Archive for the ‘programando’ Category

Singletons…

Wednesday, May 28th, 2008

Singleton Considered Stupid

Nem só de troca de mensagens vivem os objetos

Sunday, May 25th, 2008

Percebi que boa parte das dúvidas quanto ao meu post sobre como objetos não possuem atributos se deve ao fato das pessoas não terem geralmente um conhecimento real sobre o que é troca de mensagens.

Perfeitamente compreensível. Na maior parte dos livros e faculdades as pessoas aprendem que Orientação a Objetos é sobre como utilizar classes e sobre como as funções são chamadas de métodos. Por algum motivo esquecido nas areias do tempo decidiu-se que chamar o método em uma classe era passar uma mensagem e por isso algumas pessoas notoriamente pedantes usam este termo ao invés de dizer apenas “chama a função”.

Bem, os conceitos no parágrafo acima estão errados. Orientação a Objetos não é sobre classes e sim sobre…er… objetos. Você pode ter OO sem ter classes, como JavaScript e Io e pode ter também OO sem mensagens.

Troca de mensagens é um conceito utilizado em diversas áreas, não apenas Orientação a Objetos. Você pode ter um Sistema Operacional baseado neste conceito -como o MINIX por exemplo- ou criar uma arquitetura de computação distribuída como SOAP.

O que distingue a passagem de mensagens é o fato de que o recipiente da mensagem, seja um objeto, um serviço ou um processo, é quem decide o que é feito em decorrência de sua invocação.

Para tentar içar um pouco mais claro eu criei um meta-modelo bem bobinho em Java. Este representa um sistema Orientado a Objetos com classes e passagem de mensagens. O código abaixo mostra como declarar uma Classe calculadora e enviar uma mensagem dizendo para que esta multiplique números.

BlocoDeCodigo bloco = new BlocoDeCodigoImpl<Integer, Integer, Integer>(){
			public Integer executar(Integer a, Integer b){
				return a * b;
			}
		};

		Classe classeCalculadora = novaClasse("Calculadora");
		classeCalculadora.declaraMensagem("multiplique", bloco);

		Instancia calculadora = instanciar("Calculadora");

		assertEquals(8, calculadora.enviaMensagem("multiplique", 2, 4));

Note os passos realizados. Primeiro criamos um bloco de código, uma função. Depois dizemos ao sistema que existe uma classe chamada calculadora. Logo apos registramos o fato de que calculadora responde a uma mensagem executando o bloco que havíamos declarado.

Em termos de semântica, este código é mais ou menos equivalente a este:

public class Calculadora{
 public Integer multiplicar(Integer a, Integer b){
  return a * b;
}
}

Depois nós instanciamos a classe e passamos uma mensagem para ela, o que seria equivalente a:

Calculadora calc = new Calculadora();
calc.multiplicar(2,4);

As classes relevantes:

public class Ambiente {
	static Map<String, Classe> classesDeclaradas = new HashMap<String, Classe>();

	static Classe novaClasse(String nomeDaClasse) {
		ClasseImpl classe = new ClasseImpl(nomeDaClasse);
		classesDeclaradas.put(nomeDaClasse, classe);
		return classe;
	}

	static Instancia instanciar(String nomeDaClasse) {
		return new Instancia(classesDeclaradas.get(nomeDaClasse));
	}
}

public class ClasseImpl implements Classe {

	private final String nome;

	private Map<String, BlocoDeCodigo> mensagens = new HashMap<String, BlocoDeCodigo>();

	public ClasseImpl(String nome) {
		this.nome = nome;
	}

	public void declaraMensagem(String nomeDaMensagem, BlocoDeCodigo blocoASerExecutado) {
		mensagens.put(nomeDaMensagem, blocoASerExecutado);
	}

	public String nome() {
		return nome;
	}

	public boolean respondeA(String nomeDaMensagem) {
		return mensagens.containsKey(nomeDaMensagem);
	}

	public BlocoDeCodigo codigoParaMensagem(String nomeDaMensagem) {
		return mensagens.get(nomeDaMensagem);
	}

}

public class Instancia {
	private final Classe minhaClasse;

	public Instancia(Classe classe) {
		this.minhaClasse = classe;
	}

	public Object enviaMensagem(String mensagem, Object... args) {
		Object primeiro = args.length > 0 ? args[0] : null;
		Object segundo = args.length > 1 ? args[1] : null;

		return minhaClasse.codigoParaMensagem(mensagem).executar(primeiro,
				segundo);
	}

	public Classe classe() {
		return minhaClasse;
	}

}

Esse meta-modelo é baseado em troca de mensagens. A classe Calculadora não recebe código a ser executado ela apenas recebe o nome de uma mensagem e parâmetros. Imagine que eu registre o mesmo bloco de código para várias mensagens, ou que eu use recursos de AOP e intercepte a execução do bloco. Nada disso é relevante para quem invoca a mensagem, ele apenas a envia e o que acontece em decorrência disso é responsabilidade do receptor.

Como quase todas as linguagens atuam desta forma pode ser difícil entender o conceito já que nunca se viu nada diferente. Vamos então implementar outro meta-modelo que não usa troca de mensagens mas sim uma outra forma chamada Data-Directed.

