existente, livre ou de uma empresa, ou desenhado na hora- e nós debatemos esta. Na conversa vão sobrar padrões arquiteturais, guidelines e uma boa dose de bate-papo sobre o que nós, arquitetos, estamos fazendo por aí. Se você já tiver alguma idéia me adiante por email para organizar melhor as coisas, eu vou preparar algumas arquiteturas clássicas para usarmos quando não houver nenhuma na roda. A idéia é bem simples: debate, informação e diversão.

Anotações sobre Language-Oriented Programming (LOP)

Friday, October 12th, 2007

Como alguns sabem eu tenho um blog em inglês onde o foco é na minha linha de pesquisa atual: Domain-Specific Languages e Language-Oriented Programming. Eu venho psotando sobre minhas experiências brincando com este “novo” paradigma e acabo de postar o rascunho de um primeiro artigo sobre o tema. Comentários são mais que bem-vindos.