Archive for the ‘thoughtworks’ Category

Testadores Ágeis

Monday, March 24th, 2008

Todo mundo sabe que agilidade é sobre testes. Muitos testes. Bem, mais ou menos. Geralmente quando falamos de testes em metodologias ágeis estamos falando de testes escritos pelo desenvolvedor enquanto escreve código, e estes têm dois objetivos: feedback e bom design.

Feedback se consegue ao executar os testes. Quando você escreve uma classe que quebra um teste você sabe que existe algo errado imediatamente. Bom design se dá porque nada alem do necessário é criado, alem de que as tecnologias atuais de testes exigem que seu código siga alguns bons princípios para que seja testável, como bom gerenciamento de dependências.

Existe, entretanto, outro tipo de teste, geralmente feito por um profissional especializado, que chamamos de QA (Quality Assurance). Este teste valida o software de um ponto de vista diferente. Muita gente se engana achando que testes de desenvolvedor são suficientes para validar um sistema. Obviamente que assim como nem todo sistema exige um web designer profissional especializado nem todo exige um profissional de testes, mas a maioria dos projetos que já participei tinham nisso um benefício.

Estava lendo o artigo do Jeff Paton, ex-colega ThoughtWorker, sobre isso e lembrei das minhas experiências com testadores em time ágeis. Mas primeiro talvez seja melhor contar sobre as experiências em times não-ágeis.

Eu trabalhei em uma empresa muito interessante mas com um processo muito estranho. A empresa tem orgulho de usar waterfall para desenvolver seus produtos, ninguém está autorizado a escrever uma linha de código sem escrever 8 documentos. Obviamente todos os projetos atrasam e obviamente o software tem uma qualidade deprimente, mas eles conseguem fazer dinheiro neste cenário –ainda que pagando um preço muito alto.

Teste é uma coisa séria nesta empresa. Os produtos estão sujeitos à regulamentação de telecomunicações de diversos paises, e cada funcionalidade tinha que ser testada de acordo. O fluxo de desenvolvimento era o típico de waterfall, nós desenvolvedores criávamos nossos sistemas (programas em C++ para plataformas UNIX diversas) e enviávamos uma tag do Subversion para a equipe de testes. O testador teoricamente já lera todas as especificações funcionai do produto e já tinha os casos de testes escritos e, talvez, implementados.

Era aí que a brincadeira começava. Na melhor das hipóteses o testador encontrava um bug, rejeitava o pacote (usando um maravilhoso sistema interno desenvolvido em Lótus Notes) e enviava de volta. O desenvolvedor corrigia e o pacote era retestado. Isso nunca acontecia. O que acontecia era:

  • O pacote era aprovado. O desenvolvedor, com o sistema já em produção, olhava o plano de testes por curiosidade e via que eles não testavam absolutamente nada de relevante, ninguém garantia a qualidade do treco
  • O pacote era rejeitado. O desenvolvedor olha ao motivo da rejeição e via que o que estava sendo testado nem de perto era o que o sistema deveria fazer. O testador Não entendeu o documento, muitas reuniões explicando tudo novamente e o pacote era retestado sem modificações
  • O pacote era recebido pelo testador com total surpresa. Era uma aplicação de linha de comando e o testador esperava uma aplicação com interface web, ou o testador esperava que o sistema usasse banco de dados e ele mantinha tudo em memória, ou…
  • O testador rejeitava o pacote porque não sabia como testa-lo. O desenvolvedor não pensava no testador, o testador não pensava no desenvolvedor.

Claro que todos os membros do escritório de projetos (já falei que tínhamos CMMI?) sabiam a solução para estes problemas e é claro que para eles a solução passava pela criação de mais documentos, de 1 a 5 dependendo de quem você perguntasse.

Nas equipes ágeis que trabalhei a coisa era diferente. O testador senta ao lado do desenvolvedor, e por vezes eles trabalham em pair programming (pair testing, provavelmente). O testador está envolvido em todas as tarefas, validando que o que o analista de negócios pede é entregue, que confirma com as premissas do projeto e etc.

Para fazer isso ele está envolvido na elaboração das user stories e, principalmente, dos critérios de aceite definidos nela. Seu trabalho é verificar que os critérios de aceite são obedecidos pela implementação e que eles fazem sentido em primeiro lugar.