Nesta forma de invocar operações em objetos –que, como a anterior não é específica de OO- quem decide qual função será aplicada é o ambiente de execução, o runtime. Quando você invoca uma operação o ambiente vai procurar dentre os métodos registrados qual é o aplicável para aquele objeto e vai executar o método nele. Common Lisp utiliza este recurso de maneira tão poderosa em suas Generic Functions que praticamente elimina a necessidade de coisas como proxies e AOP.

Nosso meta-modelo para Data-Directed é executado dessa forma:

BlocoDeCodigo bloco = new BlocoDeCodigoImpl<Integer, Integer, Integer>(){
			public Integer executar(Instancia instancia, Integer a, Integer b) {
				return a * b;
			}
		};

		Classe classeCalculadora = novaClasse("Calculadora");
		registrarMetodo("multiplique", classeCalculadora, bloco);

		Instancia calculadora = instanciar("Calculadora");

		assertEquals(8, executarMetodo("multiplique", calculadora, 2, 4));

Repare que agora o bloco de código recebe como seu primeiro argumento uma referência para a instancia a qual se aplica (se você já usou java.lang.Method sabe que isso não é incomum quando se desce ao nível de implementação de linguagem). Caso nosso exemplo fosse minimamente usável seria desta forma que o bloco obteria acesso ao objeto em si.

Logo depois criamos a classe como antes mas ao invés de registrar uma mensagem na classe nós registramos um método no ambiente, dizendo que o método se aplica àquela classe. A invocação em si é bem parecida com a anterior.

Na implementação a única classe mais interessante é o Ambiente, que agora é bem mais esperto:

public class Ambiente {
	static Map<String, Classe> classesDeclaradas = new HashMap<String, Classe>();
	static Map<String, Map<Classe, BlocoDeCodigo>> metodos = new HashMap<String, Map<Classe, BlocoDeCodigo>>();

	static Classe novaClasse(String nomeDaClasse) {
		ClasseImpl classe = new ClasseImpl(nomeDaClasse);
		classesDeclaradas.put(nomeDaClasse, classe);
		return classe;
	}

	static Instancia instanciar(String nomeDaClasse) {
		return new Instancia(classesDeclaradas.get(nomeDaClasse));
	}

	static void registrarMetodo(String nomeDoMetodo, Classe tipoEmQueSeAplica,
			BlocoDeCodigo bloco) {
		metodo(nomeDoMetodo).put(tipoEmQueSeAplica, bloco);
	}

	static Object executarMetodo(String nomeDoMetodo, Instancia instancia,
			Object... args) {
		Map<Classe, BlocoDeCodigo> tiposAceitaveis = metodo(nomeDoMetodo);
		if (!tiposAceitaveis.containsKey(instancia.classe()))
			throw new RuntimeException("Metodo inexistente");

		BlocoDeCodigo bloco = tiposAceitaveis.get(instancia.classe());

		Object primeiro = args.length > 0 ? args[0] : null;
		Object segundo = args.length > 1 ? args[1] : null;

		return bloco.executar(instancia, primeiro, segundo);
	}

	private static Map<Classe, BlocoDeCodigo> metodo(String nomeDoMetodo) {
		if (!metodos.containsKey(nomeDoMetodo))
			metodos.put(nomeDoMetodo, new HashMap<Classe, BlocoDeCodigo>());

		return metodos.get(nomeDoMetodo);
	}

}

Agora não apenas registra as classes mas também os métodos que são aplicáveis à cada classe e faz a invocação dos métodos em si.

Estes exemplos são bem educacionais, sem muita aplicação pratica, mas como já vimos em posts passados o fato de se usar message-passing ou Data-Directed ou properties, ou componentes ou qualquer outra coisa interfere no modo como devemos projetar nosso software. Existe uma vasta literatura sobre este tema mas ainda assim é uma das coisas mais desconhecidas pelo programador profissional.

Apresentação no Australian Architecture Forum 2008

Friday, May 16th, 2008

A apresentaçao em Melbourne acabou de terminar. Foi bem interessante e o evento em si está sendo uma experiência diferente. É algo mais como mesas redondas do que apresentações, mais sobre isso depois.

Aproveitando, agradecendo novemente ao Antônio Carlos pela liberação dos nomes e marcas, a apresentação ia ficar bem sem graça sem os screenshots :)

Sem Respostas Fáceis

Monday, April 7th, 2008

O Guilherme Chapiewski causou uma bela confusão com seu último post. Uma chuva de comentários debate: O Scrum Master deve ser técnico?

Eu já conversei com o Guilherme sobre isso algumas vezes e sei o que ele quis dizer, mas acho que colocou de uma forma meio confusa. Para mim o ponto é: o Scrum Master deve ser um gerente de projetos/facilitador/babá em tempo integral?

Após alguns anos nessa estrada dá para entender porque algumas pessoas se preocupam tanto em afastar o papel de gestor (seja Scrum Master of Universe ou qualquer outro termo que você preferir) do papel de técnico. Muitas vezes técnicos quando postos no papel de gestor não conseguem tirar a mão da graxa e isso atrapalha o andamento das coisas. Eu já tive gerentes de projeto que afundaram todo um release porque pegavam para si tarefas técnicas e não conseguiam exercer suas tarefas oficiais.

Isso acontece bastante mas não quer dizer que vá acontecer sempre, ou que não possa ser resolvido. Dizer que o gestor não pode exercer tarefas técnicas e ponto final é ignorar a característica empírica de um processo ágil.

Quem assume que isso é uma verdade absoluta está buscando respostas fáceis ao invés de tentar resolver o problema. Isso não é diferente em nada do cidadão que usa todos os templates, artefatos e papeis do RUP no seu projeto, ou daquele que acredita que um selo como CMMI ou MPS.BR traz qualidade.

Seguir à risca todos os documentos possíveis ou acreditar piamente que um selo traz qualidade é buscar respostas fáceis.

Desde outubro que eu não trabalho com Scrum. A ThoughtWorks não possui exatamente uma metodologia de trabalho, nós entendemos que agilidade é um processo empírico:

The empirical model of process control provides and exercises control through frequent inspection and adaptation for processes that are imperfectly defined and generate unpredictable and unrepeatable outputs.

Cada projeto é um projeto, cada time é um time e aplicar uma receita de bolo, seja ágil ou não, é ruim. No meu projeto atual temos um time de desenvolvedores do mesmo nível. O papel de gestor de projetos fica com o tech lead e isso basicamente quer dizer que ele é quem perde 1/2 do dia em reuniões e é quem pede cerveja para a retrospectiva de sexta-feira. No resto do tempo está na máquina dele com o Eclipse aberto.

A diferença é que ele atua como tech lead, não como desenvolvedor. Ele não pode se comprometer com uma tarefa grande, ou em programar em par. O que ele faz é (1) ter certeza que possui entendimento sobre o que está sendo feito e dar sua posição sobre isso e (2) servir como palavra final quando algum assunto técnico atinge um impasse.

Eu pedi demissão da Globo.com um pouco antes do projeto acabar. Alem de atuar como Scrum Master e líder técnico da equipe eu ainda tinha que resolver algumas milhares de coisas relacionadas à minha viagem. Mesmo assim eu não abdiquei da minha responsabilidade de líder técnico. Eu desenhei com o Guilherme os WebServices que utilizávamos e não só sabia como eles funcionavam bem como enchi o saco dele para que tal coisa fosse desse jeito e não do outro. Eu trabalhei na primeira versão do framework JavaScript que criamos com o Tiago e depois fizemos algumas sessões de pair programming nas últimas alfinetadas.

Nas primeiras iterações eu ainda consegui pegar tarefas para mim, com o tempo isso foi ficando impossível mas eu não deixei de ser o líder técnico do projeto por isso. Assumir o papel de gestor do projeto me deixou com tempo fragmentado mas quanto mais ágil seu processo (e sua empresa) menos você precisa assumir o papel de gestor. Quando a empresa não requer muita burocracia desnecessária não há muito à facilitar, quando o time se gerencia não há muito há resolver.

Como o Antônio comentou no blog é muito bom chegar ao nível de ter essas discussões, pensar sobre o que é feito, mas é melhor ainda quando percebemos que processos ágeis são sobre pessoas e adaptação. Eu diria que um time não precisa muito mais de um Scrum Master Power Turbo do que de um tech lead, ambos são papeis importantes. Se você coloca seu tech lead como gestor de projeto e o impede de exercer suas funções técnicas você tem que ter uma estratégia para substituir essa perda.

Você pode ter certeza que as práticas que você mais odeia em uma metodologia de desenvolvimento não-ágil não foram criadas por pura maldade dos autores (bem, não sempre…). Estas práticas fizeram (e fazem) sentido nos cenários experimentados. Elas foram úteis e resolveram problemas. A grande questão é que não é porque uma coisa faz sentido em um cenário que ela deve ser aplicado à todos, ou sequer à maioria.

Cuidado para não ficar preso às respostas fáceis. Cuidado para não transformar processos empíricos em processos prescritivos. Cuidado para não tentar programar FORTRAN em qualquer linguagem.

Par de Jarros

Sunday, April 6th, 2008

Metodologias ágeis pensam sempre em times de especialistas generalistas. Isso é algo fantástico.

É óbvio que ter um especialista em banco de dados Oracle no time aumenta bastante a capacidade técnica, é óbvio que ter o James Gosling como programador Java aumenta a produtividade nesta linguagem mas é mais que óbvio que a grande, grande maioria dos projetos de software hoje em dia não precisam de especialistas extremos, precisam de gente boa o suficiente na tecnologia.

Isso nos coloca confortáveis para ao invés de um DBA dedicado termos apenas bons desenvolvedores, que ainda que não saibam diferenciar todos os tipos de tablespace possíveis conseguem fazer o sistema funcionar de forma razoável –e razoável significa dentro dos requisitos funcionais e não-funcionais.

Não consigo lembrar de nenhum projeto que eu tenha participado nos últimos três anos que não envolvesse mais de uma linguagem de programação, geralmente Java com Ruby, C++, JavaScript, C#, Bash e/ou PERL (alem das DSLs: HQL, SQL, etc.). Nos bons times não havia “desenvolvedor C#”, havia desenvolvedor, e isso significava que o cara usava as ferramentas que melhor servissem para o trabalho.

Mas o que isso quer dizer do ponto de vista do desenvolvedor? Quer dizer que ele vai ser exposto à tecnologias diferentes, o que é ótimo, mas também quer dizer que ele terá que abandonar algumas das suas preferências pessoais em favor do time, o que pode não ser tão bom.

Em um time ágil, todos os membros devem estar comprometidos com o projeto. Não tem essa de “a minha parte está feita, falta Fulano terminar a dele”, todos são responsáveis e todos vão ajudar. Se você foi contratado como programador SQL e precisamos de uma mão para terminar de escrever testes em Selenium é sua obrigação para com o time se voluntariar.