Um profissional come site perfil não pode ser simplesmente um usuário. Ele tem que conhecer sobre metodologia de testes de software (um campo enorme por si só), sobre o domínio do sistema e sobre desenvolvimento. Idealmente o testador é um desenvolvedor e sabe criar suas ferramentas. Um testador deve ser capaz de escrever seu próprio programa usando Selenium RC, ou suas fixtures no Fit.

Infelizmente nem sempre isso acontece. Em muitas empresas o cargo de testador é delegado à pessoas que possuem um conhecimento técnico muito baixo e executam tarefas do tipo “aperte o botão e verifique se quebra o layout”. Neste caso os desenvolvedores podem prover as ferramentas para os testadores mas ainda assim eles devem ter capacidade de escrever os casos de testes usando a ferramenta sozinhos.

O papel do testador não é dizer que a aplicação está homologada, na maioria das vezes isso é apenas uma ilusão que gerentes gostam de cultivar. O papel do testador é garantir a qualidade dele submetendo à testes rígidos. Não é um aceite formal, o testador não é quem aprova o software –o analista de negócios ou seu equivalente aprova o software- ele faz parte do desenvolvimento deste.

Minha experiência diz que assim como trabalhar com testadores apertadores-de-botão não agrega nada ao produto alem de burocracia desnecessária, trabalhar com testadores de verdade no time é uma das melhores coisas que pode acontecer num projeto de software.

No meu projeto anterior os testadores chegaram ao time apenas como apertadores de parafusos. Eles clicavam na tela e verificavam que a informação correta era disponibilizada. Como nossa participação no projeto era facilitar a adoção de metodologias ágeis isso tinha que mudar. A primeira coisa foi a participação dos testadores na definição das histórias, eles trabalham junto com o analista de negócios e o usuário definindo critérios. Eles também participam do sign-off da história –quando ela é apresentada aos desenvolvedores que vão executa-la- e quando conclui a história o desenvolvedor az um walkthrough dela para o testador. Em todas as etapas eles agregam informação, questionam as praticas e, principalmente, garantem que o software final é testável.

Foi adicionado ao time de facilitadores um testador especialista em automação –um desenvolvedor exercendo função de QA, basicamente-, a função dele era disponibilizar ferramentas e disseminar seu uso. Com o tempo desenvolvemos uma Internal DSL em Ruby para controlar nossa ferramenta de teste, o Selenium RC. A ferramenta é utilizada por desenvolvedores nos nossos testes de aceitação que fazem parte do build e pelos testadores na hora de dizer que uma história está concluída.

Os resultados desta adoção são excelentes. Quando nossa parte no projeto –facilitar a adoção das praticas- acabou a pessoas estavam aptas à continuar o bom trabalho por si mesmas. Os desenvolvedores ainda criam as ferramentas mas a gerencia, vendo os benefícios, agendou cursos de Ruby e Selenium para a equipe de QA.

Abaixo o Gerenciamento por Post-it!

Saturday, March 22nd, 2008

Scrum está na moda no Brasil. Empregos pedem Scrum, pessoas correm atrás de uma certificação (sem saber que ela não é nada mais que um papel dizendo que você estava presente dois dias numa aulinha, mas isso é outra história) e, sobretudo, as papelarias estão encomendando mais estoques de post-it, porque as paredes agora são soterradas pela melhor invenção da 3M.

Eu não tenho certeza se Scrum está tão ligado ao post-it assim ou isso é influência do Boris Gloger, que é provavelmente o mais conhecido Scrum Trainer no Brasil.

Que importa é que: post-its são horríveis! Eles perdem a cola, te obrigando a escrever tudo de novo num outro post-it, eles caem o tempo. Eles possuem espaço de menos. Não dá para usar o outro lado do post-it. Não dá para empilhar. Não dá para fazer organização decente numa mesa. Enfim, post-its são uma porcaria.

A melhor coisa são cartões. Cartões possuem o tamanho exato (você não precisa escrever com uma esferográfica, pode usar hidrocor).

Story Wall

Você pode adicionar “metadados” ao cartão usando coisas menores –como post-its.

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Você pode usar a parte de trás para coisas como critério de aceite da história. Pode espalhar os cartões no carpete e eles não melecam tudo nem rasgam facilmente.