Mas isso, como tudo na vida, tem dois lados. Existem pessoas que não ligam para a tecnologia utilizada, elas gostam do projeto em si, mas no mundo do desenvolvimento existem muitas pessoas –e geralmente pessoas muito boas- que possuem suas preferências. O cara não gosta de programar em Ruby, ele prefere Java. Se o time precisar ele escreve Ruby mas por ele fazia tudo em Java -ele não acredita que Ruby tenha a mesma qualidade, ou algo do tipo.

Lembre-se que o manifesto ágil coloca pessoas acima do processo, se o processo diz que o desenvolvedor deve ser bombril multi-uso mas a pessoa não se sente a vontade nessa área você como gestor tem obrigação de fazer algo a respeito.

O que fazer? Deixar este desenvolvedor apenas nos projetos Java? Se isso for uma opção tudo bem, mas e em times pequenos? Eu vejo essa situação como um contrato entre as partes:

  • O desenvolvedor deve saber que sua preferência de linguagem/tecnologia/plataforma/framework/biblioteca não necessariamente é a melhor para o caso e/ou não é viável na atual situação.
  • O desenvolvedor deve se comprometer a utilizar a tecnologia em questão quando o time necessitar que ele o faça –e ele tem o direito de dizer até 3 palavrões por linha de código escrita
  • O gestor tem que garantir que o desenvolvedor tenha direito à expressar sua opinião quanto às escolhas do grupo
  • O gestor tem que saber que essa pessoa não está confortável nessa posição e fazer o possível para que isso seja amenizado

Da mesma maneira que o gestor do projeto ou do time sabe que não pode arriscar seu sucesso por uma birra do desenvolvedor com a linguagem, ele sabe que é muito difícil encontrar bons desenvolvedores e manter um ambiente de trabalho agradável. Na minha experiência o que eu mais vi foram casos onde o desenvolvedor cumpre a parte dele no contrato acima mas o gestor não. O gestor trata todos os desenvolvedores como iguais, ignorando completamente o caráter pessoal e social de um projeto de desenvolvimento.

O que “amenizar” significa depende do seu contexto. Você pode tentar mudar a pessoa de equipe, pode fazer com que ele tenha a opção de pegar outras tarefas que não seriam imediatamente executadas, oferecer treinamento… O que você não pode fazer é que o processo –ágil ou não- vença à razão e você tenha um desenvolvedor completamente desestimulado e frustrado na sua equipe, que enquanto você não olha está em um site de empregos.

Não deixe que para aquele desenvolvedor agile signifique trabalhar com algo que você não gosta.

Qi4j @ ThoughtWorks Community College

Thursday, April 3rd, 2008

Ontem tivemos mais um Community College na ThoughtWorks Melbourne, desta vez focamos no Qi4j.

É uma idéia interessante. Basicamente o qi4j (”quiforjêi”) usa micro-aspectos para modelar qualquer coisa. O problema é que a sintaxe atrapalha. Eles usam a Linguagem Java, com Language Adaptations e uma Factory mágica, provavelmente uma linguagem própria teria mais efeito.

Testadores Ágeis

Monday, March 24th, 2008

Todo mundo sabe que agilidade é sobre testes. Muitos testes. Bem, mais ou menos. Geralmente quando falamos de testes em metodologias ágeis estamos falando de testes escritos pelo desenvolvedor enquanto escreve código, e estes têm dois objetivos: feedback e bom design.

Feedback se consegue ao executar os testes. Quando você escreve uma classe que quebra um teste você sabe que existe algo errado imediatamente. Bom design se dá porque nada alem do necessário é criado, alem de que as tecnologias atuais de testes exigem que seu código siga alguns bons princípios para que seja testável, como bom gerenciamento de dependências.

Existe, entretanto, outro tipo de teste, geralmente feito por um profissional especializado, que chamamos de QA (Quality Assurance). Este teste valida o software de um ponto de vista diferente. Muita gente se engana achando que testes de desenvolvedor são suficientes para validar um sistema. Obviamente que assim como nem todo sistema exige um web designer profissional especializado nem todo exige um profissional de testes, mas a maioria dos projetos que já participei tinham nisso um benefício.

Estava lendo o artigo do Jeff Paton, ex-colega ThoughtWorker, sobre isso e lembrei das minhas experiências com testadores em time ágeis. Mas primeiro talvez seja melhor contar sobre as experiências em times não-ágeis.

Eu trabalhei em uma empresa muito interessante mas com um processo muito estranho. A empresa tem orgulho de usar waterfall para desenvolver seus produtos, ninguém está autorizado a escrever uma linha de código sem escrever 8 documentos. Obviamente todos os projetos atrasam e obviamente o software tem uma qualidade deprimente, mas eles conseguem fazer dinheiro neste cenário –ainda que pagando um preço muito alto.

Teste é uma coisa séria nesta empresa. Os produtos estão sujeitos à regulamentação de telecomunicações de diversos paises, e cada funcionalidade tinha que ser testada de acordo. O fluxo de desenvolvimento era o típico de waterfall, nós desenvolvedores criávamos nossos sistemas (programas em C++ para plataformas UNIX diversas) e enviávamos uma tag do Subversion para a equipe de testes. O testador teoricamente já lera todas as especificações funcionai do produto e já tinha os casos de testes escritos e, talvez, implementados.

Era aí que a brincadeira começava. Na melhor das hipóteses o testador encontrava um bug, rejeitava o pacote (usando um maravilhoso sistema interno desenvolvido em Lótus Notes) e enviava de volta. O desenvolvedor corrigia e o pacote era retestado. Isso nunca acontecia. O que acontecia era:

  • O pacote era aprovado. O desenvolvedor, com o sistema já em produção, olhava o plano de testes por curiosidade e via que eles não testavam absolutamente nada de relevante, ninguém garantia a qualidade do treco
  • O pacote era rejeitado. O desenvolvedor olha ao motivo da rejeição e via que o que estava sendo testado nem de perto era o que o sistema deveria fazer. O testador Não entendeu o documento, muitas reuniões explicando tudo novamente e o pacote era retestado sem modificações
  • O pacote era recebido pelo testador com total surpresa. Era uma aplicação de linha de comando e o testador esperava uma aplicação com interface web, ou o testador esperava que o sistema usasse banco de dados e ele mantinha tudo em memória, ou…
  • O testador rejeitava o pacote porque não sabia como testa-lo. O desenvolvedor não pensava no testador, o testador não pensava no desenvolvedor.

Claro que todos os membros do escritório de projetos (já falei que tínhamos CMMI?) sabiam a solução para estes problemas e é claro que para eles a solução passava pela criação de mais documentos, de 1 a 5 dependendo de quem você perguntasse.

Nas equipes ágeis que trabalhei a coisa era diferente. O testador senta ao lado do desenvolvedor, e por vezes eles trabalham em pair programming (pair testing, provavelmente). O testador está envolvido em todas as tarefas, validando que o que o analista de negócios pede é entregue, que confirma com as premissas do projeto e etc.

Para fazer isso ele está envolvido na elaboração das user stories e, principalmente, dos critérios de aceite definidos nela. Seu trabalho é verificar que os critérios de aceite são obedecidos pela implementação e que eles fazem sentido em primeiro lugar.

Um profissional come site perfil não pode ser simplesmente um usuário. Ele tem que conhecer sobre metodologia de testes de software (um campo enorme por si só), sobre o domínio do sistema e sobre desenvolvimento. Idealmente o testador é um desenvolvedor e sabe criar suas ferramentas. Um testador deve ser capaz de escrever seu próprio programa usando Selenium RC, ou suas fixtures no Fit.

Infelizmente nem sempre isso acontece. Em muitas empresas o cargo de testador é delegado à pessoas que possuem um conhecimento técnico muito baixo e executam tarefas do tipo “aperte o botão e verifique se quebra o layout”. Neste caso os desenvolvedores podem prover as ferramentas para os testadores mas ainda assim eles devem ter capacidade de escrever os casos de testes usando a ferramenta sozinhos.

O papel do testador não é dizer que a aplicação está homologada, na maioria das vezes isso é apenas uma ilusão que gerentes gostam de cultivar. O papel do testador é garantir a qualidade dele submetendo à testes rígidos. Não é um aceite formal, o testador não é quem aprova o software –o analista de negócios ou seu equivalente aprova o software- ele faz parte do desenvolvimento deste.

Minha experiência diz que assim como trabalhar com testadores apertadores-de-botão não agrega nada ao produto alem de burocracia desnecessária, trabalhar com testadores de verdade no time é uma das melhores coisas que pode acontecer num projeto de software.

No meu projeto anterior os testadores chegaram ao time apenas como apertadores de parafusos. Eles clicavam na tela e verificavam que a informação correta era disponibilizada. Como nossa participação no projeto era facilitar a adoção de metodologias ágeis isso tinha que mudar. A primeira coisa foi a participação dos testadores na definição das histórias, eles trabalham junto com o analista de negócios e o usuário definindo critérios. Eles também participam do sign-off da história –quando ela é apresentada aos desenvolvedores que vão executa-la- e quando conclui a história o desenvolvedor az um walkthrough dela para o testador. Em todas as etapas eles agregam informação, questionam as praticas e, principalmente, garantem que o software final é testável.

Foi adicionado ao time de facilitadores um testador especialista em automação –um desenvolvedor exercendo função de QA, basicamente-, a função dele era disponibilizar ferramentas e disseminar seu uso. Com o tempo desenvolvemos uma Internal DSL em Ruby para controlar nossa ferramenta de teste, o Selenium RC. A ferramenta é utilizada por desenvolvedores nos nossos testes de aceitação que fazem parte do build e pelos testadores na hora de dizer que uma história está concluída.

Os resultados desta adoção são excelentes. Quando nossa parte no projeto –facilitar a adoção das praticas- acabou a pessoas estavam aptas à continuar o bom trabalho por si mesmas. Os desenvolvedores ainda criam as ferramentas mas a gerencia, vendo os benefícios, agendou cursos de Ruby e Selenium para a equipe de QA.

Ainda bem que estou aqui

Friday, March 21st, 2008

Morar num pais distante é uma experiência diferente para cada um. Uma das coisas que estão bem claras para mim é que eu não estou fugindo do Brasil, estou apenas experimentando algo novo para ver como me sinto. No final deste experimento eu posso decidir ficar, voltar ou ir para outro lugar.

Esses dias eu pela primeira vez falei “ainda bem que não estou no Brasil”. A causa? A classe política brasileira que teima em se meter no que não entende.