Para fixar o cartão nós usamos blu-tack. Eu nunca vi no Brasil mas provavelmente dá para improvisar, basta pôr um pouquinho atrás do cartão e ele tem um adesivo perfeito, removível e renovável.

É claro que o que importa é gerencia ágil -se você usa post-its, cartões, papel de pão ou Mingle é o de menos- mas isso não é desculpa para não procurarmos as melhores ferramentas ;)

Sinal de Vida

Wednesday, March 12th, 2008

Nossa, tanta coisa que nem sei o que postar. Neste tempo que fiquei afastado –quase um mês!- juntei um bando de idéias para postas mas agora falta tempo.

Neste período terminei mais um projeto. Estou alocado no mesmo cliente e temos dezenas de pequenos projetos que fazem parte de um projeto maior que faz parte de um projeto tão gigantesco que toda semana tem uma festa para comemorar que alguém lá em Perth terminou uma parte que você nem sabia que existia. Segunda-feira devo ser movido para outra parte, desta vez é apenas para prestar ajudar um grupo de desenvolvedores do cliente que está com problemas num sistema baseado em mensagens assíncronas. Deve durar até Maio, creio.

Mas não é o trabalho que me tem afastado, pelo menos não é o maior causador. O problema é a minha pesquisa. Eu tenho dedicado boa parte do meu tempo livre a me aprofundar nos assuntos necessários para uma boa compreensão de Language-Oriented Programming e Domain-Specific Languages.

Infelizmente existe duas áreas de Ciência da Computação nas quais eu nunca me interessei muito: linguagens de programação e inteligência artificial. IA é algo que eu ainda não estudo mas para entender DSLs uma das coisas mais importantes é entender como as linguagens são criadas. Isso está me fazendo tentar aprender em um mês o que eu negligenciei por anos, incluindo a leitura capa-a-capa do SCIP. Eu sei um pouco de Common Lisp mas ainda que não soubesse não seria problema, o livro usa Scheme mas você não precisa saber Scheme ara começar a ler –bem no estilo de Bertrand Meyer que ensina Eiffel no seu livro de OO.

Depois disso vem o Concepts, Techniques, and Models of Computer Programming - que é uma recomendação do Rafael- e The Seasoned Schemer. For a as dezenas de papers da ACM que tenho pesquisado.

É trabalhoso, é complicado mas é uma das coisas que me fizeram vir ara a Austrália e mudar de emprego. Na ThoughtWorks eu tenho acesso a um material seleto sobre iniciativas no mundo real destas tecnologias, e acesso à pessoas com um conhecimento sobrenatural sobre este assunto. Apesar de eu adorar fazer parte de um time fixo desenvolvendo um produto e focado em melhoria, trabalhar como consultor me dá mais liberdade para focar no meu interesse atual, que em grande parte é essa pesquisa. Eu trabalho de 9 as 17h no cliente -sem hora extra- levanto da minha mesa e em 15 minutos estou no meu apartamento.

Antes que comecem as especulações entre meus três leitores não, eu não pretendo fazer nada de útil com o resultado da pesquisa. O resultado, na verdade, não importa, para mim importa o que eu aprender no caminho.

Se tudo der errado eu faço uma aplicação em Lisp pro Facebook e fico rico :)

Gerenciando Débitos

Sunday, February 17th, 2008

Todo projeto que já participei, dos meus pet-projects até os com equipes imensas, possuem algum nível de tech debt. Sempre a mesma história: não temos tempo para isso agora, na próxima oportunidade corrigimos.

O problema é que em muitos casos o acúmulo de coisas que deixamos pelo meio do caminho é prejudicial à saúde do projeto. Mais que preciosismo de nerds e perfeccionistas, tech debt pode –e geralmente vai- atrasar o andamento do time.

Nos projetos que eu gerencio eu gosto de alocar um orçamento para resolver estes problemas. Durante o planning game eu deixo claro que precisamos resolver problemas enquanto estamos implementando funcionalidades e geralmente aloco alguns pontos na iteração para eles, normalmente algo perto de 20% do trabalho. Normalmente eu aceito que estas histórias técnicas tenham prioridade baixa e no geral tudo ocorre bem.

Se temos uma emergência então eu costumo não ser muito flexível em relação à solução do problema. As histórias técnicas neste caso ganham prioridade máxima dentro da iteração.