A ACM é uma das mais respeitáveis organizações do mundo da tecnologia, uma referencia para toda a indústria. Há anos a organização estuda a possibilidade de aplicar licenciamento e regulamentação na área. A conclusão está neste documento, que diz:

From 1993 through June 2000 ACM worked with the IEEE Computer Society on projects to examine and guide the evolution of software engineering as a profession. This work was originally carried out under the Joint IEEE-CS and ACM Steering Committee for the Establishment of Software Engineering as a Profession. In 1998 the joint committee was superceded by the Software Engineering Coordinating Committee (SWECC) established by IEEE-CS and ACM to act as a “permanent entity to foster the evolution of software engineering as a professional computing discipline.” Under these efforts projects were launched to identify a software engineering body of knowledge (SWEBOK); develop curriculum recommendations for software engineering; and define a code of professional ethics and standards of professional conduct.

At the time SWECC was being established, the ACM and IEEE-CS received a request from the Texas Professional Engineers Licensing Board for help in defining performance criteria for software engineering licensing exams to be administered in Texas. As a result of this request, the question of licensing software engineers became more of an issue both for SWECC and for ACM. In March 1999 an ACM Advisory Panel on Professional Licensing in Software Engineering was established to make recommendations to ACM Council on the issue. After reviewing and discussing the advisory panel’s report (www.acm.org/serving/se_policy/report.html), ACM Council passed the following motion in May 1999:

“ACM is opposed to the licensing of software engineers at this time because ACM believes it is premature and would not be effective at addressing the problems of software quality and reliability.

“ACM is, however, committed to solving the software quality problem by promoting research and development, by developing a core body of knowledge for software engineering, and by identifying standards of practice.”

Over the next 12 months work continued on the SWEBOK project and other SWECC activities. In addition, ACM Council established two additional task forces: one to evaluate the SWEBOK effort; and the other to determine ways in which ACM and the profession might improve the robustness and quality of safety-critical software and evaluate licensing activities in this context.

After reviewing the reports of these two task forces, there was growing concern by ACM Council that supporting the request of the Texas Professional Engineers Licensing Board was becoming more the primary focus of SWECC’s efforts. As a result, ACM Council passed the following motion in June 2000:

“Society is becoming increasingly dependent on computers and software, which creates tremendous challenges and responsibilities for computing professionals. ACM Council believes that confronting these challenges will require creative and collaborative efforts by industry, universities, professional societies, and government. ACM Council strongly supports the idea of the ACM and the IEEE Computing Society working together on these challenges, including joint initiatives to promote the emergence of information technology professions.

“However, ACM Council believes that the current efforts of the Software Engineering Coordinating Committee (SWECC) toward licensing is misguided as they assume that software engineering is a profession appropriate for licensing under the rubric of the Professional Engineers Licensing structure and requirements. Moreover, ACM Council feels that further efforts in this direction will detract from our ability to take other more practical and productive initiatives needed to meet our common goals.

“Accordingly, Council directs that ACM withdraw from SWECC.”

Understanding the ACM Position

Why did ACM withdraw from SWECC? ACM Council felt the activities of SWECC had become too closely associated with promoting the licensing of software engineers as Professional Engineers (PEs).

Is ACM against licensing software engineers? Yes. For legal reasons, the only way to be a licensed software engineer is to become a PE. As described in the Safety-Critical report (see www.acm.org/serving/ se_policy/safety_critical.pdf), several topics on which all prospective PEs are tested, such as fluid mechanics and thermodynamics, are beyond the scope of software engineering. Mastering these topics could detract from the study of more relevant areas.

In addition, a software engineering license would be interpreted as an authoritative statement that the licensed engineer is capable of producing software systems of consistent reliability, dependability, and usability. The ACM Council concluded that our state of knowledge and practice is too immature to give such assurances.

Is ACM against software engineering being viewed as a profession? No. ACM believes it is important to foster the emergence of a true IT profession, not just software engineering. A field does not need licensing to be a profession.

Does ACM see a difference between licensing and certification? Yes. Certification is a statement by a recognized authority that a person is competent in an area. Licensing, by contrast, is regulated in the U.S. by legislation at the state level. With few exceptions, a PE in a profession for which licensing is required must be licensed in every state in which he or she practices.

Will ACM continue its efforts to improve the quality of software? Absolutely. ACM believes the problem of reliable and dependable software, especially in critical applications, is the most important problem facing the IT profession.

A Sociedade Brasileira de Computação (SBC) é outro organismo importante na indústria. Ela também já flertou com a regulamentação mas possui a seguinte opinião:

A comunidade científica da computação brasileira vem discutindo a questão da regulamentação da profissão de Informática desde antes da criação da SBC em 1978.

Fruto dos debates ocorridos ao longo dos anos, nos diversos encontros de sua comunidade científica, em relação às vantagens e desvantagens de uma regulamentação da profissão de informática, a SBC consolidou sua posição institucional em relação a esta questão pela formulação dos seguintes princípios, que deveriam ser observados em uma eventual regulamentação da profissão:

1. Exercício da profissão de Informática deve ser livre e independer de diploma ou comprovação de educação formal.
2. Nenhum conselho de profissão pode criar qualquer impedimento ou restrição ao princípio acima.
3. A área deve ser Auto-Regulada.

Os argumentos levantado junto à comunidade da SBC e que nortearam a formulação dos princípios acima estão detalhados na Justificação que acompanha o PL 1561/2003, o qual é integralmente apoiado pela Sociedade de Computação.