Como geralmente o cliente está satisfeito com a velocidade da equipe num processo ágil (se não está temos outro problema) quando sobra –e quase sempre sobra- tempo extra numa iteração geralmente eu preencho com tech debt, e em especial deixo os desenvolvedores priorizarem o que querem fazer. Muitas vezes não dá tempo para fazer homologação destas mudanças durante a iteração vigente e elas acabam indo para produção apenas na iteração posterior, mas é uma boa estratégia.

O que importa é não deixar o tech debt acumular. Se você tem duvidas dos problemas que o acúmulo de histórias técnicas causam basta lembrar a última vez que você entrou em um projeto para dar manutenção em um sistema pré-existente. Eu nunca vi um caso onde o sistema antigo não tenha toneladas de problemas causados por “deixar para depois” mudanças que não eram urgentes mas foram crescendo em urgência com o tempo.

E claro que meu projeto atual não é diferente. Trata-se da conversão de boa parte de um sistema legado em Java para Ruby (não Rails, Ruby). Como todo projeto deste tipo o orçamento não contempla uma reescrita do sistema, apenas uma conversão. Isso quer dizer que se um módulo assovia e chupa cana em Java ele, teoricamente, vai assoviar e chupar cana em Ruby.

O bom de trabalhar em um time ágil é que não é porque no início do projeto não se pensou em melhorar as coisas que isso precisa ser verdade até o fim dele. Após a equipe (desenvolvedores, analistas de negócios e gerente de projetos) percebemos que alguns itens realmente estavam atrapalhando o andamento do projeto. Nossos dias estão cercados de tarefas repetitivas que existem apenas para contornar alguma “gambiarra” que o sistema original tinha e nós estamos reproduzindo de maneira burra. Levamos a questão aos clientes e fizemos entender que se gastarmos alguns pontos nestas tarefas em algumas iterações nossa velocidade irá aumentar, e muito.

Apos conseguirmos 25% dos pontos de uma iteração para histórias técnicas veio a questão: temos dezenas de problemas, o que faremos primeiro? Como é um time grande cada um tem seu ponto de vista sobre o que está errado e o que precisa melhorar, então fizemos da maneira ágil: disciplina e flexibilidade.

Marcamos uma reunião com o time e coletamos em cartões todos os problemas que conseguíssemos pensar. Os cartões foram pregados na parede, divididos entre coisas do dia-a-dia e coisas que realmente indicam a visão que o sistema deve tomar, aspectos arquiteturais.

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Depois cada um recebeu 5 votos para distribuir entre os cartões. Quase todas as histórias eram importantes então precisamos limitar o numero de votos para entender o que realmente é critico.

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Apos este exercício nós criamos um backlog paralelo para o produto, apenas com histórias técnicas. Este backlog foi estimado e baseado nele o time decide que história técnica entra nos 25% de pontos disponíveis.

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Uma das vantagens dessa abordagem já foi percebida. Nosso sistema é um fluxo de operações em sequência. Operações em sequência são uma ótima área para programação procedural e isso fez com que os desenvolvedores originais do sistema seguissem este paradigma.

Claro que quando se mistura uma linguagem orientada a Objetos com código procedural é necessária muita cautela, e a maioria das pessoas acha que para o código ser procedural basta usar atributos públicos nas suas classes. Existem muitas métricas para qualidade de código procedural (a maioria das métricas de código OO são evoluções ou adaptações destas, na verdade) e nosso código não seguia nenhuma.

Aproveitando o nosso orçamento para histórias técnicas nós introduzimos um sistemas de jobs, uma implementação do padrão Chain of Responsibility. Até agora 50% das funções já foram convertidas para o modelo novo e a cada iteração mais são convertidas.

O resultado das ultimas iterações mostra um aumento consistente de 10% na velocidade. Todos os envolvido creditam esta melhoria à mudança e ainda estimamos que quando todo o sistema for convertido para a nova arquitetura teremos por volta de 25% de aumento total.

Existem coisas simples que podem decidir se um projeto vai ser um sucesso ou fracasso. Não esconder sujeira debaixo do tapete é uma delas.

Genérico

Monday, February 11th, 2008

Recentemente terminei meu primeiro projeto na ThoughtWorks. Como de normal com projetos ágeis esse terminou no prazo e com clientes satisfeitos já prontos para a segunda fase, mas teve algo especial. Foi meu primeiro projeto agile white-label.