O livro Software Craftmanship, de Pete McBreen, possui um capítulo chamado “Licensing is an Illusion”, de onde eu cito:

Licensing Is an Attempt to Solve the Wrong Problem

Licensing works for engineering because one licensed engineer can certify that something using accepted best practices has been built. The same is not possible with software. Certification can be applied to buildings and other mechanical structures because they involve standard materials and designs with well-known properties. They are also a lot less complex than software. Most engineering designs have very few parts. For example, cars typically have fewer than 15,000 parts and fewer than 5,000 unique part numbers. By comparison, this book contains about 50,000 words, and the space shuttle software contains approximately 420,000 lines of code.

Cars are interesting because they are so complex that it is not cost-effective to have licensed engineers certify that they are built correctly. As the J.D. Power and Associates 2000 Vehicle Dependability Study reported, even the best cars average more than two defects per vehicle. Some cars have serious design defects that require a complete safety recall, attesting to the fact that even the design is incorrect. Tellingly for the engineering profession, auto manufacturers rarely acknowledge a problem until they have a fix available.

In software, the problems are even harder. Even with multiple reviews and copyediting, most books contain a few typos or mistakes. Now imagine the problem that a licensed software engineer would face when asked to sign off on the space shuttle software. An individual could not sign it off as correct. Even if a person spent an entire career at that one task, she could never sign it off as correct because the software is too large and complex for any one individual to be able to guarantee that there are no mistakes. The concept of a single, responsible engineer signing off the complete work is not feasible for software.

The key problem is that licensing assumes that it is possible to inspect quality into a product. This approach is the wrong way to improve quality, and even the manufacturing world has shifted away from this concept.[41] As quality pioneer W. Edwards Deming stated, one of the key responsibilities of management is to cease dependence on mass inspection and testing: much better to improve the process in the first place so you don’t produce so many defective items, or none at all.

Eu pergunto se o senador Eduardo Azeredo tem respostas para estes questionamentos. Pergunto se ele e os envolvidos e apoiadores deste grande erro sequer sabem que existe um mundo todo aqui fora e que o Brasil não é o primeiro a passar por este questionamento. Pergunto se eles sabem que nenhum pais minimamente relevante na área de Tecnologia da Informação, desde os desenvolvidos até nossos colegas de BRIC impõe uma lei absurda dessas.

Mas nós sabemos como o Brasil funciona (funciona?) e que essa lei não vai causar nada alem de transtornos leves. Não posso mais chamar a pessoa de Analista de Sistemas (que aliás é algo que nem existe mais hoje em dia) mas podemos continuar tudo como sempre foi.

A diferença, é claro, é que mais e mais pessoas vão entrar em instituições de ensino de péssima qualidade apenas para ter o diploma que dá direito ao exercício de uma profissão que não existe. E eu pergunto: a quem esta lei beneficia mesmo? Os profissionais ou os donos de faculdades McDonald’s?

Sinal de Vida

Wednesday, March 12th, 2008

Nossa, tanta coisa que nem sei o que postar. Neste tempo que fiquei afastado –quase um mês!- juntei um bando de idéias para postas mas agora falta tempo.

Neste período terminei mais um projeto. Estou alocado no mesmo cliente e temos dezenas de pequenos projetos que fazem parte de um projeto maior que faz parte de um projeto tão gigantesco que toda semana tem uma festa para comemorar que alguém lá em Perth terminou uma parte que você nem sabia que existia. Segunda-feira devo ser movido para outra parte, desta vez é apenas para prestar ajudar um grupo de desenvolvedores do cliente que está com problemas num sistema baseado em mensagens assíncronas. Deve durar até Maio, creio.

Mas não é o trabalho que me tem afastado, pelo menos não é o maior causador. O problema é a minha pesquisa. Eu tenho dedicado boa parte do meu tempo livre a me aprofundar nos assuntos necessários para uma boa compreensão de Language-Oriented Programming e Domain-Specific Languages.

Infelizmente existe duas áreas de Ciência da Computação nas quais eu nunca me interessei muito: linguagens de programação e inteligência artificial. IA é algo que eu ainda não estudo mas para entender DSLs uma das coisas mais importantes é entender como as linguagens são criadas. Isso está me fazendo tentar aprender em um mês o que eu negligenciei por anos, incluindo a leitura capa-a-capa do SCIP. Eu sei um pouco de Common Lisp mas ainda que não soubesse não seria problema, o livro usa Scheme mas você não precisa saber Scheme ara começar a ler –bem no estilo de Bertrand Meyer que ensina Eiffel no seu livro de OO.

Depois disso vem o Concepts, Techniques, and Models of Computer Programming - que é uma recomendação do Rafael- e The Seasoned Schemer. For a as dezenas de papers da ACM que tenho pesquisado.

É trabalhoso, é complicado mas é uma das coisas que me fizeram vir ara a Austrália e mudar de emprego. Na ThoughtWorks eu tenho acesso a um material seleto sobre iniciativas no mundo real destas tecnologias, e acesso à pessoas com um conhecimento sobrenatural sobre este assunto. Apesar de eu adorar fazer parte de um time fixo desenvolvendo um produto e focado em melhoria, trabalhar como consultor me dá mais liberdade para focar no meu interesse atual, que em grande parte é essa pesquisa. Eu trabalho de 9 as 17h no cliente -sem hora extra- levanto da minha mesa e em 15 minutos estou no meu apartamento.

Antes que comecem as especulações entre meus três leitores não, eu não pretendo fazer nada de útil com o resultado da pesquisa. O resultado, na verdade, não importa, para mim importa o que eu aprender no caminho.

Se tudo der errado eu faço uma aplicação em Lisp pro Facebook e fico rico :)

Gerenciando Débitos

Sunday, February 17th, 2008

Todo projeto que já participei, dos meus pet-projects até os com equipes imensas, possuem algum nível de tech debt. Sempre a mesma história: não temos tempo para isso agora, na próxima oportunidade corrigimos.

O problema é que em muitos casos o acúmulo de coisas que deixamos pelo meio do caminho é prejudicial à saúde do projeto. Mais que preciosismo de nerds e perfeccionistas, tech debt pode –e geralmente vai- atrasar o andamento do time.

Nos projetos que eu gerencio eu gosto de alocar um orçamento para resolver estes problemas. Durante o planning game eu deixo claro que precisamos resolver problemas enquanto estamos implementando funcionalidades e geralmente aloco alguns pontos na iteração para eles, normalmente algo perto de 20% do trabalho. Normalmente eu aceito que estas histórias técnicas tenham prioridade baixa e no geral tudo ocorre bem.

Se temos uma emergência então eu costumo não ser muito flexível em relação à solução do problema. As histórias técnicas neste caso ganham prioridade máxima dentro da iteração.

Como geralmente o cliente está satisfeito com a velocidade da equipe num processo ágil (se não está temos outro problema) quando sobra –e quase sempre sobra- tempo extra numa iteração geralmente eu preencho com tech debt, e em especial deixo os desenvolvedores priorizarem o que querem fazer. Muitas vezes não dá tempo para fazer homologação destas mudanças durante a iteração vigente e elas acabam indo para produção apenas na iteração posterior, mas é uma boa estratégia.

O que importa é não deixar o tech debt acumular. Se você tem duvidas dos problemas que o acúmulo de histórias técnicas causam basta lembrar a última vez que você entrou em um projeto para dar manutenção em um sistema pré-existente. Eu nunca vi um caso onde o sistema antigo não tenha toneladas de problemas causados por “deixar para depois” mudanças que não eram urgentes mas foram crescendo em urgência com o tempo.

E claro que meu projeto atual não é diferente. Trata-se da conversão de boa parte de um sistema legado em Java para Ruby (não Rails, Ruby). Como todo projeto deste tipo o orçamento não contempla uma reescrita do sistema, apenas uma conversão. Isso quer dizer que se um módulo assovia e chupa cana em Java ele, teoricamente, vai assoviar e chupar cana em Ruby.

O bom de trabalhar em um time ágil é que não é porque no início do projeto não se pensou em melhorar as coisas que isso precisa ser verdade até o fim dele. Após a equipe (desenvolvedores, analistas de negócios e gerente de projetos) percebemos que alguns itens realmente estavam atrapalhando o andamento do projeto. Nossos dias estão cercados de tarefas repetitivas que existem apenas para contornar alguma “gambiarra” que o sistema original tinha e nós estamos reproduzindo de maneira burra. Levamos a questão aos clientes e fizemos entender que se gastarmos alguns pontos nestas tarefas em algumas iterações nossa velocidade irá aumentar, e muito.

Apos conseguirmos 25% dos pontos de uma iteração para histórias técnicas veio a questão: temos dezenas de problemas, o que faremos primeiro? Como é um time grande cada um tem seu ponto de vista sobre o que está errado e o que precisa melhorar, então fizemos da maneira ágil: disciplina e flexibilidade.

Marcamos uma reunião com o time e coletamos em cartões todos os problemas que conseguíssemos pensar. Os cartões foram pregados na parede, divididos entre coisas do dia-a-dia e coisas que realmente indicam a visão que o sistema deve tomar, aspectos arquiteturais.

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Depois cada um recebeu 5 votos para distribuir entre os cartões. Quase todas as histórias eram importantes então precisamos limitar o numero de votos para entender o que realmente é critico.

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Apos este exercício nós criamos um backlog paralelo para o produto, apenas com histórias técnicas. Este backlog foi estimado e baseado nele o time decide que história técnica entra nos 25% de pontos disponíveis.

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Uma das vantagens dessa abordagem já foi percebida. Nosso sistema é um fluxo de operações em sequência. Operações em sequência são uma ótima área para programação procedural e isso fez com que os desenvolvedores originais do sistema seguissem este paradigma.

Claro que quando se mistura uma linguagem orientada a Objetos com código procedural é necessária muita cautela, e a maioria das pessoas acha que para o código ser procedural basta usar atributos públicos nas suas classes. Existem muitas métricas para qualidade de código procedural (a maioria das métricas de código OO são evoluções ou adaptações destas, na verdade) e nosso código não seguia nenhuma.

Aproveitando o nosso orçamento para histórias técnicas nós introduzimos um sistemas de jobs, uma implementação do padrão Chain of Responsibility. Até agora 50% das funções já foram convertidas para o modelo novo e a cada iteração mais são convertidas.

O resultado das ultimas iterações mostra um aumento consistente de 10% na velocidade. Todos os envolvido creditam esta melhoria à mudança e ainda estimamos que quando todo o sistema for convertido para a nova arquitetura teremos por volta de 25% de aumento total.

Existem coisas simples que podem decidir se um projeto vai ser um sucesso ou fracasso. Não esconder sujeira debaixo do tapete é uma delas.