A ThoughtWorks é uma empresa especializada em boas práticas de gestão de projetos, análise de negócios e desenvolvimento de software. Não é uma empresa especializada em XP ou Scrum ou Crystal ou que quer que seja.

Com tantos especialistas no escritório não é difícil imaginar que se pega o que melhor funciona em uma metodologia e em outra para formar uma metodologia única, adaptada àquela empresa. Como evangeliza Jacobson, o importante não é o processo em si e sim as praticas.

Nossas praticas neste projeto variaram entre XP e Scrum e as desenvolvidas internamente na ThoughtWorks e que não são tão conhecidas ou por um acaso nunca foram publicadas.

Eu notei algumas coisas boas e ruins no processo. Como estou acostumado a seguir um conjunto específico de metodologias foi muito bom não estar preso à uma prática. No Scrum, por exemplo, se você não segue uma pratica pode complicar outras, elas são habilidosamente encadeadas. Como nós criamos o nosso encadeamento não havia tanto problema em mudar as regras no meio do jogo quando víamos que algo não ia dar certo, mas ao mesmo tempo a falta de uma “arquitetura de processo”, uma linha-guia que dita a estratégia, foi sentida.

Outra coisa importante é que eu não tentaria algo parecido com pessoas inexperientes Existe uma tendência nas adoções de agilidade à largar uma ou outra pratica que parecem menos interessantes ou mais trabalhosas. Eu sou completamente a favor de se personalizar a metodologia com o tempo mas sou completamente contra fazer isso durante a adoção inicial –a menos que seja uma ferramenta didática e a prática seja introduzida no decorrer do período. Adaptação de metodologia deve ser fruto de feedback, não se deve retirar algo do processo antes mesmo de tentar para ver as conseqüências. É claro que existem exceções mas as pessoas que criaram e mantêm as metodologias ágeis tiveram um motivo para colocar aquela pratica ali, se você não vê valor nela existe uma grande chance de não entender ara que ela existe. Tudo bem remover a pratica após entender, só não retire do processo algo que você não conhece e pode ser o coração da coisa toda.

Da mesma maneira, customização demais matou o RUP. O RUP é genérico demais e ao mesmo tempo que é tudo não é nada. Eu já trabalhei em mais de uma dezena de projetos que se diziam RUP e a única coisa que eles compartilhavam era uma burocracia infernal.

Seja qual for sua escolha, Srum, XP, Crystal ou White-Label, o que importa para mim são os valores. As praticas são apenas maneiras de se atingir os valores e apesar delas diferirem entre processos ágeis todos eles tem como objetivo –ou deveriam ter- chegar até os valores expressos aqui.

Revendo Grupos de Usuários

Friday, February 1st, 2008

Há uns 4 ou 5 anos eu faço parte do RioJUG (mesmo na Austrália ainda faço parte do grupo) e nos últimos anos viajei e conheci JUG e outros grupos de usuários no país todo.

Acho que existem três grandes padrões para grupos brasileiros. O primeiro é do estilo do RioJUG: uma apresentação à cada X dias com uma palestra. Pouca participação do público, pouco networking. No Rio ainda é mais complicado porque as reuniões vão até tarde e as pessoas mal tem tempo para o lanche no final.

Outro padrões é o de Dojo. Pessoas se reúnem e resolvem um problema com código, aprendendo sobre ferramentas e plataformas no caminho. Muito networking, muita participação mas geralmente o conteúdo só se espalha até todos terem um razoável conhecimento sobre ele,não existe a figura de uma pessoa que apresenta algo muito novo ou experimental. Além disso no Brasil temos poucos notebooks nas mãos das pessoas -apenas gerentes líderes e etc.- o que elitiza os frequentadores.

Outro tipo é quando as pessoa apenas se reúnem para conversar. A comunidade de Software Livre é especialista nisso e geralmente a conversa começa ou termina no bar.

Todos são legais. A comunidade Java brasileira cresceu muito basicamente com este tipo de divulgação. Mas eu, sinceramente, enchi o saco.

Hoje estou no escritório da ThoughtWorks em Melbourne, onde estou baseado. Temos aqui o encontro do grupo de usuários de Ruby de Melbourne, que é hospedado aqui no escritório (também teremos aqui o BarCamp Melbourne em Fevereiro). Este grupo tem uma estrutura de reunião bem interessante.

Começa com a eventual apresentação pelo coordenador, bem rápida. Depois, durante vinte minutos, pessoas conversam sobre coisas interessantes que viram, comentários rápidos e indicações de onde achar mais informação. Depois uma apresentação sobre um tema de meia hora. Um intervalo com pizza e refrigerante (oferecidos pela anfitriã) e nos trinta minutos restantes temos lightining talks, palestras muito rápidas -cinco à dez minutos- sobre coisas aleatórias no mundo Ruby/Rails. No fim vai todo mundo para o pub, como bons australianos. Como em Melbourne anoitece às 21h nessa época do ano a noite ainda nem começou.

A palestra principal foi sobre TreeTop mas falamos sobre Faker, benchmarks de servidores web, ImageMagik, a LnuxConf Melbourne que está rolando esses dias e dezenas de outras coisas. Não haviam espectadores, todos eram participantes.

Fazia muito tempo que não tinha uma noite nerd tão agradável.

Entrevista sobre Domain-Specific Languages

Tuesday, January 29th, 2008

O Laércio Queiroz me entrevistou sobre DSLs. O resultado você vê no blog dele.

Not Bad, What About Yourself?

Friday, December 28th, 2007

Removendo algumas teias de aranha do blog. Está sendo um tempo bem difícil com todos estes feriados e tudo mais por aqui mas consegui uma brecha razoável neste natal para colocar algumas coisas em dia.

Como vimos nos últimos capítulos estou em um grande cliente num projeto em Ruby. Na verdade o projeto é uma grande plataforma tecnológica onde Java é usado no produto em si e Ruby no grande conjunto de ferramentas que os desenvolvedores criaram. A parte que eu estou trabalhando neste momento (ou para onde irei voltar dia 2 de janeiro) é um sistema que atesta a veracidade de informações.

Não dá para falar muito sobre o projeto em si mas é algo bem interessante. A empresa cliente é membro de um grande conglomerado de empresas tradicionalíssimas que lidam com tecnologia e engenharia em diversas frentes. Essa empresa em específico tem um problema interessante: ela possui uma mina de ouro em dados exclusivos mas seu sistema é completamente ultrapassado. Mesmo com esse problema em forma de legado seu banco de dados é a fonte mais confiável sobre estes dados que se têm na Oceania e estes dados são necessários para praticamente todas as empresas do país, então ela se mantém como player no mercado.

Como sempre acontece nestes novos (30 anos?) tempos boa parte dos seus clientes não está satisfeita com os serviços e está usando meios alternativos para conseguir as informações que precisa sem passar pelo sistema burocrático e antiquado. Mesmo estes meios sendo mais caros e trabalhosos que o sistema legado ainda assim preferem fugir do sistema atual de alguma forma, qualquer que seja.

Há alguns anos a ThoughtWorks entrou nesta empresa para tocar um projeto que está entregando a fase final em algumas semanas. O trabalho foi tão bem aceito que a empresa adotou o estilo agile & lean de administrar as coisas para si, ao andar pelos dois prédios de 7 andares que a empresa ocupa você vai ver dezenas de cartões pregados na parede formando diversos posteres kanban, do pessoal de marketing até o da produção. Para lidar com o domínio de negócio, algo bem específico e pesado, eles formaram várias pequenas equipes, geralmente com cinco pares de desenvolvedores (100% pair programming), um ou dois analistas de negócios, um representante do cliente (client on-site) e alguns analistas de testes.

Como falei a coisa funcionou bem e o projeto onde eu estou é o segundo com participação da ThoughtWorks. Além dos nossos consultores existem diversos funcionários e alguns consultores empregados por outras empresas: É muito engraçado ver gente que trabalha oficialmente para uma empresa de três letrinhas, CMMi nível 23 e meio praticando agile feliz da vida e comentando como este é o primeiro projeto que vê funcionar na vida.

É interessante ver mais um caso de empresa que muda não para seguir a nova regrinha do jogo mas sim porque precisa mudar. Sei que tem muita gente que discorda de mim mas acho que nos últimos anos as empresas ficaram muito mais maduras com relação ao que adquirem. Há um movimento interessante nas empresas brasileiras que fazem do software seu negócio para retirar terceirizados e colocar sua gente para desenvolver.

Se você perguntar a qualquer analista de mercado ou ler qualquer boa ou má publicação vai ver que isso seria a maior besteira. Ainda que uma empresa como Globo.com, UOL, ig, e etc. dependa do software ela não produz software para viver. Uma empresa deste tipo deveria, segundo a lógica do preto-no-branco, comprar os serviços para uma empresa de desenvolvimento de software. Isso faz sentido e diminui o custo de manter uma equipe de desenvolvimento. O problema é que, como sempre diz minha esposa: economia simplista tende à economia burra.

O modelo funciona no papel e deveria funcionar na vida real mas não funciona. Segundo o pensamento acima quando contratamos uma empresa de software estamos contratando serviços de alguém especializado nisso. Mentira. A grande, grande maioria das empresas que oferecem serviços de consultoria no desenvolvimento não tem a menor idéia do que é desenvolver um software. Seus profissionais são expostos (quando são!) a um treinamento pasteurizado e superficial, os poucos profissionais capacitados destas empresas são por mérito próprio.

Então temos uma equação interessante. Digamos que manter funcionários especializados no desenvolvimento na folha de pagamento custe X. Esse é, por exemplo, o mesmo valor que pagamos à empresa JCN (nome ilustrativo, nem sei se existe uma empresa com esse nome) para alocar seus funcionários na nossa empresa. Se fosse só por isso ia ser um negócio estranho, íamos ter um 0-a-0 no investimento. O problema é que manter um corpo técnico como funcionários da empresa não custa só isso, você precisa investir para que este corpo técnico seja capacitado. Este é o custo que seria evitado contratando os serviços da JCN.

O problema é que após algumas décadas os clientes passaram a perceber que a empresa JCN não investe nada nos seus profissionais. Eles começaram a perceber que a JCN não entende nada de desenvolvimento de software. Alguns clientes não acham que valha a pena fazer algo a este respeito. Continuam na mesma coisa, exigem um certificado CMMi novo e toda vez que fecham um contrato já se preparam para o processo que sem dúvida vai acontecer quando o projeto não for entregue nos termos deste.

Tem outras empresas, no entanto, que não podem ter este prejuízo porque se o software atrasar não vai ser seu gerenciador de estoque que sai do ar, é o seu negócio como um todo, sua fonte de renda. Pelo que já vi na prática essas empresas fazem uma de duas coisas: ou (re-)internalizam o desenvolvimento ou contratam uma empresa realmente capacitada.

A primeira parte é mais cara e trabalhosa, mas pode ser melhor. O cliente adquire uma equipe de desenvolvimento e se preocupa em treiná-los. É preciso que este time entenda como desenvolver software e é por isso que estamos vendo tantos cursos in-company de Scrum, XP e etc. Você já viu consultoria de três letrinhas pagar isso para seus funcionários? Quem está comprando estes treinamentos são os clientes, não os fornecedores. Algo para pensar, não?

No segundo caso o cliente acha uma empresa em que confie para uma parceria. Neste ponto que eu acho que as pequenas consultorias tendem a fazer bastante dinheiro. Um grupo pequeno de desenvolvedores talentosos e motivados pode fazer muito mais do que uma grande corporação de três letrinhas com duzentos funcionários alocados para seu projeto. Palavra de quem já esteve dois dois lados, de quem compra e de quem vende.

O meu cliente atual está indo para a primeira opção. Para chegar lá ele tem que enfrentar dois problemas: 1) é caro e 2) se os dois projetos não saírem até o meio do ano não precisa mais continuar a contratar gente porque a oportunidade vai ser perdida. Neste cenário o que eles fazem é contratar consultores que eles confiem para atuar junto aos seus funcionários e desenvolver o software. Os consultores, mesmo os das empresas de três letrinhas, são minuciosamente entrevistados num processo que lembra o próprio processo seletivo da ThoughtWorks.

Após este tempinho lá e medindo com minha experiência passada eu acredito que estejam no caminho certo. Eles possuem equipes com profissionais muito acima da média a um custo razoável. Estes profissionais estão entregando os projetos e ao mesmo tempo construindo a cara dos departamentos de desenvolvimento. Quando os projetos encerrarem acho que 1/3 do número de pessoas vai ser necessário para manutenção e demais desenvolvimento, como é o aproximado número de consultores não deve haver problema. Os times pequenos já são rearranjados diariamente mesmo.

Claro que o processo de achar consultores é difícil e requer investimento. Seguir este plano é bem mais difícil que fazer uma ligação do tipo: “Alô, é da JCN? Me manda 300 programadores Java, por favor? 30 minutos? Obrigado”. Eu não diria que é uma solução para todos, sequer para a maioria, já falamos um pouco sobre isso aqui.

O que eu digo a respeito da situação na maioria das empresas que está com problemas no desenvolvimento (e qual não está?) é: façam algo. Após tanto tempo comprando dos mesmos fornecedores e recebendo porcaria em troca porque você continua com eles? Após tanto tempo desenvolvendo software ruimd esta forma porqu você continua fazendo isso?

Seja lá o que fizer, faça algo. Só, por favor, não compre soluções de caixinha. Certificados, ferramentas, cursos, livros, vudu… nada disso vai adiantar, pelo menos não sozinho. Descubra a motivação das coisas e veja se aquele eu fornecedor (ou se o produto que ofereces) que diz que faz a práticas X e Y e por iso tem o certificado Z sabe, ao menos, porque ele deveria fazer aquilo.

Apresentação sobre Agile para Analistas de Negócio

Sunday, December 16th, 2007

Lendo os ThoughtBlogs hoje achei uma ótima apresentação feita por John Johnston. A idéia é introduzir os conceitos de agilidade no ponto de vista de um analista de negócios.

Já Temos Tecnologia o Suficiente

Monday, December 3rd, 2007

Estava pensando sobre o texto que escrevi ontem sobre modelos de negócio afetados por escolhas tecnológicas e acho que posso ter confundido alguém. Minha idéia não é dizer que modelo de negócio não é importante, pelo contrário este é a coisa mais importante numa empresa, apenas atentei para o fato de que as escolhas tecnológicas afetam o modelo de negócios. O caso de exemplo era sobre uma empresa com ótimo modelo e tecnologia não adequada.

Na verdade, provavelmente a tecnologia existente há alguns anos é mais que suficiente para modelar de excelente maneira qualquer domínio. O problema é que ainda somos (como indústria) amadores no desenvolvimento de software.

Veja por exemplo meu primeiro dia no projeto novo. Uma das maiores empresas da Austrália precisa migrar milhões de dados sobre seus clientes do sistema legado para o novo. Eu cheguei no meio do projeto e minha primeira tarefa é atuar no sistema que faz uma checagem ara ver se os dados foram mirados corretamente. Moleza.

Até a hora do almoço meu par e eu tínhamos escrito todo o script Ruby que conecta com o servidor do sistema legado, obtém o resultado da consulta desejada como HTML, faz parsing dele com o hpricot, armazena num banco de dados utilizando ActiveRecord, chaa os scrits e comparação, faz caching em disco e retorna um resultado em XML. Tudo isso rodando numa task do rake e testado com RSpec. Moleza.

O difícil foi fazer os scripts de comparação. A tecnologia já oferece mais que suficiente para criar este mecanismo, já fizemos uma arquitetura baseada no padrão Chain of Responsibility que vai validar todos os casos mas e entender as regras do negócio?

Sempre vai ter aquele que diz “ora, tá tudo documentado em caso de uso, diagrama de domínio e etc.’. Já tive o desprazer de trabalhar em diversos projetos que acreditavam que isso é verdade e invariavelmente o resultado era que o novato só ficava produtivo depois de um mês e pouco.

Hoje, no meu primeiro dia no projeto novo, já consegui ser produtivo e implementar boa parte de uma história. A mágica não está no Ruby, não está no Mac, não está no Java nem no SOA. Está em uma palavrinha que eu coloquei no texto lá no início e talvez tenha assado despercebida:

Até a hora do almoço meu par e eu tínhamos escrito todo o script[...]

Na chegada eu fui recebido com uma visão geral do sistema, seus objetivos e arquitetura. Em uma hora eu estava programando uma parte importante e para me mantêr dentro do domínio havia ma pessoa com anos de experiência na casa pareando comigo. Acredito que amanhã pela manhã tenhamos completado a user story que estávamos implementando.

A tecnologia vai continuar evoluindo e nos levando para luares fantásticos mas o que a maioria das empresas precisa é de uma faxina no modo de pensar das pessoas, tanto do alto quanto do baixo escalão.